8  A plasticidade da memória

8.1 Neuroplasticidade

O termo plasticidade tem sido usado na ciência há mais de um século para se referir às mudanças na organização do sistema nervoso. Antes mesmo da descoberta da existência dos neurônios e das sinapses, William James já utilizava o termo “plasticidade” em relação à capacidade de adaptação do tecido nervoso aos estímulos externos (James, 1890, vol. 1). Mas este conceito se popularizou com Santiago Ramón y Cajal, que, pela primeira vez, descreveu a morfologia e as conexões no sistema nervoso, descobriu o crescimento dos axônios, reconheceu que a arquitetura cerebral não poderia ser algo fixo e que mudanças dinâmicas nessa estrutura eram as bases dos processos mentais (DeFelipe, 2006). Desde então, a arquitetura do córtex cerebral começou a ser considerada plástica, ou seja, suscetível a mudança dependendo da atividade neuronal (DeFelipe, 2006).

Plasticidade se refere a uma mudança na estrutura em resposta a uma força externa e à manutenção dessa forma após a remoção dessa força (em oposição à “elasticidade”, onde a forma retorna ao aspecto original após a remoção da força) (Berlucchi; Buchtel, 2009; Will et al., 2008). O conceito moderno de plasticidade neural foi cunhado em meados da década de 1970 por Jacques Paillard, quando propôs que nem toda mudança no sistema nervoso deve ser considerada como sinal de plasticidade, mas apenas as mudanças, ao mesmo tempo, estruturais e funcionais (Will et al., 2008).

8.2 Plasticidade da memória

A maleabilidade, ou plasticidade, da memória é um aspecto fundamental da cognição humana e desempenha um papel importante na adaptação ao nosso ambiente em constante mudança (Schacter, 1999). A memória não é um registro fixo e imutável de eventos e informações; pelo contrário, é um processo dinâmico e flexível que nos permite ajustar e atualizar nossas lembranças conforme necessário (Loftus, 2005). Essa plasticidade da memória é essencial para a aprendizagem e o desenvolvimento ao longo da vida e tem implicações importantes para nossa compreensão de como o cérebro funciona e como podemos lidar com a memória de maneira eficaz (Nadel; Moscovitch, 1997).

A plasticidade da memória também está relacionada ao processo de consolidação e reconsolidação (Nader; Schafe; Le Doux, 2000). Quando formamos uma nova memória, ela passa por um período de consolidação, durante o qual se torna mais estável e resistente à interferência (Dudai, 2004). No entanto, quando acessamos e recordamos uma memória, ela pode entrar em um estado maleável e ser novamente consolidada, um processo conhecido como reconsolidação (Nader; Schafe; Le Doux, 2000). Durante a reconsolidação, a memória pode ser atualizada com novas informações ou modificada de alguma forma (Lee, 2009). Esse processo é fundamental para a maleabilidade da memória e permite que ajustemos nossas lembranças conforme necessário (Schwabe; Wolf, 2010).

A plasticidade da memória tem implicações importantes para a educação, a terapia e a compreensão do funcionamento do cérebro. Por exemplo, a maleabilidade da memória pode ser aproveitada em abordagens terapêuticas para tratar transtornos de ansiedade e estresse pós-traumático, permitindo que os pacientes modifiquem ou atualizem memórias traumáticas de maneira menos perturbadora (Kindt; Soeter; Vervliet, 2009). Além disso, a compreensão da plasticidade da memória pode ajudar os educadores a desenvolver métodos de ensino mais eficazes e personalizados, que levam em consideração a necessidade de atualizar e adaptar as memórias de acordo com as mudanças no ambiente e nas demandas cognitivas (Dunlosky; Rawson; Marsh, 2005).

Em resumo, a maleabilidade da memória é uma característica essencial da cognição humana, que nos permite adaptar e ajustar nossas lembranças em resposta às mudanças no ambiente e às novas informações (Schacter, 1999). O esquecimento desempenha um papel importante na plasticidade da memória, permitindo-nos manter nossas memórias eficientes e relevantes (Bjork; Bjork, 2011). Entretanto, essa mesma maleabilidade pode fazer com que memórias de eventos sejam distorcidas, provocando o fenômeno conhecido como “falsas memórias”.

8.3 A reconsolidação: o que está estabelecido e o que se discute

Que a memória é maleável — que uma lembrança pode ser distorcida, atualizada ou até fabricada — não está em discussão: é o que as falsas memórias mostram, experimento após experimento. O que se discute é o mecanismo proposto para explicar parte dessa maleabilidade. A hipótese da reconsolidação afirma que uma memória consolidada, ao ser reativada, volta a um estado transitório de instabilidade e precisa se estabilizar de novo para persistir — e que, nessa janela, pode ser enfraquecida ou modificada. Para Nader e Hardt, as mesmas definições operacionais e o mesmo tipo de evidência que sustentam a consolidação sustentam a reconsolidação: aceitar uma e recusar a outra seria usar dois pesos (Nader; Hardt, 2009).

A maior parte do apoio à hipótese vem de estudos em animais, com intervenções farmacológicas ou eletroconvulsivas que bloqueiam a reestabilização. Em humanos, onde essas intervenções não são possíveis, uma revisão crítica encontrou muitas observações compatíveis com a reconsolidação — em memória procedural, aversiva, apetitiva e declarativa — e intervenções clínicas já derivadas dela, como o propranolol após a reativação e os procedimentos de reativação-extinção; mas encontrou também resultados inconsistentes e explicações alternativas, e concluiu que a evidência atual não permite afirmar que o que se observa em humanos seja reconsolidação no sentido neurobiológico (Elsey; Van Ast; Kindt, 2018). Um exemplo da dificuldade: quatro tentativas de replicação direta de um estudo muito citado de aprendizagem de sequência motora não encontraram o prejuízo previsto e, em tarefas declarativas, evocar antes de aprender algo novo pareceu proteger a memória antiga em vez de torná-la vulnerável (Hardwicke; Taqi; Shanks, 2016).

A distinção importa na clínica. Que memórias traumáticas possam ser modificadas é ponto pacífico; que uma intervenção logo depois de reativar a lembrança a enfraqueça por bloquear a reconsolidação é uma promessa ainda em teste. Chamar a reconsolidação de hipótese não é duvidar da plasticidade da memória — é saber qual parte dela já está demonstrada.

NotaPontos-chave
  • “Plasticidade” (James, Cajal) é a mudança de estrutura que persiste depois que cessa a força que a produziu, ao contrário da elasticidade; para Paillard, só conta como plasticidade neural a mudança ao mesmo tempo estrutural e funcional.
  • A memória não é registro fixo: é processo dinâmico que ajusta e atualiza as lembranças.
  • A consolidação torna a memória estável; ao ser evocada, ela pode voltar a um estado maleável e ser consolidada de novo, com possibilidade de atualização — o processo descrito como reconsolidação.
  • Essa maleabilidade tem implicações para a terapia e para a educação, e é também a porta de entrada das falsas memórias.