9  Falsas memórias

Em geral confiamos em nossas lembranças. Quando me lembro da senha do banco, geralmente confio nessa lembrança. Quando me lembro do nome de um amigo, confio nessa lembrança. Às vezes erramos mesmo quando temos certeza de algo. Mas em geral, confiamos em nossas memórias.

Essa confiança sustenta boa parte da vida e das nossas relações. Na medicina, uma anamnese é, quase inteira, memória: o paciente conta quando a dor começou, o que tomou, se já teve algo parecido, quem na família teve o mesmo; o médico, horas depois, registra o que ouviu. Um diagnóstico pode depender de uma data de que o paciente “tem certeza” e de um detalhe de que “lembra bem”. É raro alguém perguntar quão confiável é esse material.

A imperfeição da memória já é conhecida desde os experimentos de Ebbinghaus em 1885, quando mostrou que as pessoas geralmente esqueciam cerca de 50% das informações depois de passada uma hora (Ebbinghaus, 1913). Mas além de esquecimentos, a memória humana é suscetível a distorções, pois é altamente maleável. Desde os anos 1970, muitas pesquisas demonstraram que memórias estão sendo constantemente alteradas, que detalhes de uma memória podem ser modificados, e também que até mesmo podem ser criadas novas memórias de fatos nunca ocorridos (Gordon, 1983; Wright; Loftus, 1998). Por experiência própria todos sabemos que podemos nos esquecer de um detalhe com o passar do tempo. Mas é bem menos intuitivo saber que as memórias são frequentemente reconstruídas em nosso cérebro, possibilitando tanto distorções das informações armazenadas como também o acréscimo de novas informações. Essa reconstrução ativa da memória é um processo contínuo, ocorrendo sempre que a memória é relembrada, ocorrendo tanto em seres humanos quanto em animais (Gordon, 1983). O mero relato de um evento pode modificar a memória sobre o evento (Marsh; Tversky; Hutson, 2005).

A partir do final da década de 1970, muitas pesquisas começaram a estudar o fenômeno da incorporação de novas informações na memória. Numa pesquisa clássica em 1974 Loftus e colaboradores demonstraram que a mera mudança na forma como uma pergunta era feita modificava a lembrança de um evento (Loftus; Palmer, 1974). Nessa pesquisa, os participantes assistiam a um pequeno filme com um acidente de carro e eram então questionados acerca da presença ou não de estilhaços de vidro quebrados. Apesar de não haver nenhum vidro quebrado nos filmes apresentados, alguns dos participantes alegavam terem visto estilhaços de vidro. O fato de estilhaços de vidro serem comuns em acidentes automobilísticos fez com que a memória de algumas pessoas passasse a incorporar essa falsa lembrança. Ou seja, a informação visual de vidros quebrados foi acrescentada na memória a partir do próprio repertório de memórias dos participantes. Essa pesquisa começou a mostrar que memórias de um determinado evento podem sofrer influência de memórias de outros eventos passados. Mas essa pesquisa foi além disso, mostrou que o percentual de pessoas que diziam ter visto os vidros quebrados dependia da forma como a pergunta era feita. Metade dos participantes foi questionada com a pergunta “Qual a velocidade dos carros quando eles se chocaram?” e a outra metade com a pergunta “Qual a velocidade dos carros quando eles se esmagaram?”. Após uma semana, foram questionados se haviam visto algum vidro quebrado. Houve um percentual muito maior de participantes que diziam se lembrar de terem visto vidros quebrados entre os que haviam sido questionados com o verbo esmagar, em comparação com os que haviam sido questionados com o verbo chocar. Além disso, o verbo usado modificou também a percepção da velocidade dos carros. A velocidade percebida foi muito maior entre os que haviam sido questionados com o verbo esmagar. Se a mera mudança num verbo pode modificar uma memória, podemos imaginar o quanto uma entrevista inteira com uma testemunha pode modificar a memória do que foi visto e o quanto o relato e a reconstrução da realidade a ser julgada serão modificados.

