Discrepâncias entre as Fontes

A psicopatologia descritiva é uma disciplina centenária, mas sua linguagem ainda não atingiu um consenso pleno. Como observa Sims, um dos grandes problemas do método fenomenológico é a “natureza confusa da terminologia”: ideias quase idênticas recebem classificações distintas conforme a base teórica de quem as descreve, e um mesmo termo pode assumir significados diferentes — por vezes opostos — entre autores (Oyebode, 2018).

Quando as fontes divergem, seguimos preferencialmente a convenção da fonte principal (Sims) e sinalizamos a divergência. Em alguns casos, porém, o próprio termo é tão disputado que preferimos descrever o fenômeno a aplicar um rótulo — pois a descrição é mais segura do que um nome sem consenso.

Hierarquia de fontes adotada

  1. Sims — Sintomas da Mente (Oyebode, 2018) · fonte principal
  2. Dalgalarrondo — Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais (Dalgalarrondo, 2019)
  3. Kaplan & Sadock — Compêndio de Psiquiatria (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017) · referência complementar

Como ler cada entrada

Cada divergência recebe um identificador (D1, D2, …) para facilitar a referência cruzada a partir dos capítulos do roteiro. Toda entrada traz: onde o termo aparece no livro, uma comparação lado a lado entre as fontes, quando aplicável a convenção adotada, e as citações com a página exata (do livro impresso, não do PDF).


D1 — Catalepsia × Flexibilidade cérea

Onde aparece: Parte II · cap. 1 (Aspectos Gerais) — Fenômenos catatônicos.

A divergência: os dois termos têm definições invertidas entre as tradições.

Fenômeno observado Sims · Dalgalarrondo (adotado) Kaplan & Sadock · DSM-5
Postura imposta pelo examinador é mantida (“moldável como cera”) Flexibilidade cérea Catalepsia
Resistência plástica à movimentação passiva Catalepsia Flexibilidade cérea

O que dizem as fontes:

  • Sims: a flexibilidade cérea ocorre quando “os membros do paciente são colocados em qualquer posição pelo entrevistador e permanecem na posição por tempo prolongado” (Oyebode, 2018).
  • Dalgalarrondo: a catalepsia é “um acentuado exagero do tônus postural, com grande redução da mobilidade passiva […] hipertonia muscular global de tipo plástico”; já na flexibilidade cerácea o corpo “é colocado pelo examinador em determinada posição […] e assim permanece, como se fosse um homem de cera, moldável por uma outra pessoa” (Dalgalarrondo, 2019, p. 185).
  • Kaplan & Sadock (DSM-5): “Catalepsia (i.e., indução passiva de uma postura mantida contra a gravidade)”; “Flexibilidade cérea (i.e., resistência leve ao posicionamento pelo examinador)” (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017, p. 345).

D2 — Estupor: nível de consciência ou síndrome psicomotora?

Onde aparece: Parte II · cap. 2 (Nível de Consciência) e cap. 1 (Aspectos Gerais).

A divergência: o termo estupor tem dois referentes, conforme a disciplina.

Tradição O que “estupor” designa
Psiquiátrica / fenomenológica (Sims, Dalgalarrondo) Síndrome psicomotora: mutismo + acinesia, com vigília/consciência aparentemente preservada
Neurológica (Plum & Posner) · Kaplan / DSM-5 Nível de rebaixamento do despertar, entre a obnubilação e o coma; desperta só a estímulo vigoroso e contínuo

O que dizem as fontes:

  • Sims: o estupor “difere do coma e não se encontra em uma escala indo da vigília ao coma”; reservado para “mutismo e acinesia… em paciente que parece desperto e até mesmo alerta” (Oyebode, 2018).
  • Dalgalarrondo: estupor = “perda de toda a atividade espontânea… na vigência de um nível de consciência aparentemente preservado”; tratado no capítulo de psicomotricidade (Dalgalarrondo, 2019, p. 185).
  • Plum & Posner: estupor = estado de profundo sono ou ausência de resposta do qual o sujeito só é despertado por estimulação vigorosa e contínua; distinguem-no expressamente do estupor psiquiátrico (catatonia, depressão grave) (Posner et al., 2019).
  • Kaplan: lista o estupor entre os estados de rebaixamento (“sonolência, estupor, letargia… coma”) (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017).

D3 — Vigilância: mobilidade ou sustentação da atenção?

Onde aparece: Parte II · cap. 3 (Atenção); também cap. 2 (Nível de Consciência).

A divergência: o termo vigilância designa qualidades quase opostas da atenção, conforme a tradição.

Tradição “Vigilância” designa
Dalgalarrondo (latina/clássica) (usado no roteiro) Mobilidade da atenção: capacidade de mudar o foco (oposto de tenacidade)
Sims · Kaplan (inglesa) Atenção sustentada: manter o foco ao longo do tempo (≈ tenacidade)

O que dizem as fontes:

  • Dalgalarrondo: “A vigilância é definida como a qualidade da atenção que permite ao indivíduo mudar seu foco de um objeto para outro” (Dalgalarrondo, 2019, p. 102).
  • Sims: entre os aspectos da atenção lista “atenção sustentada ou vigilância, atenção compartilhada e atenção alternante” (Oyebode, 2018).
  • Kaplan: refere-se a “atenção/vigilância sustentada” como a manutenção do foco ao longo do tempo (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017).

