17 Memória episódica
A expressão “memória episódica” designa um conceito, um constructo teórico, criado para descrever nossa capacidade de recordar acontecimentos situados em determinado tempo e lugar: uma conversa ocorrida ontem, uma viagem realizada anos atrás, o que fizemos em nosso último aniversário. É essa capacidade que nos confere a consciência do nosso próprio passado e do nosso futuro, nos permitindo “viajar mentalmente no tempo” (Tulving, 1985b), e é ela que nos possibilita conhecer a própria história, a própria autobiografia.
Isso não significa que exista no cérebro uma entidade isolada chamada “memória episódica”, como se fosse um arquivo claramente delimitado; o termo reúne operações cognitivas e neurais complexas, inferidas por meio de relatos, comportamentos e resultados experimentais. Veja a seguir a história de como esse constructo foi proposto, testado e refinado ao longo de meio século.
17.1 Do sistema único aos sistemas múltiplos
Durante boa parte do século XX, prevaleceu no estudo da memória o que Tulving (1985a) chamou de sabedoria convencional: a memória seria essencialmente um sistema único — “memória é memória”.
A primeira evidência contra essa visão veio da clínica. Depois da cirurgia que o deixou amnésico, o paciente HM não conseguia mais armazenar os novos acontecimentos da própria vida: poucos minutos depois de uma visita médica, já não se lembrava de ter encontrado o médico. E, no entanto, aprendia. No teste de Brenda Milner, ele traçava uma estrela vendo a própria mão apenas pelo espelho, e seu desempenho melhorava a cada dia de prática — sem que ele se lembrasse de ter praticado (Milner, 1962). Esse contraste — perder os acontecimentos, preservar o aprendizado da tarefa — foi a primeira pista de que existe mais de um tipo de memória (Squire, 2009).
O caso HM mostrou haver diferentes sistemas para a memória de eventos e fatos e a memória de habilidades — a divisão que receberia o nome de memória declarativa e memória não declarativa (Baddeley; Eysenck; Anderson, 2015).
17.2 Uma distinção nascida no laboratório
No início dos anos 1970, Tulving propôs o conceito de memória episódica dentro da psicologia cognitiva experimental, definida “em termos de materiais e tarefas”, pelo tipo de coisa lembrada e pelo tipo de teste usado para medi-la (Tulving, 2002).
Tulving reuniu argumentos de plausibilidade contra o sistema único — ele mesmo os chamava de “pré-teóricos”, por virem antes de qualquer experimento (Tulving, 1985a). O principal era uma analogia com a visão. Ver parece uma coisa só; o estudo do cérebro mostrou o contrário. Pessoas com lesão no córtex visual às vezes apontam com precisão para objetos que afirmam não enxergar — o fenômeno da visão cega —, e o processamento visual corre por duas vias corticais distintas, uma que reconhece o que o objeto é, outra que localiza onde ele está. A experiência de ver é unitária; os sistemas por trás dela, não. Com memória poderia ser da mesma forma.
O segundo argumento apela à intuição. Responder “sim” à pergunta “Abraham Lincoln está morto?” e recordar o funeral de um amigo próximo são, ambos, atos de memória. Mas um devolve um fato impessoal, que qualquer pessoa poderia saber; o outro traz de volta uma cena que só quem esteve lá pode reviver. É difícil conceber que os dois sejam obra de um mesmo sistema — e essa dificuldade, argumentava Tulving, já era motivo para procurar sistemas distintos (Tulving, 1985a).
A esses argumentos se somaram experimentos mostrando que um mesmo ato de aprendizagem produz registros independentes entre si. O priming — a facilitação que um encontro recente com uma palavra produz ao completá-la depois a partir de fragmentos — mostrou-se estatisticamente independente do reconhecimento: a pessoa completa o fragmento com a palavra estudada mesmo quando não reconhece tê-la visto, e o priming resiste ao tempo muito mais do que o reconhecimento (Tulving, 1985a). O achado se repetia em amnésicos, que exibiam priming quase normal apesar da falha grave em recordar e reconhecer (Tulving, 1985a). Efeitos que se comportam de maneira tão independente, argumentava Tulving, dificilmente são obra de um sistema só.
