19  Memória semântica

Diversas pesquisas mostraram que eventos (informações episódicas) são armazenados de forma distinta de fatos e informações abstratas (informações semânticas). A observação de que existem diferentes tipos de déficits de memória — de que o ser humano pode ter amnésia para eventos sem perder a lembrança dos conceitos — mostrou que os conhecimentos abstratos e simbólicos são armazenados em nosso cérebro de forma diferente das informações de eventos. A memória semântica é o conhecimento armazenado sobre o significado das palavras, símbolos e suas relações, independente de quando ou onde esse conhecimento foi adquirido. O conhecimento matemático é um exemplo claro de um tipo de informação abstrata desvinculada de um evento. Saber que 2 + 2 = 4 (informação semântica) é diferente de saber quando e onde aprendi isso (informação episódica).

Uma importante vantagem de armazenarmos conceitos é a compactação que isso proporciona. Por exemplo, sabendo que aves têm asas não preciso armazenar a informação de que cada tipo de ave que conheço tem asas. Da mesma forma, o conceito de que carros têm em geral 4 rodas nos permite economizar e agilizar o armazenamento dessa informação, pois não preciso decorar quantas rodas tem cada carro que conheço. Basta sabermos que determinado objeto é um carro e isso já traz a informação de que tem 4 rodas. O primeiro modelo sistemático de uma memória semântica foi elaborado por Ross Quillian em 1966 ao estudar como informações semânticas poderiam ser armazenadas num computador (Quillian, 1966). Posteriormente, Allan Collins e Ross Quillian propuseram que esse modelo poderia representar a forma como o cérebro humano armazena informações semânticas, denominada então de memória semântica (Collins; Quillian, 1969). O modelo inicial desses autores tinha como objetivo construir uma memória semântica em computadores, sendo demasiadamente rígido e incapaz de explicar por que as memórias semânticas em humanos são formadas por conceitos muitas vezes indistintos e confusos. Para resolver esse problema, alguns anos mais tarde, Collins e Loftus propuseram um novo modelo no qual a memória semântica se organiza com base na relação semântica entre os conceitos (Collins; Loftus, 1975).

O modelo de ativação difusa de Collins e Loftus pode ser representado como uma rede em que a distância entre os conceitos indica o grau de relação: ativar “vermelho” ativa mais depressa “laranja” e “cerejas” do que “nuvens” (Figura 19.1).

graph TD
    rua --- veiculo[veículo]
    rua --- carro
    rua --- onibus[ônibus]
    veiculo --- carro
    veiculo --- onibus
    veiculo --- caminhao[caminhão]
    veiculo --- ambulancia[ambulância]
    veiculo --- bombeiros[carro de bombeiros]
    bombeiros --- fogo
    bombeiros --- vermelho
    fogo --- casa
    vermelho --- laranja
    vermelho --- amarelo
    vermelho --- verde
    vermelho --- macas[maçãs]
    vermelho --- cerejas
    vermelho --- rosas
    vermelho --- pordosol[pôr do sol]
    macas --- peras
    cerejas --- peras
    rosas --- violetas
    rosas --- flores
    violetas --- flores
    pordosol --- nascer[nascer do sol]
    nascer --- nuvens
    pordosol --- nuvens
Figura 19.1: Fragmento de uma rede semântica, no espírito da Figura 1 de Collins e Loftus (1975): linhas mais curtas indicam maior relação entre os conceitos (esquema original, 2ª ed.).
NotaPontos-chave
  • Conhecimento de significados, símbolos e suas relações, independente de quando ou onde foi adquirido: saber que 2 + 2 = 4 é diferente de lembrar quando aprendi isso.
  • Sua vantagem é a compactação: “aves têm asas” dispensa armazenar a informação para cada ave.
  • Modelos: o de Quillian (1966), pensado para computadores e proposto para o cérebro humano por Collins e Quillian (1969), e, para dar conta de conceitos difusos, a ativação difusa de Collins e Loftus (1975), uma rede em que a distância entre conceitos indica o grau de relação.