Nota adicional: há ainda um terceiro uso — vigilância como alerta/arousal (estado de despertar), empregado por Sims no capítulo da consciência e, no roteiro, no cap. 2 (“vigilante” = alerta aumentado).


D4 — Déjà vu / jamais vu: alteração da memória ou do reconhecimento?

Onde aparece: Parte II · cap. 5 (Memória) — alterações qualitativas.

A divergência: é de classificação. O déjà vu (e o jamais vu) costuma ser listado entre as paramnésias, no rol das alterações da memória; mas as fontes o entendem como distúrbio do reconhecimento/familiaridade, não da memória propriamente.

Fonte Como classifica o déjà vu
Agrupamento didático usual Entre as paramnésias, nas alterações da memória
Sims Não é essencialmente um transtorno da memória”, mas da sensação de familiaridade diante de evento novo
Kaplan Ilusão de reconhecimento” (e o jamais vu, “fenômeno paramnésico”)

O que dizem as fontes:

  • Sims: “Déjà vu não é essencialmente um transtorno da memória, e sim um distúrbio no qual a sensação de familiaridade… ocorre em relação a um evento novo”; trata-os como paramnésia de identificação (Oyebode, 2018).
  • Kaplan: define déjà vu como “ilusão de reconhecimento visual na qual uma nova situação é incorretamente reconhecida”; jamais vu como “fenômeno paramnésico” (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017).
  • Dalgalarrondo: não os inclui entre as paramnésias da memória (ilusão e alucinação mnêmicas, fabulações, criptomnésia, ecmnésia) (Dalgalarrondo, 2019).

D5 — Pseudoalucinação: um termo, vários sentidos (e a colisão com alucinose)

Onde aparece: Parte II · cap. 6 (Sensopercepção).

A divergência: pseudoalucinação é, segundo Sims, “um dos fenômenos menos compreendidos da psicopatologia”. Berrios mostra que o uso do termo “se perdeu”, aplicado a pelo menos cinco fenômenos distintos; Kräupl Taylor aponta dois sentidos mutuamente contraditórios:

Sentido Definição Origem
Espaço subjetivo interno Percepção com toda a nitidez de uma real, mas vivenciada no “espaço interno”, involuntária e não evocável à vontade Jaspers, a partir de Kandinsky
Alucinação com insight Percepção no espaço externo, vívida, mas reconhecida pelo paciente como irreal Hare (1973)

A colisão com alucinose: o segundo sentido (alucinação com insight, de Hare) descreve quase o mesmo que Dalgalarrondo chama de alucinose — a alucinação criticada e reconhecida como patológica, “periférica ao Eu” (Dalgalarrondo, 2019, p. 130). Mesmo fenômeno, nomes diferentes conforme a tradição.

O que dizem as fontes:

  • Sims: o termo é dos menos compreendidos; usado em dois sentidos contraditórios; sua importância está no diagnóstico diferencial da alucinação, pois “não é necessariamente psicopatológica” (Oyebode, 2018).
  • Dalgalarrondo: inclui a pseudoalucinação entre as alterações qualitativas da sensopercepção, ao lado da ilusão, da alucinação e da alucinose (Dalgalarrondo, 2019).

Na prática: importa descrever a experiência — onde ocorre (espaço interno ou externo), sua nitidez e se há ou não insight — e considerar o diagnóstico diferencial, já que nem toda vivência perceptiva é uma alucinação patológica.


D6 — Gravidade da deficiência intelectual: QI ou funcionamento adaptativo?

Onde aparece: Parte II · cap. 9 (Inteligência).

A divergência: os sistemas graduam a gravidade da DI sobre bases diferentes — e isso mudou ao longo do tempo, junto com o próprio nome do quadro.

Sistema Termo Base da gravidade
CID-10 / DSM-IV Retardo mental Faixas de QI
DSM-5 (2013) Deficiência intelectual Funcionamento adaptativo (conceitual, social, prático)
CID-11 (2022) Transtornos do desenvolvimento intelectual Ênfase no funcionamento adaptativo

O que dizem as fontes:

  • Kaplan (DSM-5): “No DSM-5, vários níveis de gravidade da deficiência intelectual são determinados com base no desempenho adaptativo, e não com base nas pontuações do QI… o desempenho adaptativo determina o nível de suporte necessário [e] as pontuações do QI são menos válidas nas partes inferiores da faixa” (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017, p. 291).
  • AAIDD: DI = limitações significativas no funcionamento intelectual e no comportamento adaptativo (conceitual, social e prático) (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017, p. 1119).
  • CID-11 (OMS): substituiu “retardo mental” por “transtornos do desenvolvimento intelectual” (6A00), com ênfase no funcionamento adaptativo (Organização Mundial da Saúde, 2022).
  • Dalgalarrondo: mantém a tabela por faixas de QI (tradição CID-10), mas exige déficit adaptativo para o diagnóstico (Dalgalarrondo, 2019).