Desse conjunto nasceu a proposta de três sistemas de memória — procedural, semântico e episódico (Tulving, 1985a). A evidência clínica e, depois, a neuroimagem entraram nessa história como corroboração posterior: no balanço que fez do conceito em 2002, Tulving lista como evidência de sustentação os padrões de comprometimento de memória causados por lesão cerebral e os padrões de atividade cerebral de pessoas saudáveis executando tarefas de memória (Tulving, 2002).
17.3 Saber e lembrar
Existe uma diferença entre saber de um fato e lembrar de um acontecimento. Um fato é um conteúdo sobre o mundo — Paris é a capital da França, Tiradentes é uma cidade histórica de Minas Gerais. Podemos saber desses fatos sem nos lembrarmos de quando os aprendemos. Um acontecimento é algo que foi vivido: tem data, lugar, ponto de vista. Lembrar de um acontecimento é voltar à cena. Sabemos que Paris é a capital da França; lembramos da visita a Paris no inverno do ano passado. São dois registros distintos: o fato, que se incorpora à memória semântica, e o episódio vivido, objeto da memória episódica (Baddeley; Eysenck; Anderson, 2015).
Três elementos distinguem esse reviver de um simples saber. O primeiro é o self: a lembrança episódica vem em primeira pessoa. Um fato pode ser anônimo — sabemos milhares de coisas sem nenhuma marca de quando as aprendemos —, mas o episódio tem dono: reviver a cena inclui reconhecer-se nela. O segundo é o tempo subjetivo: o episódio vem ancorado a um momento (Baddeley; Eysenck; Anderson, 2015; Tulving, 1985b). O terceiro é a consciência autonoética (“autoconhecedora”), o nome que Tulving deu à consciência que nos permite tomar ciência da própria identidade e existência num tempo subjetivo que se estende do passado, atravessa o presente e alcança o futuro (Tulving, 1985a). Quem lembra sabe que está lembrando: é essa consciência que dá à experiência o seu “sabor de passado” e que permite reconhecer a cena como lembrança nossa e refletir sobre o que ela contém (Baddeley; Eysenck; Anderson, 2015). Na proposta de Tulving, cada sistema tem a sua forma de consciência: a procedural opera sem conhecimento (anoética), a semântica conhece o mundo (noética) e só a episódica conhece a si mesma no tempo (autonoética) (Tulving, 1985a).
A distinção entre lembrar e saber acabou virando instrumento de medida. No procedimento remember/know (“lembrar/saber”), proposto por Tulving, quem reconhece um item numa tarefa de memória informa o motivo: responde “lembro” quando recupera detalhes do contexto em que o item apareceu, e “sei” quando o item apenas parece familiar, sem nenhum detalhe do episódio (Baddeley; Eysenck; Anderson, 2015).
17.4 Um debate em aberto
O próprio Tulving (1985a) tratava a classificação dos sistemas de memória como um quebra-cabeça “que não é nem será fácil de resolver”, admitia que os dados disponíveis não bastavam para estabelecer a realidade dos sistemas e mantinha aberta a hipótese de sistemas ainda desconhecidos. A pergunta que dá título ao seu artigo de 1985 — quantos sistemas de memória existem — segue sem resposta definitiva, e as classificações da memória continuam sendo mapas provisórios, não inventários de órgãos.
- Constructo criado para descrever a capacidade de recordar acontecimentos situados no tempo e no lugar — a “viagem mental no tempo”.
- O caso HM mostrou que existem sistemas de memória separados, mas a fronteira que ele revelou foi entre eventos/fatos e habilidades; a distinção entre episódica e semântica nasceu no laboratório, de argumentos de plausibilidade e de experimentos em que um mesmo aprendizado produz registros independentes, e a clínica e a neuroimagem entraram depois, como corroboração.
- Saber de um fato difere de lembrar de um acontecimento: o fato se incorpora à memória semântica; o episódio vivido é o objeto da memória episódica — e o procedimento remember/know mede essa diferença.
- Para Tulving, três elementos distinguem lembrar de saber: self (a lembrança vem em primeira pessoa), tempo subjetivo (o episódio vem ancorado a um momento) e consciência autonoética (saber que se está lembrando).
- Quantos sistemas de memória existem segue sendo uma pergunta em aberto; as classificações são mapas provisórios.