11 Esquemas, scripts e histórias
Entre num restaurante onde nunca esteve e você sabe o que fazer: esperar a mesa, receber o cardápio, pedir, comer, pagar. Ninguém precisou explicar nada ali: o roteiro você aprendeu em outros restaurantes, ao longo da vida, e o trouxe de casa. Boa parte do que sabemos sobre o mundo está guardada assim — em blocos organizados de conhecimento, os esquemas, e em sequências de ações, os scripts. Eles não servem só para agir. É através deles que a informação nova é armazenada e, depois, relembrada: pela sua essência, pelo seu significado e pelos sentimentos que a acompanham, muito mais do que pelos detalhes. Assimilar o novo ao que já se sabe é a regra da memória; e a regra, como se verá, tem um preço.
11.1 O que são esquemas
Um esquema é um bloco integrado de conhecimento sobre o mundo, sobre eventos, pessoas e ações; um script é um esquema de sequência de ações, como “ir a um restaurante” ou “lavar roupas”. Bartlett (1932) foi o primeiro a mostrar, experimentalmente, que recordamos reconstruindo a partir do que já sabemos, e a pesquisa contemporânea confirma que o conhecimento prévio determina o que será compreendido e retido (Brod; Werkle-Bergner; Shing, 2013).
Esquemas são úteis porque permitem fazer previsões e inferências. Mas têm um custo: podem simplificar demais a realidade, apoiar-se em estereótipos e distorcer a memória quando a nova informação é inconsistente com o esquema existente. É por isso que o esquema é, ao mesmo tempo, a base da compreensão e uma das fontes das falsas memórias.
11.2 Um procedimento bastante simples
O que acontece quando o esquema não está disponível — quando ouvimos algo sem saber do que se trata? Bransford e Johnson (1972) responderam com um experimento engenhoso: uma passagem em que cada frase é curta, correta e sem nenhuma palavra difícil, mas que não diz sobre o que fala. Parte dos participantes ouviu a passagem assim, sem título; outra parte soube do tema antes; outra ainda só depois. Os resultados mostraram que a compreensão e a lembrança dependiam menos das palavras do que do esquema disponível para organizá-las.
Antes de conhecer o tema, faça como o primeiro grupo do experimento de Bransford e Johnson. Leia a passagem a seguir, em tradução do autor, e tente resumi-la:
O procedimento é bastante simples. Primeiramente, você organiza os itens em diferentes grupos, conforme a sua composição. É claro, uma pilha pode ser suficiente dependendo da quantidade do que há por fazer. Se você tem de ir a algum lugar devido à falta do aparelho, esse é o próximo passo. Caso contrário, você está pronto. É importante não exagerar em nenhuma etapa. Ou seja, é melhor fazer pouco de cada vez do que demais. A curto prazo, isso pode não parecer ser importante, mas fazer demais pode facilmente trazer complicações. Um erro pode sair caro. A manipulação do mecanismo é em geral autoexplicativa, e não precisamos nos deter nisso. Na primeira vez o procedimento todo pode parecer complicado. Logo, entretanto, será apenas mais uma faceta da vida. É difícil imaginar que essa tarefa deixará de ser necessária num futuro imediato, mas ninguém pode dizer.
Difícil? Agora releia sabendo que o título é Lavando roupas. O texto não mudou; o que mudou foi o esquema ativado. No experimento original, quem recebeu o título antes compreendeu e lembrou muito mais do que quem não recebeu ou recebeu depois (ver a Tabela 10.1). O processo todo de lavar roupas já é conhecido pelo leitor: já existe um esquema mental, um script, e é ele que organiza a lembrança. Contextualizar a informação facilita a compreensão, e a essência do que foi dito ou vivido é mais fácil de lembrar do que os detalhes.
11.3 O andar certo
O mesmo artigo traz um segundo experimento, em que o contexto não é um título, mas uma cena. Antes de conhecê-la, leia a passagem — também sem título, também em tradução do autor — e tente resumi-la:
Se os balões estourassem, o som não conseguiria chegar, porque tudo ficaria longe demais do andar certo. Uma janela fechada também impediria o som de chegar, já que a maioria dos prédios costuma ser bem isolada. Como toda a operação depende de um fluxo constante de eletricidade, um rompimento no meio do fio também causaria problemas. É claro que o sujeito poderia gritar, mas a voz humana não é forte o bastante para chegar tão longe. Um problema adicional é que uma corda do instrumento poderia arrebentar. Aí não haveria acompanhamento para a mensagem. Está claro que a melhor situação envolveria menos distância. Assim haveria menos problemas potenciais. Com o contato face a face, o mínimo de coisas poderia dar errado.
