1 Introdução
Grande parte da vida depende da memória. Sem memória não haveria linguagem, não saberíamos sequer escolher as palavras de uma frase. Também não saberíamos como dançar uma valsa, cantar uma música ou tocar um violão. Não saberíamos nem ao menos voltar para casa ou que caminho seguir. Sem memória não teríamos identidade, não saberíamos sequer quem somos e quem são nossos amigos e familiares, não saberíamos em quem confiar. As lembranças da própria vida compõem a história de quem somos e sustentam o sentido de identidade (Fivush et al., 2011, p. 322). Não haveria saudades ou remorso. Essas atividades e capacidades humanas se mostram visivelmente prejudicadas nas doenças que afetam globalmente a memória, tal como nos casos avançados da doença de Alzheimer. A perda da capacidade global da memória nas demências é avassaladora para o paciente e familiares, já que em estágios avançados o paciente pode até mesmo não reconhecer os familiares ou a si mesmo (Biringer; Anderson, 1992).
Sem a memória não haveria família, nem tribos, cidades ou países. Não haveria ciência ou pesquisa. Não haveria criatividade, inovação, produção ou comércio. Não haveria arte, livros, escolas, professores ou alunos. Não existiria a humanidade tal como a conhecemos.
Culturas se mantiveram por séculos graças à memória. Antes da criação da escrita, a memória era um recurso central para a preservação da informação, e as experiências dos antepassados eram transmitidas de forma oral para os descendentes.1 Durante milênios, as histórias, as lendas, as leis foram preservadas porque o ser humano é dotado de uma memória capaz de armazenar informações. A preservação da informação através da escrita é um fenômeno relativamente recente dentro da história da existência da humanidade. Fósseis de Homo sapiens encontrados em Jebel Irhoud datam de aproximadamente 300 mil anos atrás (Hublin et al., 2017), mas a escrita parece ter surgido muito mais tarde, por volta de 3.100 a.C. (ou seja, há cerca de 5.100 anos) na Mesopotâmia (Gelb, 1963, pp. 60–63). A escrita surgiu, portanto, quando já haviam transcorrido cerca de 98% desse intervalo.
Como os processos de memória se desenvolveram? Em que aspectos a memória humana se aproxima ou difere da de outros animais? Como experiências anteriores influenciam o comportamento? Como aprendemos e por que esquecemos?
1.1 Os primórdios da memória
A capacidade de captar informação do ambiente e responder a ela é muito mais antiga do que a espécie humana.2 Godfrey-Smith (2016) situa uma transformação decisiva dessa capacidade há mais de 500 milhões de anos, na passagem do Ediacarano para o Cambriano.
No Ediacarano, período que termina há cerca de 540 milhões de anos, os fósseis não mostram órgãos sensoriais grandes e complexos: não há olhos grandes nem antenas, e também não há garras, espinhos ou conchas. Esses animais quase certamente respondiam à luz e a traços químicos, mas investiam pouco nesse tipo de equipamento. Pelo que o registro fóssil deixa ver, interagiam pouco entre si, e não há evidência clara de predação. Godfrey-Smith ressalva que o registro fóssil pode ser um guia ruim: interações químicas não deixam traço, a competição em sentido evolutivo é inevitável e alguns fósseis mostram possíveis marcas de predação. Uma das hipóteses que ele examina atribui aos sistemas nervosos desses animais um papel principalmente de coordenação interna, moldar movimentos e manter ritmos, com alguma percepção do ambiente. Ele reconhece que essas inferências podem estar erradas (Godfrey-Smith, 2016).
A “explosão cambriana”, iniciada há cerca de 540 milhões de anos, deu origem à maioria das formas básicas de animais que existem hoje. No Cambriano, os animais passaram a fazer parte da vida uns dos outros, sobretudo por meio da predação. Quando a presa se esconde ou se defende, o predador melhora a capacidade de rastrear e capturar, o que por sua vez seleciona defesas melhores. Rastrear, perseguir, defender e fugir tornaram-se comportamentos centrais, e os fósseis passam a mostrar o que faltava no Ediacarano: olhos, antenas e garras. O comportamento passou a ser dirigido a outros animais, e não apenas ao ambiente físico (Godfrey-Smith, 2016). Plotnick e colaboradores propuseram chamar esse conjunto de transformações sensoriais de “Revolução de Informação Cambriana” (Plotnick; Dornbos; Chen, 2010).
