12 Memória e contexto
É comum alguém contar que teve de voltar a algum lugar para se lembrar de algo que esqueceu. O ambiente no qual algo foi lembrado ou aprendido pode influenciar a capacidade de lembrar posteriormente. O contexto, seja o ambiente físico, um odor, um som e até mesmo o contexto emocional, tem um importante papel no processo de relembrar de algo.
Num experimento realizado em 1975, Godden e Baddeley mostraram que a recordação é melhor quando o ambiente da aprendizagem original é restabelecido. Os autores abrem o artigo com um caso que tomam de John Locke: o de um jovem que aprendeu a dançar num quarto onde havia um baú velho — e que, depois, só dançava bem se houvesse um baú parecido no lugar certo do salão. Para testar a ideia fora das condições artificiais do laboratório, procuraram dois ambientes naturais tão diferentes entre si quanto possível: a terra firme e o fundo do mar.
Dezoito mergulhadores de um clube universitário, em temporada de mergulho na costa da Escócia, ouviram listas de 36 palavras não relacionadas, transmitidas por um sistema de comunicação subaquática, em duas situações (Figura 12.1): sentados à beira d’água ou submersos a cerca de seis metros, sentados no fundo. Debaixo d’água, as palavras vinham em blocos de três, com pausas para a respiração — o ruído da própria respiração no equipamento de mergulho atrapalha a audição —, e as respostas eram escritas a lápis numa prancheta. Cada mergulhador passou pelas quatro combinações possíveis: aprender em terra e relembrar em terra, aprender em terra e relembrar na água, e as duas inversas. Nenhum dos dois ambientes se mostrou, em si, melhor para aprender ou para relembrar; o que importou foi a combinação. As listas aprendidas em terra foram mais bem lembradas em terra (em média, 13,5 palavras, contra 8,6 quando a recordação era debaixo d’água), e as aprendidas debaixo d’água, debaixo d’água (11,4 contra 8,4 em terra): “what was learned under water was best recalled under water and vice versa” (o que foi aprendido debaixo d’água foi mais lembrado debaixo d’água e vice-versa) (Godden; Baddeley, 1975).
Restava uma objeção: o prejuízo poderia vir não do contexto em si, mas do transtorno de entrar na água ou sair dela entre o estudo e o teste. Num segundo experimento, outros mergulhadores aprenderam e relembraram as listas sempre em terra, ora com um mergulho no intervalo entre uma coisa e outra, ora sem — e o mergulho não piorou a recordação. O efeito é de contexto mesmo: recriar o ambiente físico da aprendizagem melhora a recordação (Godden; Baddeley, 1975). Tudo isso em condições reais de mar aberto, com os percalços correspondentes — durante uma das sessões subaquáticas, um mergulhador quase foi atropelado por um veículo anfíbio.
E no ensino da medicina? A transposição parece imediata — o que se aprende à beira do leito seria mais bem lembrado à beira do leito — e o experimento dos mergulhadores é citado com frequência por educadores médicos nesse sentido. Koens, Ten Cate e Custers (2003) o replicaram nesse cenário: 63 estudantes em estágio clínico, distribuídos aleatoriamente entre as quatro combinações de sala de aula e beira do leito, aprenderam e relembraram uma lista de palavras e a descrição de um caso clínico. A vantagem do mesmo contexto não se confirmou: não houve diferença significativa, apenas uma leve tendência a melhor recordação do caso quando o aprendizado tinha ocorrido no ambiente clínico. Os autores recomendam cautela ao generalizar o achado dos mergulhadores para a educação médica — ao menos quando “contexto” quer dizer apenas o ambiente físico.
Uma metanálise sobre o efeito do contexto ambiental ajuda a entender o porquê: no conjunto dos estudos o efeito é confiável, mas encolhe quando a tarefa induz o processamento de informação não contextual — pensar no significado do material, e não no ambiente ao redor — durante o aprendizado ou o teste (Smith; Vela, 2001). Um caso clínico compreendido dificilmente fica preso à sala onde foi estudado. E há uma consequência prática: reinstalar mentalmente o contexto original no momento de lembrar também reduz o prejuízo da mudança de ambiente (Smith; Vela, 2001) — não é preciso voltar ao lugar; imaginá-lo já ajuda.
