6  A importância do esquecimento

A maior parte das lembranças do que vivemos some em poucos dias, e ninguém sente falta - o almoço de terça-feira, a placa do carro à frente no trânsito, o nome do garçom. Até há relativamente pouco tempo, acreditava-se que o esquecimento era um processo passivo, uma falha, no qual as informações não utilizadas eram gradualmente perdidas com o passar do tempo.

Na última década, surgiram muitas evidências de que o processo do esquecimento é um processo ativo, em constante funcionamento no cérebro. É um componente-chave da maleabilidade da memória. O esquecimento não é apenas uma falha ou deficiência da memória; na verdade, é um processo adaptativo que nos permite manter nossas memórias eficientes e relevantes (Bjork; Bjork, 2011). Ao esquecer informações que não são mais úteis, abrimos espaço para novas aprendizagens e permitimos que nosso cérebro se concentre nos aspectos mais importantes e pertinentes de nossas experiências (Anderson, 2003).

Algumas pessoas possuem uma memória autobiográfica superior, condição conhecida como HSAM (highly superior autobiographical memory). Essa capacidade, entretanto, vem junto com uma série de problemas. Uma memória autobiográfica superior traz como consequência lembrar de forma persistente fatos desagradáveis ou tristes. DeGrandis, indivíduo com HSAM, diz que lutou contra a depressão e a ansiedade, que ele acredita poderem estar ligadas à sua incapacidade de esquecer eventos: “Quando algo doloroso acontece, como um rompimento ou a perda de um membro da família, não esqueço esses sentimentos.” (Macmillan, 2017). Jill Price, conhecida como AJ, que tem HSAM, também sofre devido a essas memórias persistentes. Sempre que AJ se lembra de uma memória pessoal, vêm à sua mente outras memórias relacionadas em uma cascata incontrolável. De acordo com ela, a lembrança “é ininterrupta, incontrolável e totalmente desgastante… A maioria acha que é um dom, mas eu acho um peso. Eu repasso toda a minha vida em meus pensamentos todos os dias e isso me deixa louca” (Parker; Cahill; McGaugh, 2006).

O esquecimento não serve apenas para esquecermos fatos tristes ou estressantes, mas é também uma solução para um problema adaptativo: frequentemente, não é possível determinar imediatamente a importância de uma conjunção arbitrária de eventos. Ou seja, no momento em que vivenciamos algo, talvez ainda não saibamos se isso é importante o suficiente para armazenar esse conhecimento de forma duradoura. Se fôssemos armazenar tudo que aprendemos de forma duradoura, todas nossas vivências, estaríamos mergulhados em tantas informações que a memória iria perder sua vantagem evolutiva. O cérebro precisa então da flexibilidade para gerenciar a conservação ou não das memórias depois dos eventos.

Certamente a capacidade de adquirir rapidamente o máximo de informações possível é altamente adaptativa, aumentando a probabilidade de ter capturado conhecimento que pode ser importante mais tarde. Mas o significado e a importância muitas vezes só se tornam evidentes após o fato. Então, preservar o máximo possível de informações detalhadas é importante por um curto prazo. Mas, depois de armazenadas essas informações, alguma forma de sinalização da significância ou relevância, como estresse ou outras reações emocionais, é que deve levar ao fortalecimento seletivo de algumas das memórias recentemente adquiridas (Hardt; Nader; Nadel, 2013). Um bom exemplo é a memória para o almoço do dia anterior. Muito provavelmente, essa memória ainda estará disponível no dia seguinte. No entanto, uma semana depois, ou mesmo apenas alguns dias depois, ela terá desaparecido. No entanto, se o mal-estar se instalar em poucas horas após o jantar, a memória para o que foi ingerido será consolidada com mais eficiência e estará disponível por mais tempo e, no caso de reações aversivas graves, essa memória pode persistir por anos ou até mesmo uma vida, e muitas vezes com grandes detalhes (Hardt; Nader; Nadel, 2013). Portanto, para que a memória seja realmente eficiente, é necessário haver uma maleabilidade em sua consolidação. É necessário que as memórias possam ser não apenas consolidadas, mas também extintas e atualizadas. Nomeamos essa característica de “plasticidade” da memória.

6.1 Esquecer para decidir melhor

Estes (1980) definia o esquecimento como a perda progressiva de precisão ou de completude da informação sobre a experiência original. Se ele é ativo, para que serve? Richards e Frankland (2017) deram à pergunta uma resposta computacional: a transitoriedade da memória aumenta a flexibilidade, ao reduzir a influência de informação desatualizada sobre as decisões guiadas pela memória, e impede que a memória fique presa aos detalhes de eventos passados específicos, o que favorece a generalização. Nas palavras deles, o objetivo da memória não é a transmissão de informação através do tempo, mas otimizar a tomada de decisão; a transitoriedade é tão importante quanto a persistência. Ou, como resumiu Blake Richards em entrevista, a questão da memória não é ser capaz de lembrar quem ganhou a Copa do Mundo de 1972, e sim decidir melhor (Gravitz, 2019). Nas redes neurais artificiais vale a mesma regra: um modelo que decora cada exemplo do passado prevê pior o que vem depois, e a rede que generaliza é a que esquece um pouco. Nos dois casos, as memórias funcionam como modelos do passado, representações simplificadas que guardam a essência, e não necessariamente o detalhe, dos eventos (Richards; Frankland, 2017).

6.2 A curva do esquecimento e a repetição

Ebbinghaus, memorizando listas de sílabas sem sentido, foi o primeiro a medir o esquecimento e a descrever a sua curva: uma queda rápida nas primeiras horas seguida de um platô, com a maior parte do que se perde perdida logo no primeiro dia (Ebbinghaus, 1913). A curva tem duas lições. A primeira é que o esquecimento é mais rápido para material sem significado: quando o que se aprende se integra a um conhecimento prévio bem organizado, a perda com o tempo é muito menor (Baddeley; Eysenck; Anderson, 2015). A segunda é que a repetição espaçada achata a curva, mas não indiscriminadamente: repetir só melhora a memória do que é importante, dos significados. Ver um objeto milhares de vezes não garante lembrar dos seus detalhes: adultos americanos não conseguiam desenhar de memória a moeda de um centavo nem reconhecer a verdadeira entre variantes alteradas (Nickerson; Adams, 1979).

DicaNa clínica

Lembrar demais é queixa clínica. As pessoas com memória autobiográfica superior descritas acima relatam ansiedade, comportamentos compulsivos e a incapacidade de deixar para trás os sentimentos de perdas e rupturas (LePort et al., 2012; Macmillan, 2017; Parker; Cahill; McGaugh, 2006). Diante de um paciente que “não consegue esquecer”, a pergunta não é como fortalecer a memória, mas por que o processo ativo do esquecimento não está fazendo o seu trabalho.

NotaPontos-chave
  • O esquecimento não é uma falha passiva: é um processo ativo e adaptativo.
  • Lembrar de tudo tem custo — a memória autobiográfica superior (HSAM) vem acompanhada de sofrimento.
  • Para a hipótese da transitoriedade, a memória existe para decidir melhor, não para guardar o passado; esquecer o detalhe favorece a generalização.
  • A curva de Ebbinghaus: a perda é rápida no início e muito menor para o que tem significado; a repetição espaçada só melhora a memória do que é importante.