Roberto, 55 anos

Roberto é trazido ao consultório pela filha, que aguarda na recepção. Ele entra na sala caminhando lentamente, levemente curvado. Veste-se adequadamente - calça social, camisa, sapatos limpos - mas parece ter dificuldade de coordenar os movimentos. Ao sentar, precisa se apoiar nos braços da cadeira.

O entrevistador nota que Roberto tem um leve tremor nas mãos, principalmente quando em repouso. Sua face tem uma expressão fixa, com poucos movimentos da mímica facial, dando-lhe uma aparência de “máscara”.

“Bom dia, doutor”, ele diz, articulando as palavras com alguma dificuldade, como se sua língua estivesse “grossa”. Sua voz é mais baixa que o normal e tem uma qualidade monotônica.

Quando perguntado como está se sentindo, Roberto demora a responder, não por falta de cooperação, mas como se precisasse de mais tempo para processar a pergunta e formular a resposta. “Estou… bem… quer dizer… tenho tido alguns… problemas”.

Questionado sobre que tipo de problemas, Roberto explica lentamente: “Esqueço das coisas… outro dia não lembrei onde tinha deixado o carro no estacionamento do supermercado. Fiquei uma hora procurando”. Ele sorri levemente, mas a expressão parece forçada, não alcançando seus olhos.

Roberto sabe seu nome completo, idade, onde nasceu. Sobre a data, ele responde: “Hoje é… dia 15… não, 16… é junho, certo? Quarta-feira?” (É 17 de junho, quinta-feira). Ele sabe que está em um consultório médico na cidade onde mora.

Quando se pede que faça o teste de memória das três palavras (carro, livro, janela), Roberto repete corretamente. Após cinco minutos, lembra “carro” e “janela”, mas não “livro”. Quando dado um tempo adicional, ele eventualmente se lembra: “Ah sim… livro! Estava na ponta da língua”.

Pedimos que Roberto faça o desenho de um relógio marcando 3h15. Ele pega o papel e a caneta com alguma dificuldade devido ao tremor. Desenha um círculo razoavelmente redondo, mas tem dificuldade em posicionar os números. O número 12 está no lugar certo, mas os outros números ficam amontoados na metade direita do relógio. Os ponteiros indicam aproximadamente 3h15, mas não são muito precisos.

Roberto é solicitado a subtrair 7 de 100 repetidamente. Ele começa: “100 menos 7… 93… 93 menos 7…” pausa longa… “86… depois… 79… não, espera… 80? Não…” Ele parece frustrado. “Desculpe, doutor, minha cabeça não está boa hoje”.

Durante a conversa, Roberto repete algumas informações que já havia dado. Quando questionado sobre sua profissão, ele diz “sou engenheiro” e, minutos depois, quando o tópico não está mais sendo discutido, ele comenta: “Trabalhei como engenheiro por 30 anos, sabe?”

A filha, convidada a entrar por alguns minutos, relata que o pai tem se esquecido de compromissos, repete as mesmas perguntas várias vezes, e recentemente se perdeu voltando para casa de um lugar que conhece bem. “Ele também mudou de personalidade”, ela diz. “Papá sempre foi calmo, mas agora fica irritado por pequenas coisas. E às vezes diz coisas inapropriadas, sem filtro”.

Roberto admite que tem percebido “algumas dificuldades”, mas minimiza: “É a idade, doutor. Todo mundo esquece as coisas quando fica velho, não é?” Quando sugerido que uma avaliação mais detalhada seria útil, ele aceita, mas não parece particularmente preocupado: “Se a senhora acha necessário… minha filha está preocupada, então tudo bem”.

Ao final da consulta, quando se levanta para sair, Roberto caminha com passos curtos e arrastados. Antes de sair, ele se vira e pergunta: “Doutor, qual é mesmo seu nome? Desculpe, já me esqueci”.

Caso fictício, elaborado para fins didáticos.