A cena que dá sentido a tudo isso é um desenho. Tente o resumo antes de abri-lo.
À noite, um rapaz na calçada, com um violão, canta ao microfone para uma moça que aparece na janela de um andar alto; o alto-falante, ligado ao microfone por um fio comprido, flutua na altura da janela dela, sustentado por um cacho de balões (painel A). Relida com a cena em mente, cada frase da passagem vira uma preocupação óbvia de quem faz serenata desse jeito.
Bransford e Johnson (1972) compararam cinco grupos. Uns ouviram a passagem sem nada (alguns, duas vezes); outros viram o desenho antes de ouvir; outros, só depois. E um grupo viu um desenho com os mesmos objetos — rapaz, moça, violão, balões, alto-falante, microfone —, mas rearranjados (painel B da Figura 11.1): todos na calçada, lado a lado, a moça ao lado do rapaz em vez de na janela, os balões na mão dele, o violão encostado na parede — sem a distância que a passagem tenta vencer. O resultado está na Tabela 11.1.
| Sem contexto | Sem contexto, ouvida duas vezes | Contexto depois | Contexto parcial | Contexto antes | Escore máximo | |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Compreensão | 2,30 (0,30) | 3,60 (0,27) | 3,30 (0,45) | 3,70 (0,56) | 6,10 (0,38) | 7 |
| Lembrança | 3,60 (0,64) | 3,80 (0,79) | 3,60 (0,75) | 4,00 (0,60) | 8,00 (0,65) | 14 |
Só o desenho visto antes fez diferença. Ouvir a passagem duas vezes não ajudou a lembrar; receber a cena depois, tampouco. E o desenho com os mesmos objetos fora de lugar ficou quase no nível de quem não viu nada. O que o esquema fornece, portanto, não é um inventário de objetos: é a relação entre eles — o rapaz embaixo, a moça em cima, o alto-falante entre os dois — e é essa relação que dá lugar a cada frase e a torna memorável.
11.4 Objetos no lugar certo
O mesmo princípio aparece na clínica. Snowden, Griffiths e Neary (1994) descreveram pacientes com demência semântica cujo significado derivado de um objeto dependia, em parte, do contexto específico em que o objeto era experimentado: se os pregadores de roupa estavam na caixa de pregadores, na lavanderia, junto com as roupas, o paciente sabia o que eram e como usá-los; fora do lugar habitual, não sabia o que eram nem para que serviam. O esquema do lugar carrega o significado do objeto.
11.5 Histórias como esquemas portáteis
Uma história é um esquema que se carrega consigo. Bower e Clark (1969) mostraram que encadear uma lista de palavras numa narrativa melhora muito a recordação em comparação com a memorização da lista solta. Dá para sentir o efeito na própria pele com a atividade “Memória e história”, sozinho ou em grupo: primeiro uma lista de vinte e poucas palavras avulsas, depois as mesmas palavras dentro de uma história de sequestro de avião. Quase todos lembram muito mais da segunda. A recomendação prática é simples: se você quiser lembrar de algo, conte uma história.
O esquema que preenche a história da gaveta da farmácia com um “ladrão” que o texto nunca menciona é o mesmo que preenche o relato de um paciente com o que o médico esperava ouvir. Ao registrar a anamnese, vale distinguir o que o paciente disse do que se inferiu do que ele disse; a atividade da gaveta da farmácia é o exercício dessa distinção.
A memória é armazenada e relembrada segundo esquemas, scripts e contexto preexistentes. O que o esquema fornece não é um inventário de objetos, mas a relação entre eles: os mesmos elementos fora de lugar não ajudam a compreender nem a lembrar. Uma informação é lembrada pelo seu significado e pela sua essência, não pelos detalhes; é nos detalhes que as falsas lembranças são comuns.