32 A gaveta da farmácia
Esta é a atividade que fecha a discussão sobre esquemas, essência e falsas memórias. Os estudantes leem uma história curta e, em seguida, julgam uma série de afirmações como verdadeiras, falsas ou desconhecidas. Quase todos “lembram” de coisas que a história não diz: um ladrão, um assalto, dinheiro levado. É a demonstração mais rápida de que a memória preenche a essência com o esquema, e de que as inferências ficam indistinguíveis do que foi lido. O formato vem do Uncritical Inference Test, com que William Haney treinava estudantes e executivos a separar o que se observou do que se inferiu (Haney, 1969); a história e as afirmações abaixo são originais, escritas para esta atividade.
32.1 Objetivos
- Demonstrar como as suposições (o esquema “assalto”) são incorporadas à lembrança do texto.
- Discutir a diferença entre o que foi lido e o que foi inferido.
- Mostrar como a busca do consenso em grupo pode melhorar (ou piorar) a decisão.
32.2 Materiais
- O texto abaixo, projetado ou lido em voz alta uma única vez.
- Papel para as respostas individuais e uma folha por subgrupo (ou a tabela de afirmações, projetada ou impressa).
32.3 A história
Uma mulher baixava a porta de aço de uma farmácia quando um rapaz se aproximou dizendo que precisava de dinheiro.
A atendente abriu uma gaveta do balcão.
O que estava na gaveta foi retirado, e o rapaz saiu às pressas.
Um vizinho ligou para a polícia.
32.4 As afirmações
Para cada afirmação, marcar V (verdadeira), F (falsa) ou ? (a história não permite saber).
| Afirmação | V | F | ? | |
|---|---|---|---|---|
| a | Um rapaz se aproximou enquanto a atendente baixava a porta de aço da farmácia. | |||
| b | O ladrão era um rapaz. | |||
| c | O rapaz não falou em dinheiro. | |||
| d | A pessoa que abriu a gaveta era a dona da farmácia. | |||
| e | A atendente retirou o que estava na gaveta e saiu às pressas. | |||
| f | Alguém abriu uma gaveta. | |||
| g | Depois de retirar o que estava na gaveta, o rapaz saiu às pressas. | |||
| h | Embora houvesse dinheiro na gaveta, a história não diz a quantia. | |||
| i | O ladrão pediu dinheiro à atendente. | |||
| j | A história registra uma série de acontecimentos que envolveu três pessoas: a atendente, um rapaz que precisava de dinheiro e um vizinho. | |||
| l | Os seguintes acontecimentos da história são verdadeiros: alguém disse que precisava de dinheiro; uma gaveta foi aberta; o dinheiro que havia nela foi retirado. |
32.5 Roteiro
- Leitura e resposta individual (7–10 minutos). Cada estudante marca as onze afirmações sem consultar os colegas.
- Consenso em subgrupos de cinco a sete pessoas (12–15 minutos). Cada subgrupo responde de novo, numa única folha, chegando a uma única resposta por afirmação.
- Gabarito. Só a afirmação c é falsa (o rapaz falou que precisava de dinheiro) e só a afirmação f é verdadeira (alguém abriu uma gaveta). Todas as demais são desconhecidas: a história não diz que o rapaz era um ladrão, que houve assalto, que a “mulher” e a “atendente” são a mesma pessoa, que a atendente é a dona da farmácia, que havia dinheiro na gaveta, nem quem retirou o que estava nela.
- Discussão. Compare as respostas individuais com as de grupo: o consenso aproximou o grupo do gabarito ou consolidou o esquema? Quais afirmações mais enganaram?
32.6 Discussão
- Onde está, no texto, a palavra “ladrão”? E “assalto”? Se não estão, de onde vieram na sua memória?
- A afirmação j parece a mais inocente. Por que ela é desconhecida? (A mulher que baixava a porta e a atendente podem ser duas pessoas; e o rapaz disse que precisava de dinheiro — precisar mesmo, ninguém sabe.)
- Transponha para a anamnese: quantas vezes o médico registra no prontuário o que inferiu do relato do paciente como se fosse o que o paciente disse?
- Transponha para o depoimento de uma testemunha: o esquema “assalto” que preencheu a história em dois minutos é o mesmo que preenche a memória de um crime real.
32.7 Ligação com o livro
Capítulo 10 (Essência e literalidade), Capítulo 11 (Esquemas, scripts e histórias) e Capítulo 9 (Falsas memórias).