29 Memória e história: a lista e a narrativa
Demonstração do poder da narrativa como esquema: as mesmas palavras, apresentadas primeiro como lista solta e depois dentro de uma história, produzem taxas de recordação muito diferentes (Bower; Clark, 1969).
29.1 Objetivos
- Vivenciar a diferença entre memorizar uma lista e memorizar uma história.
- Discutir por que a narrativa funciona como esquema organizador.
29.2 Roteiro
Parte 1 — A lista
Projete a lista por cerca de um minuto e peça que memorizem:
ambulância · SAMU · pronto-socorro · Santa Clara · maca · paciente · 62 · enfermeira · Marta · pressão · monitor · plantonista · Helena Ribeiro · eletrocardiograma · infarto · aspirina · cardiologista · cateterismo · hemodinâmica · massagem · desfibrilador · stent · UTI
Retire a lista. Peça que escrevam quantas palavras lembrarem. Conte.
Parte 2 — A história
Projete o texto abaixo pelo mesmo tempo e peça que memorizem:
Uma ambulância do SAMU parou na porta do pronto-socorro do Hospital Santa Clara de madrugada. A equipe desceu com a maca trazendo um paciente de 62 anos com dor no peito. A enfermeira Marta mediu a pressão e ligou o monitor, enquanto a plantonista, a médica Helena Ribeiro, pedia o eletrocardiograma. O traçado confirmou o infarto, e o paciente recebeu aspirina ali mesmo. A cardiologista de sobreaviso foi chamada e indicou o cateterismo de urgência. No corredor, a caminho da hemodinâmica, o coração parou: a equipe iniciou a massagem e aplicou um choque com o desfibrilador. O ritmo voltou, a artéria entupida recebeu um stent e, ao amanhecer, o paciente acordou na UTI, fora de perigo.
Retire o texto. Peça que escrevam as mesmas palavras da lista original que conseguirem lembrar. Conte e compare.
29.3 Discussão
- Quantas palavras a mais foram lembradas na segunda vez? Parte disso é repetição, mas o salto costuma ser grande demais para ser só repetição. O que a história acrescentou?
- A história permite reconstruir palavras que não foram memorizadas (se o coração parou, houve massagem e desfibrilador). Isso é memória ou inferência? Faz diferença?
- Para o estudante: como transformar uma lista de critérios diagnósticos numa história (um caso)? Para o professor: por que casos clínicos ensinam mais do que tabelas?
29.4 Histórias alternativas
A atividade perde a graça quando a turma já conhece a história — e a história circula entre períodos. As três versões abaixo seguem o mesmo desenho: a lista traz as palavras na ordem em que aparecem na história, e o roteiro é idêntico.
O incêndio
alarme · Edifício Aurora · meia-noite · fumaça · escada · 12 · porteiro · Geraldo · bombeiros · caminhão · sirene · tenente · Souza · capacete · máscara · mangueira · 804 · panela · fogão · oxigênio · chamas · moradores · pijama
O alarme soou no Edifício Aurora pouco depois da meia-noite, quando a fumaça começou a subir pela escada do prédio de 12 andares. O porteiro, seu Geraldo, ligou para os bombeiros e saiu batendo de porta em porta. O caminhão chegou com a sirene ligada e a tenente Souza organizou o resgate: dois bombeiros de capacete e máscara subiram com a mangueira até o apartamento 804, onde o fogo tinha começado numa panela esquecida sobre o fogão. Uma moradora recebeu oxigênio na calçada e foi examinada pela equipe. Em menos de uma hora as chamas estavam controladas, o prédio foi ventilado e os moradores voltaram para casa ainda de pijama.
A regata
veleiro · Albatroz · regata · Santos · Ilhabela · tempestade · onda · mastro · vela · convés · comandante · Fonseca · coletes · rádio · socorro · coordenadas · Marinha · helicóptero · nadador · guincho · cesta · porto · cobertores
O veleiro Albatroz disputava a regata entre Santos e Ilhabela quando o vento virou e uma tempestade fechou o canal. Uma onda quebrou o mastro e derrubou a vela sobre o convés. O comandante, Pedro Fonseca, mandou a tripulação vestir os coletes e transmitiu pelo rádio um pedido de socorro, informando as coordenadas. A Marinha respondeu e enviou um helicóptero. O nadador de resgate desceu pelo guincho, prendeu um a um os tripulantes na cesta, e todos foram içados em segurança. O Albatroz foi rebocado até o porto ao amanhecer, e a tripulação desembarcou enrolada em cobertores.
A missão espacial
cápsula · Vega 9 · estação espacial · alarme · pressão · tanque · oxigênio · comandante · Lúcia Ramos · pane · controle · acoplamento · astronautas · válvula · bateria · computador · reentrada · atmosfera · rádio · quatro · paraquedas · oceano · navio
A cápsula Vega 9 estava a caminho da estação espacial quando um alarme indicou queda de pressão num tanque de oxigênio. A comandante, Lúcia Ramos, relatou a pane ao controle da missão, que cancelou o acoplamento. Os dois astronautas fecharam a válvula, desligaram tudo o que não era essencial para poupar a bateria e calcularam no computador a trajetória de volta. A cápsula acionou os motores, iniciou a reentrada e atravessou a atmosfera com o rádio mudo por quatro minutos. Os paraquedas abriram no tempo certo, a Vega 9 caiu no oceano e um navio recolheu a tripulação em segurança.
29.5 Ligação com o livro
Capítulo 11 (Esquemas, scripts e histórias).