4 Memória e estresse
A emoção seleciona o que será guardado, e faz isso pelos hormônios do estresse. Esse mecanismo não surgiu pronto: é herdeiro da aprendizagem associativa que permitiu aos animais ligar um sinal a um perigo e fugir antes de serem alcançados — uma vantagem tão grande que o cérebro e o aprendizado se tornaram os principais motores da evolução animal (Ginsburg; Jablonka, 2010). Vantagens evolutivas, porém, nunca vêm de graça.
O aprendizado por associação também tem suas consequências negativas, levando inevitavelmente a reações exageradas. Uma vez que predadores e competidores muitas vezes representam ameaças existenciais imediatas, o animal pode responder a sinais que nem sempre estão associados a perigos. A reação exagerada é vantajosa, desde que os benefícios de evitar o perigo real excedam os custos de responder erroneamente ao perigo percebido. Portanto, observamos respostas de fuga e uma prontidão para lutar quando nem o predador nem os inimigos estão por perto (Ginsburg; Jablonka, 2010). Nesse (2001) chamou a lógica desses tipos de reações exageradas ao perigo de “princípio do detector de fumaça”. Uma vez que o custo de encontrar “fogo” (predador, inimigo, qualquer outro tipo de perigo potencialmente grave) é muito alto e o custo de fugir dele é relativamente baixo, é vantajoso fugir a qualquer sinal associado a um perigo grave (“fumaça”), e alarmes falsos são, portanto, inevitáveis. Portanto, inevitavelmente há custos consideráveis para a aprendizagem associativa (Ginsburg; Jablonka, 2010).
Nos animais, o estresse percebido é gerenciado por um sistema de resposta ao estresse, envolvendo os sistemas neuroendócrino e imunológico e uma variedade de outros órgãos, como o coração e os pulmões. Nos vertebrados, a reação envolve o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Esses sistemas de resposta ao estresse gerenciam os estados fisiológicos que os animais exibem após o estresse, tendo provavelmente evoluído por seleção para restringir a duração e a extensão da fisiologia desestabilizada. No entanto, as condições de estresse persistente e as respostas de estresse que o acompanham podem levar à desestabilização de outros sistemas, por exemplo, à imunossupressão, que pode resultar em doença e fraqueza. O sucesso e a sobrevivência irão, portanto, depender de um delicado equilíbrio entre a realidade (perigo ou não) e a interpretação dessa realidade, que depende da memória, e que pode (ou não) estar em sintonia com a realidade.
- A aprendizagem associativa tem custo: leva a reações exageradas a sinais que nem sempre indicam perigo real.
- “Princípio do detector de fumaça” (Nesse): quando o custo de ignorar o perigo é alto e o de fugir é baixo, os alarmes falsos são inevitáveis.
- A resposta ao estresse (eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, sistemas neuroendócrino e imunológico) evoluiu para ser breve; o estresse persistente desestabiliza outros sistemas, como na imunossupressão.
- Sobreviver depende do equilíbrio entre a realidade e a interpretação dela — e a interpretação depende da memória.