5  Memória, emoção e self

A emoção seleciona o que será guardado, e o esquecimento descarta o resto. Há uma consequência menos óbvia dessa seleção: a memória guarda melhor como nos sentimos do que o que aconteceu, e usa essas lembranças de sentimentos para governar o futuro e para sustentar a identidade. Uma memória que existe para manter um eu coerente é, por construção, uma memória que reconstrói.

5.1 Lembramos mais dos sentimentos

Há uma cena de Blade Runner 2049 em que a personagem que fabrica memórias para replicantes explica que o essencial de uma lembrança não são os detalhes, mas os sentimentos. É uma boa síntese de um achado experimental: a lembrança dos detalhes dos eventos é imprecisa, enquanto a lembrança do que sentimos é o que orienta as decisões. Levine (1997) mostrou que as memórias de emoções passadas informam os planos das pessoas para o futuro: “people plan to maintain circumstances that evoked positive emotions and to avoid or change circumstances that evoked negative emotions”. A memória da emoção é, nesse sentido, um instrumento de planejamento, e não um arquivo.

Como se verá no capítulo sobre essência e literalidade, esse mesmo princípio vale para o conteúdo: guardamos a essência e perdemos o literal. Um exemplo ilustra a hierarquia. Literalidade: lembrar que alguém criticou o vestido amarelo-ouro, com botões azuis, que viu numa vitrine. Essência: lembrar que alguém criticou uma peça de roupa de uma loja. Sentimento: “ela é uma chata que só sabe reclamar”. O que sobrevive mais tempo é o último.

5.2 O self que lembra e o self que vive

Daniel Kahneman propôs uma distinção útil entre o self que experimenta (o que vive o presente) e o self que lembra (o que conta a história depois) (Kahneman, 2010). O exemplo que ele usa é um dilema de férias: você prefere umas férias fabulosas, mas que serão completamente esquecidas, ou umas férias normais, que serão lembradas para sempre? A hesitação que a pergunta provoca revela que atribuímos valor à memória da experiência, e não só à experiência. As férias esquecidas não entram na conta: quem decide é o self que lembra, e ele só decide sobre o que pode contar.

5.3 Coerência: a memória a serviço do self

Martin Conway (2005) descreveu a memória autobiográfica como parte de um sistema self-memória (self-memory system), no qual um “self de trabalho” (working self) regula o que é codificado e o que é acessível. Nas palavras dele, “human memory is a major component of the self […] memories may be altered, distorted, even fabricated, to support current aspects of the self”. A força que organiza esse sistema é a coerência: “coherence is a strong force in human memory that acts at encoding, post-encoding remembering, and re-encoding […] in such a way as to make memory consistent with an individual’s current goals, self-images, and self-beliefs” (Conway, 2005).

Nietzsche já havia descrito o mecanismo em um aforismo célebre: “‘Eu fiz isso’, diz a minha memória. ‘Eu não poderia ter feito isso’, diz meu orgulho, e mantém-se firme. Finalmente, a memória cede” (Nietzsche, 1886, seç. 68). As reações emocionais passadas, por sua vez, têm papel central na construção da identidade pessoal (Neimeyer; Metzler, 1994).

Esse princípio de coerência tem três consequências:

  1. memórias de eventos podem ser esquecidas ou se tornar inacessíveis quando não são coerentes com o self, o que ajuda a entender a amnésia dissociativa;
  2. memórias de eventos podem ser modificadas e até fabricadas, o que é o tema das falsas memórias;
  3. quando a realidade não é coerente com o self, podem surgir confabulações, discutidas junto com as síndromes amnésicas.
NotaPontos-chave
  • A memória autobiográfica precisa de coerência.
  • A memória de eventos pode ser esquecida ou tornar-se inacessível se não for coerente com o self.
  • A memória de eventos pode ser modificada e até fabricada.
  • A memória emocional é mais duradoura.