21  Amnésia

21.1 O que é amnésia

Esquecer um nome, uma data ou o lugar onde se deixou a chave faz parte do funcionamento normal da memória, e tem sua utilidade. Amnésia é outra coisa: é o nome dado à forma mais grave de comprometimento da memória (Markowitsch; Staniloiu, 2012). Distúrbios de memória ocorrem com frequência depois de um dano cerebral, mas também podem estar associados a doenças psiquiátricas (Markowitsch; Staniloiu, 2012).

Distúrbios de memória podem ser psicogênicos, que às vezes ocorrem em pessoas saudáveis, ou orgânicos, associados a doença do cérebro (Oyebode, 2015, p. 61). Os distúrbios de memória de causa orgânica podem ser descritos pela função da memória que atingem: o registro (ou codificação), que acrescenta informação nova ao acervo; a retenção (ou armazenamento), que a mantém; a recuperação, que dá acesso ao que foi guardado; a recordação, que é a recuperação com esforço, num momento escolhido, como ao responder qual é a capital da França; e o reconhecimento, que identifica um item já aprendido entre outros, como ao escolher a resposta certa entre Paris, Lille e Lyon (Oyebode, 2015, p. 60).

Amnésia não é um quadro único. Como a memória não é uma unidade, mas um conjunto de sistemas, a amnésia é um quadro multifacetado (Markowitsch; Staniloiu, 2012). Alguns quadros se definem pela posição no tempo em relação ao evento que causou o déficit, como a amnésia anterógrada e a retrógrada; outros ficam restritos a um tipo de material ou a uma modalidade sensorial (Markowitsch; Staniloiu, 2012). Algumas amnésias são transitórias, como a amnésia global transitória; outras, persistentes (Kopelman, 2002).

Kopelman (2002) organiza a sua revisão dos distúrbios de memória em torno de perguntas que continuam abertas: 1) o que fica comprometido e o que fica preservado na amnésia anterógrada; 2) se as amnésias por lesão do lobo temporal, do diencéfalo e do lobo frontal diferem entre si; 3) o que determina o padrão e a extensão da perda retrógrada; 4) se a amnésia psicogênica envolve os mesmos mecanismos da amnésia orgânica; e 5) como e quando surgem as falsas memórias. Ele defende que essas literaturas, tratadas em separado, têm mais em comum do que parece, e propõe uma abordagem mais dinâmica, interacionista, da amnésia (Kopelman, 2002).

Algumas dessas perguntas já têm um começo de resposta. HM aprendia uma habilidade motora sem lembrar de ter praticado, e isso mostra que a amnésia anterógrada preserva parte da memória. A síndrome de Korsakoff, cujas lesões ficam no diencéfalo, é um dos termos da comparação entre amnésias de origem diferente. A relação entre amnésia psicogênica e orgânica é o eixo do diagnóstico diferencial da amnésia dissociativa. E as falsas memórias surgem também em quem não tem amnésia nenhuma.

21.2 Amnésia retrógrada e anterógrada

O conceito de amnésia anterógrada e retrógrada depende de um evento no tempo: o momento do incidente que gerou o déficit. Esse incidente pode ter sido um traumatismo cranioencefálico, uma cirurgia, um tumor, um acidente vascular cerebral, etc. A data desse incidente é o ponto de referência usado para classificar o tipo de amnésia do paciente em retrógrada ou anterógrada. A incapacidade de lembrar eventos ocorridos antes do incidente é denominada de amnésia retrógrada e a incapacidade de lembrar eventos ocorridos após o incidente é denominada de amnésia anterógrada.

Linha do tempo horizontal com seta apontando para a direita, rotulada Tempo. Uma linha vertical vermelha no centro marca o incidente. À esquerda, uma faixa âmbar rotulada Amnésia retrógrada, que esmaece para o passado; à direita, uma faixa azul rotulada Amnésia anterógrada, que esmaece para o futuro. Nas duas pontas, Memória preservada. Sob as faixas: não lembra eventos ocorridos antes do incidente; não lembra eventos ocorridos depois do incidente.
Figura 21.1: Amnésia retrógrada e anterógrada em relação ao incidente que gerou o déficit: a retrógrada atinge os eventos anteriores, a anterógrada, os posteriores. Esquema; a extensão das faixas não representa duração real.

O paciente HM possuía esses dois déficits em intensidades diferentes. Tinha uma amnésia retrógrada de 3 anos, ou seja, não se lembrava de nenhum acontecimento nos 3 anos antes de ter sido submetido à cirurgia de ressecção do hipocampo (Scoville; Milner, 1957). Por outro lado, o comprometimento da capacidade de se lembrar de eventos ocorridos após a cirurgia era bastante grave. Ou seja, HM apresentava uma grave amnésia anterógrada. Era incapaz de se lembrar de ter almoçado com seu médico depois de passados alguns minutos.

21.3 Em resumo

Tabela 21.1: Amnésia retrógrada e anterógrada
Tipo O que fica comprometido Em HM
Retrógrada Lembrar eventos ocorridos antes do incidente Cerca de 3 anos anteriores à cirurgia
Anterógrada Formar memórias de eventos ocorridos depois do incidente Grave: não lembrava de ter almoçado com o médico minutos antes
DicaNa clínica

A primeira pergunta diante de uma amnésia é temporal: o que o paciente não lembra aconteceu antes ou depois do evento — ou de quando começou a queixa? A resposta separa a amnésia retrógrada da anterógrada e é o ponto de partida do roteiro das síndromes amnésicas e da avaliação à beira do leito. As perguntas seguintes vêm das outras facetas do quadro: o déficit é transitório ou persistente, e há um dano cerebral identificável ou um contexto psiquiátrico?

NotaPontos-chave
  • Amnésia é a forma mais grave de comprometimento da memória. Distúrbios de memória são frequentes após dano cerebral, mas também podem estar associados a doenças psiquiátricas.
  • A psicopatologia separa os distúrbios de memória psicogênicos dos orgânicos e descreve estes pela função atingida: registro, retenção, recuperação, recordação ou reconhecimento.
  • Não é um quadro único: há variantes (anterógrada e retrógrada, restritas a um material ou a uma modalidade, global transitória) e cursos diferentes (transitório ou persistente).
  • Amnésia retrógrada e anterógrada se definem em relação ao momento do incidente que gerou o déficit: a retrógrada atinge os eventos anteriores; a anterógrada, os posteriores.
  • HM tinha amnésia retrógrada de cerca de três anos e amnésia anterógrada grave.