15  As classificações da memória

Há mais de uma forma de classificar a memória, e cada uma serve a um propósito. Três classificações aparecem com frequência na clínica e no ensino.

15.1 Classificação temporal

Uma classificação tradicional do exame psíquico é a temporal, que distingue memória imediata (segundos), recente (minutos a dias) e remota (meses a anos) (Dalgalarrondo, 2019). Ela é útil à beira do leito, porque organiza a anamnese e a testagem rápida no exame do estado mental. Mas essa classificação é incapaz de explicar o processamento de informações e toda a complexidade da memória humana.

15.2 Classificação funcional

A classificação funcional é a adotada pela neurociência cognitiva desde os estudos de HM, e a mais adequada para explicar o processamento de informações (Camina; Güell, 2017; Squire, 2004; Squire; Wixted, 2011). Distingue sistemas de memória com funções, propriedades e substratos distintos (Figura 15.1):

  • Memória sensorial: registros ultrabreves (cerca de um segundo), um por modalidade — icônica (visão), ecoica (audição), háptica (tato) (Camina; Güell, 2017).
  • Memória de trabalho: capacidade limitada, curta duração, serve às operações mentais em curso; no modelo de Baddeley, um executivo central coordena a alça fonológica, o esboço visuoespacial e o buffer episódico (Baddeley, 1992, 2000).
  • Memória de longo prazo declarativa (explícita): episódica (eventos — incluindo a autobiográfica, os eventos da própria vida) e semântica (fatos); alguns autores destacam ainda uma memória prospectiva (lembrar de fazer algo no futuro).
  • Memória de longo prazo não declarativa (implícita): procedimental (habilidades e hábitos), associativa (condicionamento clássico e operante), não associativa (habituação e sensibilização) e priming (Camina; Güell, 2017).
flowchart LR
    M["Memória"]
    M --> S["Sensorial<br/>(~1 segundo)"]
    S --> S1["Icônica (visão)"]
    S --> S2["Ecoica (audição)"]
    S --> S3["Háptica (tato)"]
    M --> C["De curto prazo"]
    C --> T["De trabalho"]
    T --> T0["Executivo central"]
    T --> T1["Alça fonológica"]
    T --> T2["Esboço visuoespacial"]
    T --> T3["Buffer episódico"]
    %% link invisível (não renderiza): força o ramo da memória de trabalho a ficar abaixo da banda sensorial, evitando que a seta do executivo central cruze atrás de "Háptica"
    S3 ~~~ T0
    M --> L["De longo prazo"]
    L --> D["Declarativa<br/>(explícita)"]
    D --> D1["Episódica<br/>(eventos)"]
    D --> D2["Semântica<br/>(fatos)"]
    D1 --> D3["Autobiográfica<br/>(eventos do self)"]
    L --> N["Não declarativa<br/>(implícita)"]
    N --> N1["Procedimental<br/>(habilidades e hábitos)"]
    N --> N2["Associativa<br/>(condicionamento clássico<br/>e operante)"]
    N --> N3["Não associativa<br/>(habituação e sensibilização)"]
    N --> N4["Priming"]
Figura 15.1: Os sistemas de memória: árvore de referência do livro, alinhada às taxonomias descritas no texto.

15.3 Classificação sensorial

A memória pode ser classificada também pela modalidade do conteúdo lembrado: visual, auditiva, olfativa, tátil, gustativa. Não confundir com a memória sensorial da classificação funcional (Figura 15.1), que designa os registros ultrabreves de cerca de um segundo — aqui se trata da modalidade daquilo que ficou guardado, em qualquer prazo. É a menos usada como sistema de classificação.

NotaPontos-chave
  • As diferentes classificações são formas diferente de analisar os mesmos fenômenos: a temporal organiza o exame do paciente, a funcional explica o que está e o que não está comprometido, e a sensorial lembra que a memória tem modalidades.