Nesse cenário, as ações de um animal criam oportunidades e demandas para os outros. Sentidos, sistemas nervosos e comportamentos de cada animal passam a evoluir em resposta aos sentidos, aos sistemas nervosos e aos comportamentos dos demais. Ou, como sintetizou Godfrey-Smith (2016), a mente evoluiu em resposta a outras mentes.
Com o afluxo de informação sensorial vem a necessidade de um processamento interno mais complexo: quando se sabe mais, as decisões ficam mais complicadas (Godfrey-Smith, 2016). Em algum momento da evolução, o fluxo contínuo desse processamento talvez tenha dado origem a um modelo interno do mundo exterior e do mundo interior. Se foi assim, isso ampliou as possibilidades de aprender com a experiência.
1.2 A evolução da memória
A aprendizagem associativa foi provavelmente uma das primeiras formas de aprendizagem. Na hipótese de Ginsburg e Jablonka (2010, pp. 14–15), ela recrutou mecanismos de memória já presentes na habituação e na sensibilização e alterou a vida e as possibilidades adaptativas dos animais, marcando o início de uma nova etapa na história da vida, com o cérebro e o aprendizado se tornando os principais motores da evolução animal.
Na mesma hipótese, organismos com memória de longo prazo e aprendizagem associativa tiveram uma enorme vantagem seletiva: puderam se adaptar, ao longo da própria vida, a ambientes variados e usar novos recursos. O que aprendiam guiava onde e como procurar alimento e proteção, como buscar parceiros e como reagir a predadores e competidores (Ginsburg; Jablonka, 2010, p. 15). A aprendizagem permite ajustar o comportamento às condições do ambiente e explorar recursos que, de outro modo, permaneceriam inacessíveis (Odling-Smee; Laland; Feldman, 2003, pp. 255–258). Quando é assim, os que aprendem melhor tendem a sobreviver e a se reproduzir mais, e a seleção natural amplia a capacidade de aprender (Ginsburg; Jablonka, 2010, p. 15). Aprender também tem custo: o animal passa a reagir a pistas que nem sempre anunciam perigo, e os alarmes falsos são inevitáveis (Ginsburg; Jablonka, 2010, p. 16).
- Grande parte da vida depende da memória: linguagem, habilidades, orientação, vínculos e identidade; nas demências avançadas, essas capacidades podem ser profundamente prejudicadas.
- A escrita é um fenômeno recente: surgiu há cerca de 5 mil anos, quando já haviam transcorrido cerca de 98% dos 300 mil anos que separam os fósseis mais antigos de Homo sapiens do presente. Antes dela, a memória, apoiada por objetos e marcas, preservava e transmitia a informação.
- No Cambriano, os animais passaram a fazer parte da vida uns dos outros: predação, rastreamento e fuga selecionaram olhos, antenas e garras, e sentidos e sistemas nervosos evoluíram em resposta aos dos outros animais (a “Revolução de Informação Cambriana”).
- A aprendizagem permite ajustar o comportamento ao ambiente e explorar novos recursos. Quem aprende melhor tende a sobreviver e a se reproduzir mais, mas aprender tem custo: alarmes falsos são inevitáveis.
Objetos e marcas também podem apoiar a recordação e a transmissão de informações, sem constituir sistemas de escrita (Gelb, 1963, pp. 4–5).↩︎
A percepção de sinais e a comunicação entre organismos têm antecedentes anteriores ao Cambriano. No capítulo 2 de Other Minds, Godfrey-Smith descreve essas capacidades em organismos unicelulares (Godfrey-Smith, 2016).↩︎