2 As fases da memória
A memória não é um arquivo, mas um processo, e todo processo tem etapas. Na memória são três: a codificação (o que entra), a consolidação (o que se fixa) e a evocação (o que sai). A divisão é didática, porque as três se entrelaçam, mas organiza tanto a pesquisa quanto o exame do paciente. E em cada etapa a memória faz a mesma coisa: seleciona e transforma. A atenção escolhe o que entra; o sono destila o que fica; a evocação reconstrói o que sai. O que se perde nas três é a literalidade. O que sobrevive é a essência.
2.1 Codificação: a atenção é a porta
Só entra na memória o que recebeu atenção. A memória tem capacidade limitada, e é a atenção que decide o que será codificado; dividi-la enquanto se aprende prejudica a formação de memórias conscientes. A relação é de mão dupla: o que já se sabe guia para onde olhar, e estruturas da memória, como o hipocampo, são recrutadas em tarefas de atenção (Chun; Turk-Browne, 2007). A vítima de um assalto que descreve a arma em detalhe e não lembra o rosto de quem a segurava ilustra a seleção: a atenção presa à arma deixa pouco para o resto da cena, o efeito de foco na arma.
Lembrar exige a mesma atenção que guardar? Craik e colaboradores (1996) dividiram a atenção dos participantes com uma segunda tarefa, ora enquanto memorizavam listas de palavras, ora enquanto as evocavam. A resposta foi assimétrica. Com a atenção dividida ao guardar, a recordação caiu quase pela metade; dividida ao lembrar, quase não caiu, e o custo apareceu na outra tarefa, que ficou mais lenta. Em linguagem simples: dá para lembrar enquanto se faz outra coisa, embora a outra coisa sofra; aprender com a atenção dividida rende muito menos.
2.2 Consolidação: a memória leva tempo para se fixar
Uma memória nova não nasce pronta. A hipótese de que ela se consolida devagar, ao longo do tempo, foi proposta há mais de um século por Müller e Pilzecker e continua a orientar a pesquisa sobre os hormônios, os circuitos e os mecanismos celulares que regulam essa fixação (McGaugh, 2000). Enquanto se fixa, a memória está aberta a influências: os hormônios do estresse, liberados pela excitação emocional, modulam o que ainda não terminou de se gravar.
A fixação acontece em duas escalas. Na escala das sinapses, as conexões entre neurônios mudam em horas. Na escala dos sistemas, a memória nova depende do hipocampo, que aos poucos reorganiza a informação no neocórtex até que ela passe a existir sem ele. Foi a amnésia retrógrada que revelou esse arranjo: a lesão do hipocampo apaga as memórias recentes e tipicamente poupa as antigas, o perfil de HM. O que já se sabe acelera o processo: informação coerente com o conhecimento prévio pode se consolidar mais depressa (Squire et al., 2015), o mesmo princípio dos esquemas. O arranjo de dois sistemas não é capricho da biologia: redes artificiais que aprendem com um sistema só destroem o que sabiam ao aprender algo novo.
2.3 O sono consolida
Dormir faz parte de aprender. Mais de um século de pesquisa estabeleceu que o sono beneficia a retenção, e a explicação mudou: o sono deixou de ser visto como simples abrigo contra interferências e passou a ser entendido como um estado em que as memórias recém-codificadas são reativadas e transformadas, enquanto o cérebro acordado se dedica a codificar (Rasch; Born, 2013). A reativação acontece sobretudo no sono de ondas lentas, que redistribui as memórias dependentes do hipocampo para o neocórtex; o sono REM que se segue pode favorecer a consolidação nas sinapses do córtex (Diekelmann; Born, 2010). Para quem estuda, o que importa é o resultado dessa transformação: ela é qualitativa. O que sai do sono não é cópia do que entrou, mas uma versão abstraída, do tipo essência (gist) (Klinzing; Niethard; Born, 2019). Parte do trabalho de extrair a essência, o que sobrevive quando os detalhes se perdem, é feito dormindo. E o que se codifica acordado se fixa melhor com o sono que vem depois.
2.4 Evocação: pistas, reconstrução e o efeito de testar
Evocar não é reproduzir: é reconstruir, e reconstruções erram; as falsas memórias são o preço. Duas propriedades da evocação interessam aqui. A primeira: ela depende de pistas, o lugar, um cheiro, um som, o estado emocional. A segunda é menos intuitiva: lembrar também ensina. Costuma-se pensar que se aprende ao estudar e que o teste só mede o que foi aprendido. A pesquisa mostra o contrário: tentar evocar o que se estudou produz com frequência ganhos grandes de retenção em comparação com reler, costuma funcionar mesmo sem conferir a resposta, e o que se aprende assim se transfere melhor a outros contextos (Roediger; Butler, 2011). Para o estudante, a tradução é direta: fechar o livro e tentar lembrar vale mais do que reler.
2.5 Uma hipótese em debate: a reconsolidação
E depois de evocada, a memória volta ao lugar como estava? A hipótese da reconsolidação diz que não: ao ser reativada, uma memória consolidada voltaria por algum tempo a um estado instável, do qual precisaria se estabilizar de novo, e nesse intervalo poderia ser enfraquecida ou modificada (Nader; Hardt, 2009). A ideia abre a perspectiva de editar memórias traumáticas, e é por isso que pede cautela: a evidência mais forte vem de animais, com intervenções farmacológicas invasivas; em humanos os achados são inconsistentes, admitem outras explicações, e tentativas de replicar um dos estudos mais citados não encontraram o efeito (Elsey; Van Ast; Kindt, 2018; Hardwicke; Taqi; Shanks, 2016). Que a memória seja maleável não está em dúvida; o mecanismo está. A reconsolidação segue uma hipótese viável e disputada, não um mecanismo demonstrado.
Um paciente chega trazido pela família porque “anda esquecendo tudo”. Antes de pensar em amnésia, vale perguntar se a informação chegou a entrar: quem está deprimido, ansioso, sem dormir ou em delirium presta menos atenção — e o que não foi codificado não pode ser lembrado, por mais que pareça esquecimento (Oyebode, 2015). Se entrou, a pergunta seguinte é se ficou. É isso que o Mini-Exame do Estado Mental (Folstein; Folstein; McHugh, 1975) tenta captar quando pede ao paciente que repita três palavras e, alguns itens depois, as evoque: a repetição imediata testa se a informação entrou; a evocação tardia, se ficou. Quem não evoca recebe uma pista (“uma delas era uma fruta…”) — um passo que o MEEM não dá, mas que o exame à beira do leito dá, porque é ele que separa os dois tipos de falha. Se a pista não ajuda, a informação provavelmente não foi armazenada, que é o padrão do comprometimento hipocampal (Jahn, 2013); se a pista resolve, a informação está lá e o problema é a busca, que depende do córtex pré-frontal (Oyebode, 2015). A queixa “esquece tudo” pode ser, portanto, de atenção, de armazenamento ou de recuperação, e cada uma leva a um diagnóstico e a uma conduta diferentes. O exame da memória à beira do leito segue essa ordem.
- Sem atenção, não entra: o que não foi codificado não pode ser lembrado.
- Fixar leva tempo, e o sono faz parte: a memória nova é vulnerável enquanto se consolida, e o hipocampo ensina o neocórtex aos poucos.
- O que fica é a essência, não o detalhe: o sono transforma as memórias recentes em representações mais abstratas.
- Lembrar é reconstruir a partir de pistas, e testar-se ensina mais do que reler.
- Lembrar pode mudar a lembrança: a reconsolidação é uma hipótese em debate.