Outra pesquisa mostrou que informações falsas fornecidas após um evento modificavam a lembrança do que foi visto (Loftus, 1977). Nessa pesquisa os participantes assistiram a um acidente no qual um carro vermelho atropelou um pedestre e um carro verde passou sem parar. Não havia nenhum carro azul nos vídeos. Mas os participantes eram questionados se haviam visto “o carro azul”. Essa informação era inserida de forma afirmativa, como se realmente existisse um carro azul. Após esse questionamento muitos passaram a acreditar terem realmente visto um carro azul (Loftus, 1977). A maioria dos participantes facilmente integrou a falsa informação na memória do evento. No que tange à esfera criminal, podemos supor o quanto podem ser alterados detalhes da lembrança sobre a aparência de um suspeito — a roupa, o cabelo, a altura —, bastando para isso uma pergunta sugestiva.

Alguns anos mais tarde, foi demonstrado ser possível não apenas modificar a cor de um objeto na memória, mas também inserir um objeto inteiramente novo na memória de uma cena (Cole; Loftus, 1979; Loftus; Miller; Burns, 1978). A mera menção de que havia um determinado objeto numa cena previamente visualizada poderia fazer com que as pessoas passassem a crer terem realmente visto o objeto. Ou seja, era possível criar intencionalmente na mente de uma pessoa a lembrança de que um determinado objeto havia sido visto. Num desses experimentos, 17% dos participantes passaram a ter a memória de terem visto um celeiro inexistente (Loftus, 1975). Após assistirem a uma cena de um acidente de carro, os participantes eram questionados “quão rápido estava o carro esportivo branco quando passou pelo celeiro?”. Apesar de não haver nenhum celeiro no vídeo assistido, a pergunta introduzia a nova informação de forma afirmativa e era incorporada na memória da cena presenciada. Esses experimentos mostraram que mencionar um objeto para uma testemunha durante o curso de uma entrevista aumentava a chance da testemunha posteriormente alegar ter visto esse objeto (Loftus, 1979). Esses estudos mostraram também que uma memória poderia ser modificada tempos depois de o fato ter ocorrido. Nesse mesmo experimento foi demonstrado que o elemento falso era mais facilmente inserido na memória quando a intervenção ocorria depois de um tempo maior, pois a memória sobre o evento já estava mais dissipada e mais facilmente modificável (Loftus; Miller; Burns, 1978). Ou seja, uma entrevista malconduzida com uma testemunha pode ser capaz de modificar a memória dos eventos mesmo quando realizada tempos depois.

Até mesmo indivíduos com memória autobiográfica superior (HSAM) podem apresentar falsas memórias. Patihis (2013) relatou que pessoas com HSAM eram tão suscetíveis a distorções de memória quanto os controles.

A partir da constatação de que detalhes das memórias podiam ser modificados, na década de 1990 vários pesquisadores começaram a avaliar se seria possível implantar memórias complexas (“rich false memories”) na mente das pessoas. Um estudo conseguiu demonstrar ser possível implantar falsas memórias de que o participante, quando criança, esteve perdido por um tempo prolongado em um shopping e que foi resgatado por uma pessoa idosa (Loftus; Pickrell, 1995). Diversos outros estudos mostraram ser possível implantar falsas memórias de eventos da infância. Num desses estudos foi implantada a falsa memória de que, quando criança, o sujeito havia sofrido um acidente em um casamento de família (Hyman; Husband; Billings, 1995). Numa outra pesquisa foi inserida a falsa memória de que o sujeito havia sido vítima de um ataque de um animal (Porter; Yuille; Lehman, 1999) e num outro estudo que o sujeito tinha quase se afogado e resgatado por um guarda-costas quando criança (Heaps; Nash, 2001).

No mundo real, as interferências na memória de uma testemunha podem vir de diversas formas: numa conversa entre as testemunhas, num interrogatório mal conduzido, numa cobertura da mídia sobre um evento etc. (Loftus, 2005). Essas interferências podem levar as pessoas a acreditarem falsamente que viram detalhes que só foram sugeridos a eles e, uma vez acolhidas, essas falsas informações podem causar alterações duradouras na memória (Fischhoff, 1977), que passam então a ser expressas com confiança e detalhes (Loftus, 2005).

