30  Listas que enganam: o paradigma DRM

A demonstração mais rápida e mais confiável de uma falsa memória em sala de aula é o paradigma de listas de palavras associadas, conhecido como DRM (Deese–Roediger–McDermott). Deese (1959) observou que certas palavras nunca apresentadas apareciam de forma previsível na recordação livre de listas; Roediger e McDermott (1995) transformaram a observação num método: os participantes ouvem uma lista de palavras todas associadas a uma palavra crítica que não é apresentada e, em seguida, uma grande proporção “lembra” de tê-la ouvido, muitas vezes com alta confiança. Stein, Feix e Rohenkohl (2006) construíram e normatizaram 44 listas em português brasileiro, incluindo listas com conteúdo emocional, e apresentaram os primeiros dados normativos de falsas memórias em adultos brasileiros com esse procedimento. As duas listas abaixo vêm desse trabalho.

30.1 Objetivos

  • Produzir, na própria turma, uma falsa memória de uma palavra nunca apresentada.
  • Discutir a memória da essência (a lista era “sobre agulha”) versus a memória literal (quais palavras exatamente).
  • Introduzir a ideia de que confiança não é medida de acurácia.

30.2 Materiais

  • Lista 1 (palavra crítica: agulha), projetada ou lida em voz alta:

    costura · linha · fina · ponta · furar · injeção · seringa · espetar · tricô · bordar · palheiro · máquinas · metal · fio · fincar

  • Lista 2 (palavra crítica: dormir):

    sonhar · cama · repouso · acordar · pesadelo · essencial · acompanhado · deitado · energia · cedo · cochilar · rede · silêncio · tarde · bocejo

  • Papel para a recordação livre escrita.

30.3 Roteiro

  1. Avise apenas que se trata de um teste de memória e peça atenção. Apresente a lista 1, uma palavra a cada 1–2 segundos, sem repetir.
  2. Distraia por 1–2 minutos (por exemplo, a atividade das cinco palavras, ou uma pergunta sobre outro assunto).
  3. Peça que escrevam numa folha as palavras que viram.
  4. Pergunte: quem lembrou da palavra “agulha”? Conte as mãos. Revele que ela não estava na lista.
  5. Repita com a lista 2 e a palavra “dormir”. Na segunda rodada, com a turma já avisada, o efeito costuma diminuir mas não desaparecer, o que também rende discussão.

30.4 Discussão

  • A turma “lembrou” de agulha com a mesma confiança com que lembrou de seringa? O que isso diz sobre usar a confiança da testemunha, ou do paciente, como critério de verdade?
  • O que a memória guardou: as palavras, ou o tema da lista? Conecte com a teoria do traço difuso e a distinção entre gist e verbatim (Reyna; Brainerd, 1995; Reyna, 2012).
  • Saber que o teste era uma armadilha protegeu você na segunda lista? Por que não completamente?
  • Se uma lista de palavras produz isso em dois minutos, o que uma entrevista de uma hora, com perguntas orientadas por uma hipótese diagnóstica, pode produzir?

30.5 Ligação com o livro

Capítulo 9 (Falsas memórias), Capítulo 10 (Essência e literalidade) e Capítulo 11 (Esquemas, scripts e histórias).