3  Memória e emoção

Our brains, remarkable as they are, could not begin to contain and give equal weight to our every moment of life.

— John Glore, Personal Arts (Glore, 1987), citado em McGaugh (2014)

A habilidade de aprender e lembrar é essencial para a sobrevivência. Mas será que precisamos nos lembrar de todos os detalhes? Como já comentou o psicólogo William James, “Selection is the very keel on which our mental ship is built. […] If we remembered everything, we should on most occasions be as ill off as if we remembered nothing” (James, 1890, p. 680).

Como então o cérebro decide que lembranças serão armazenadas de forma mais intensa? Uma extensa literatura já demonstrou que as experiências com alta intensidade emocional (agradáveis ou desagradáveis) são armazenadas por mais tempo e relembradas com mais facilidade. Um acidente de carro, um assalto a mão armada, o dia do casamento são relembrados com mais facilidade do que eventos cotidianos. Como disse Francis Bacon, “memory is assisted by anything that makes an impression on a powerful passion” (Bacon, 2002). A excitação emocional induz a liberação dos hormônios do estresse (adrenalina e cortisol), influenciando a consolidação da memória (McGaugh, 2013). Se por um lado essa consolidação a partir do estresse nos faz lembrar mais do que é importante (seja perigoso ou prazeroso), por outro lado também leva ao desenvolvimento do estresse pós-traumático (Pitman, 2006).

DicaNa clínica

A consolidação reforçada pela emoção é útil para a sobrevivência e é também o que está em jogo no transtorno de estresse pós-traumático: os mesmos hormônios do estresse que gravam com mais força o que é importante gravam com força demais o evento traumático (McGaugh, 2013; Pitman, 2006). Numa anamnese, a lembrança vívida, intrusiva e persistente de um evento não é sinal de boa memória — é sinal de que a consolidação foi excessiva.

NotaPontos-chave
  • Lembrar de tudo seria tão ruim quanto não lembrar de nada: “Selection is the very keel on which our mental ship is built” (James).
  • Experiências de alta intensidade emocional, agradáveis ou desagradáveis, são armazenadas por mais tempo e relembradas com mais facilidade.
  • A excitação emocional libera hormônios do estresse (adrenalina e cortisol), que influenciam a consolidação da memória.
  • O mesmo mecanismo que nos faz lembrar do que é perigoso ou prazeroso contribui para o transtorno de estresse pós-traumático.