Também já foi demonstrado que o odor pode servir como um contexto facilitador para a memória (Pointer; Bond, 1998). Pointer e Bond avaliaram a performance em relembrar um texto impresso em papel com cheiro de hortelã. Quando solicitados a relembrar o texto, os participantes que haviam recebido o texto original com odor de hortelã, relembravam significativamente mais quando eram expostos novamente ao odor de hortelã durante o teste (Pointer; Bond, 1998). Ou seja, o odor funcionou como uma “pista” para a memória.
Sons e músicas podem também servir como contexto acústico para melhorar a performance da memória ao relembrar fatos (Smith, 1985). Quando uma lista de palavras foi apresentada com som ao fundo (música instrumental ou ruído branco), a performance para relembrar essa lista 48 horas mais tarde foi melhor quando o fundo acústico foi restabelecido no momento do teste (Smith, 1985).
O contexto, seja um local, um odor ou um som, pode servir de pista para a memória, facilitando o processo de relembrar de algo. O efeito do contexto pode ser observado também em pacientes com demência semântica, que têm mais facilidade em relembrar o nome de um objeto quando esse objeto se encontra em seu lugar usual (um pente no banheiro), do que quando fora do lugar (um pente dentro da geladeira) (Snowden; Griffiths; Neary, 1994).
12.1 Odores, modalidades e memória
O papel do odor como pista de recuperação, mostrado acima, levanta uma pergunta prática: a estimulação olfativa poderia melhorar a memória? Woo e colaboradores (2023) testaram a hipótese em 43 idosos saudáveis de 60 a 85 anos, distribuídos aleatoriamente entre um grupo de enriquecimento olfativo e um grupo controle. Os participantes do grupo enriquecido foram expostos a sete odorantes diferentes por semana, um por noite, durante duas horas, por meio de um difusor, ao longo de seis meses; o grupo controle teve a mesma experiência com quantidades ínfimas de odorante. Ao final, observou-se uma melhora estatisticamente significativa de 226% no grupo enriquecido em relação ao controle no Teste de Aprendizagem Auditivo-Verbal de Rey, além de melhora do funcionamento do fascículo uncinado esquerdo avaliado por difusividade média. Os autores concluem que um enriquecimento olfativo mínimo, administrado à noite, produz melhoras cognitivas e neurais e pode ser uma via eficaz e de baixo esforço para a saúde cerebral (Woo et al., 2023). É um estudo único e pequeno, e a hipótese de que mais modalidades sensoriais levam a maior persistência da memória continua a ser uma hipótese; mas é um bom exemplo de como o contexto sensorial vai além da pista de recuperação.
O paciente que “não lembra” no consultório de algo que lembrou em casa não está necessariamente pior: mudou o contexto, e com ele as pistas de recuperação. Perguntar pelo lugar, pela rotina e pelas pessoas envolvidas restabelece parte do contexto. O exemplo da demência semântica — o pente reconhecido no banheiro e não na geladeira (Snowden; Griffiths; Neary, 1994) — lembra que o contexto pode carregar o próprio significado do objeto.
- Restabelecer o contexto do aprendizado melhora a recordação: o lugar (debaixo d’água), um odor (hortelã), um som de fundo.
- O contexto funciona como pista de recuperação; na demência semântica, o objeto no lugar habitual é reconhecido, e fora dele não.
- A transposição direta para o ensino médico não se confirmou: com material significativo, aprender à beira do leito não garantiu melhor recordação ali; reinstalar mentalmente o contexto original reduz o prejuízo da mudança de ambiente.
- Um estudo pequeno sugere que o enriquecimento olfativo noturno melhora a memória de idosos saudáveis; a ideia de que mais modalidades sensoriais produzem memórias mais persistentes continua a ser uma hipótese.