A suposição de que a memória é confiável é um dos fundamentos do sistema legal. A reconstrução da verdade num processo judicial frequentemente depende da memória daqueles que presenciaram ou estiveram de alguma maneira envolvidos nos fatos, e um testemunho ou confissão podem ter um papel central na sentença criminal (Shaw; Porter, 2015). Entretanto, grande parte das pessoas acredita que a memória funciona como uma câmera de vídeo e que, uma vez formada, a memória não se modifica (Simons; Chabris, 2011). No sistema jurídico, assim como entre o público em geral, persistem as noções de que a memória é altamente acurada e imutável (Lacy; Stark, 2013). Juízes e jurados, em geral, conhecem pouco a pesquisa sobre como a memória funciona (Bennett, 2017; Bennett, 2014; Benton et al., 2006; Brigham; Bothwell, 1983; Cutler; Penrod; Stuve, 1988; Deffenbacher; Loftus, 1982). Mesmo entre as forças policiais, e apesar do treinamento em técnicas de entrevista, ainda são comuns noções imprecisas sobre a memória e sobre os procedimentos que evitam esses erros (Benton et al., 2006; Chaplin; Shaw, 2016; Karagiorgakis, 2010; Patenaude, 2006).

9.1 O efeito de foco na arma

Um fator que agrava a imprecisão da testemunha é a atenção. A presença de uma arma, ou de qualquer novidade na cena, atrai a atenção e reduz o que se codifica do resto, inclusive do rosto de quem segura a arma: é o efeito de foco na arma (weapon focus), demonstrado por Loftus, Loftus e Messo (1987).

9.2 Confissões falsas: os seis de Beatrice

Em fevereiro de 1985, Helen Wilson, de 68 anos, foi estuprada e morta em Beatrice, Nebraska. O xerife local prendeu seis suspeitos; cinco confessaram o assassinato, e as confissões levaram às suas condenações em 1989. Nenhum deles conseguia se lembrar da noite do crime até que um psicólogo lhes sugeriu que não se lembravam porque as memórias eram traumatizantes demais. Em 2009, o exame de DNA mostrou que o sangue do local e o sêmen no corpo da vítima pertenciam a outro homem; os seis foram inocentados depois de terem passado, somados, 77 anos na prisão (Aviv, 2017; Oxygen, 2022). O caso mostra que a implantação de memórias, demonstrada em laboratório com um shopping ou um casamento, acontece também com um crime, e que uma confissão sincera pode ser falsa. Shaw e Porter (2015) reproduziram o fenômeno experimentalmente, e Shaw (2016) o discute para o público geral em The Memory Illusion. A palestra de Elizabeth Loftus sobre a ficção da memória é um bom fechamento para a discussão (Loftus, 2013).

9.3 O reconhecimento de pessoas

O reconhecimento de suspeitos é o ponto em que a psicologia da memória mais entra no direito. A American Psychology-Law Society publicou recomendações de política e procedimento para a coleta e a preservação da prova de identificação por testemunha ocular (Wells et al., 2020). Para o contexto brasileiro, Silva e Brandão (2020) tratam do reconhecimento de pessoas e das falsas memórias no direito criminal.

DicaNa clínica

Tudo o que vale para a entrevista com a testemunha vale para a anamnese. Uma pergunta que embute a resposta (“a dor é em aperto?”, “o senhor ouvia vozes?”) funciona como o verbo “esmagaram”: pode alterar a lembrança que o paciente vai relatar — e a informação sugerida, uma vez incorporada, passa a ser expressa com confiança e detalhes (Loftus, 2005). A regra prática é a mesma da entrevista forense: perguntas abertas primeiro, e desconfiar da própria hipótese diagnóstica como fonte de sugestão.

NotaPontos-chave
  • A memória é muito mais sujeita a falhas do que o senso comum supõe: além de esquecer, ela distorce e incorpora informação que nunca ocorreu.
  • Nos experimentos de Loftus e colaboradores, a forma da pergunta (“chocaram” × “esmagaram”), a informação falsa pós-evento (o carro azul) e a simples menção a um objeto (o celeiro) alteraram a lembrança — e tanto mais quanto maior o intervalo desde o evento.
  • É possível implantar memórias complexas de eventos da infância que nunca aconteceram (perdido no shopping, acidente num casamento, ataque de animal, quase afogamento).
  • Juízes, jurados e policiais tendem a acreditar que a memória funciona como uma câmera de vídeo; os seis de Beatrice confessaram sinceramente um crime que não cometeram.
  • A presença de uma arma atrai a atenção e reduz o que se codifica do resto da cena, inclusive o rosto de quem segura a arma (foco na arma).