Em todas as abordagens: o diagnóstico nunca se faz por QI isolado — exige comprometimento adaptativo. A tendência atual desloca o eixo da gravidade do número de QI para o grau de suporte de que a pessoa necessita.


D7 — Delírio é uma “crença falsa”? A definição em disputa

Onde aparece: Parte II · cap. 10 (Juízo de Realidade).

A divergência: não há definição consensual de delírio. A definição clássica (Jaspers), reproduzida na maioria dos manuais, costuma ser apresentada como assentada — mas cada um de seus critérios é contestado.

Critério clássico (Jaspers) A crítica
Juízo falso Pode ser objetivamente verdadeiro (ciúme delirante) — a falsidade não é essencial
Convicção extraordinária Crenças normais também são mantidas com convicção extrema
Irremovível por contra-argumento Alguns delírios cedem a contra-argumentos
Conteúdo impossível O conteúdo delirante nem sempre é impossível

O que dizem as fontes:

  • Sims: “Continua a haver muita discussão e controvérsia sobre a definição de delírio… Cada um desses critérios sofreu críticas” (Oyebode, 2018).
  • Spitzer: os delírios afirmam um saber, não um crer — por isso são expressos com convicção e não se abrem a discussão (Oyebode, 2018).
  • Berrios: “os delírios são atos de discurso vazio que se impõem como crenças”, de conteúdo incidental e sem qualidade informativa; a noção de “crença errada” é uma construção do século XIX (Berrios, 1996).
  • Kendler et al.: em vez de uma definição única, mostraram que o delírio é multidimensional — cinco dimensões pouco correlacionadas (convicção, extensão, bizarrice, desorganização, pressão) —, uma abordagem dimensional, não categórica (Kendler; Glazer; Morgenstern, 1983).
  • Debate atual (Bortolotti): as objeções à ideia de delírio-como-crença valem igualmente para crenças normais — logo, faz sentido tratá-los como crenças anômalas (Oyebode, 2018).

A definição clássica é apresentada por sua utilidade prática, com a ressalva explícita de que é contestada — o delírio não se caracteriza pela falsidade do conteúdo, mas pelo modo anômalo de crer e pela incompatibilidade com o contexto do paciente.


D8 — Humor × afeto: definição do DSM ou taxonomia clássica?

Onde aparece: Parte II · cap. 11 (Vida Afetiva).

A divergência: o que se entende por “afeto” muda conforme a tradição.

Tradição Como organiza
DSM / Kaplan (adotado no roteiro) Humor = estado emocional interno e sustentado; afeto = sua expressão observável pelo examinador (analogia: clima × tempo)
Clássica (Dalgalarrondo, Jaspers) Afetividade é o termo guarda-chuva, com cinco modalidades — humor, emoções, sentimentos, afetos, paixões; afeto é uma dessas modalidades, não “a expressão observável”

O que dizem as fontes:

  • Kaplan: humor = “tom de sentimento generalizado e sustentado, experimentado internamente”; afeto = a expressividade observada pelo examinador (expressão facial, gestos, voz) (Sadock; Sadock; Ruiz, 2017).
  • Dalgalarrondo: “afetividade é um termo genérico, que compreende várias modalidades de vivências afetivas, como o humor, as emoções e os sentimentos”; distingue cinco tipos (humor, emoções, sentimentos, afetos, paixões) (Dalgalarrondo, 2019, p. 155).

Excepcionalmente, adotamos a distinção humor/afeto do DSM por ser a que estrutura o Exame do Estado Mental (humor subjetivo relatado × afeto observado), sinalizando que “afeto”, aqui, tem o sentido do DSM, não o da taxonomia clássica.


D9 — Transtornos da personalidade: categorias ou dimensões?

Onde aparece: Parte II · cap. 17 (Personalidade).

A divergência: a base da classificação mudou — dos tipos categoriais para um modelo dimensional.

Sistema Modelo
DSM-5 (Seção II) / CID-10 Categorial: ~10 tipos em 3 clusters (A excêntricos, B dramáticos, C ansiosos)
CID-11 (2022) Dimensional: um único diagnóstico, graduado por gravidade (leve/moderado/grave) + domínios de traços (afetividade negativa, distanciamento, dissocialidade, desinibição, anancasmo) + padrão borderline

O que dizem as fontes:

  • Kaplan / Dalgalarrondo: descrevem os tipos categoriais em clusters (tradição DSM/CID-10) (Dalgalarrondo, 2019; Sadock; Sadock; Ruiz, 2017).
  • CID-11 (OMS): abandonou os tipos; classifica por gravidade da disfunção do self e interpessoal, com domínios de traços contínuos com a personalidade normal (Organização Mundial da Saúde, 2022).
  • O próprio DSM-5 traz, na Seção III, um modelo alternativo dimensional, semelhante ao da CID-11.

Apresentamos os clusters (ainda muito usados e mantidos no DSM-5 Seção II) e o modelo dimensional da CID-11, sinalizando a transição.