18 Memória autobiográfica
Os eventos relacionados à nossa própria vida, nossa autobiografia, são de certa forma especiais. O conhecimento relativo ao próprio self, à própria experiência de si mesmo, tem sido denominado de memória autobiográfica. Enquanto a memória episódica é apenas uma lembrança de um evento específico, a memória autobiográfica inclui também a memória do próprio indivíduo (self) ter vivenciado o evento (Fivush, 2011). É a memória autobiográfica que relaciona os eventos passados numa narrativa coerente de vida.
Ainda é precoce dizer se esse é ou não um tipo independente de memória. Algumas pesquisas mostraram poder existir uma capacidade distinta de guardar lembranças autobiográficas, independente de outras capacidades de memória. LePort e colaboradores investigaram pessoas com uma capacidade autobiográfica superior mostrando que, apesar da nítida capacidade superior nesse tipo de memória, tinham desempenho similar aos controles em testes de memória padronizados (LePort et al., 2012). Num outro extremo, existem pessoas com graves déficits de memória autobiográfica, mas com outros tipos de memória preservados (Palombo et al., 2015). De qualquer forma, sendo um sistema de memória independente ou não, o conceito de memória autobiográfica é valioso, pois mostra a relação intrínseca entre a memória e nosso senso de self, nossa personalidade, e nossa individualidade.
18.1 O self de trabalho
No modelo de Conway (2005), a memória autobiográfica e o self não são duas coisas separadas: formam um sistema único, em que um sustenta o outro. O self de trabalho é o nome que Conway deu ao conjunto de objetivos, autoimagens e crenças que a pessoa mantém ativos no presente. Esse conjunto regula o acesso às lembranças: a cada evocação, ficam mais acessíveis as memórias coerentes com quem a pessoa acredita ser agora, e menos acessíveis as que contradizem essa imagem — o mesmo princípio de coerência que faz a memória se ajustar para sustentar o self.
Visto assim, o que distingue a memória autobiográfica da episódica não é a precisão, e sim o vínculo com a identidade: o que essa memória guarda e o que deixa de fora depende de quem a pessoa é agora. Os dois extremos dos estudos citados receberam nomes próprios: a capacidade excepcional investigada por LePort e colaboradores é a memória autobiográfica altamente superior (HSAM, na sigla em inglês) (LePort et al., 2012), e o déficit grave em adultos saudáveis é a memória autobiográfica gravemente deficiente (SDAM) (Palombo et al., 2015). Nos dois quadros, a capacidade autobiográfica varia sozinha, com os demais tipos de memória preservados. No modelo de Conway, a amnésia dissociativa (Capítulo 23) corresponderia ao caso extremo dessa regulação: o self de trabalho fecha o acesso a um período inteiro da vida.
18.2 Amnésia infantil e pico de reminiscência
Quando adultos com mais de 35 anos evocam livremente lembranças da própria vida e essas lembranças são organizadas pela idade que a pessoa tinha em cada evento, o gráfico resultante tem sempre a mesma forma (Conway, 2005): quase nada dos primeiros anos (a amnésia infantil, do nascimento até por volta dos cinco anos), uma concentração desproporcional de lembranças da faixa dos 10 aos 30 anos (o pico de reminiscência) e uma subida final para os eventos recentes. O padrão é descrito como um dos fenômenos mais confiáveis da pesquisa em memória e apareceu praticamente idêntico em países tão diferentes quanto Estados Unidos, Bangladesh, Japão e China (Conway, 2005).
A amnésia infantil não é falta de registro. Crianças com menos de cinco anos têm memórias autobiográficas específicas e detalhadas; o que se perde é o acesso do adulto a elas (Conway, 2005). Esse fato compromete as explicações baseadas no amadurecimento geral do intelecto, da linguagem ou da emoção: as memórias existiam e eram evocadas na época em que a criança as formou. A explicação de Conway recorre ao self de trabalho: as metas que organizam a experiência de um bebê são tão diferentes das metas de um adulto que o self de trabalho adulto não consegue acessar as lembranças codificadas a partir delas.
O pico de reminiscência, por sua vez, não se restringe aos eventos pessoais: aparece também quando se pede a alguém que lembre filmes, músicas, livros e acontecimentos públicos marcantes — a maior parte vem da mesma faixa dos 10 aos 30 anos (Conway, 2005). As lembranças desse período são julgadas mais importantes do que as das outras épocas e são as mais cotadas para entrar numa autobiografia. Na leitura de Conway, o fenômeno se liga à formação da identidade: é nessa faixa que o self adulto se estabiliza, e as experiências que o definiram permaneceriam altamente acessíveis pelo resto da vida.
- Memória dos eventos da própria vida que inclui a lembrança de o próprio self tê-los vivenciado; é ela que organiza a narrativa de vida.
- Ainda é questão aberta se constitui um sistema independente: na HSAM, a capacidade autobiográfica é excepcional com testes padronizados normais; na SDAM, é gravemente deficiente com os demais tipos de memória preservados.
- No modelo de Conway, o self de trabalho — os objetivos, as autoimagens e as crenças ativos no presente — regula quais lembranças ficam acessíveis; a amnésia dissociativa corresponderia ao extremo desse fechamento.
- A distribuição das lembranças ao longo da vida tem forma fixa: amnésia infantil até por volta dos cinco anos, pico de reminiscência entre os 10 e os 30 — a faixa em que a identidade se forma — e recência.