2. Nível de Consciência

O nível de consciência tem duas faces, e cada tradição clínica desenvolveu melhor uma delas. As alterações quantitativas — o eixo do despertar (arousal), da vigília plena ao coma — são tratadas com mais rigor e objetividade pela neurologia. Esse eixo tem substrato anatomofisiológico definido (sistema reticular ativador ascendente, tronco encefálico e diencéfalo), e é na clínica neurológica — trauma, acidente vascular, encefalopatias — que sua graduação precisa orienta decisões urgentes. Daí terem surgido instrumentos operacionais como a Escala de Coma de Glasgow e o escore FOUR, e a obra de referência de Plum e Posner (Posner et al., 2019).

À psicopatologia psiquiátrica cabe sobretudo o eixo qualitativo: o estreitamento do campo da consciência, o estado crepuscular, o estado onírico, a dissociação — descritos em detalhe por Sims e Dalgalarrondo. A distinção entre os dois eixos é a mesma de que partem Plum e Posner: a consciência tem conteúdo (cortical) e despertar (arousal).

Seja qual for o eixo, mais importante do que escolher o rótulo certo é descrever o estímulo aplicado e a resposta obtida. Como advertem Plum e Posner, “nenhuma escala é adequada para todos os pacientes; a melhor conduta é simplesmente descrever os achados” (Posner et al., 2019).

2.1 Alterações Quantitativas

Normal

  • Lúcido/Vigil: completamente alerta e responsivo

Rebaixamento do Nível de Consciência

Do alerta ao coma, o despertar reduz-se de forma contínua; os termos abaixo marcam pontos aproximados. Na prática, registre o estímulo aplicado e a resposta obtida e, quando indicado, o escore da Escala de Coma de Glasgow (Posner et al., 2019).

  • Obnubilado/Sonolento (turvação da consciência): redução leve a moderada do despertar; lentidão da compreensão, dificuldade de atenção; tende a “cair no sono” quando não estimulado (Dalgalarrondo, 2019, p. 96; Oyebode, 2018)
  • Torporoso (sopor): sonolência acentuada; desperta só a estímulo enérgico (sobretudo doloroso) e logo retorna ao sono (Dalgalarrondo, 2019, p. 96)
  • Comatoso: olhos fechados, sem despertar mesmo a estímulos vigorosos; nos graus profundos, abolição das respostas (Dalgalarrondo, 2019, p. 96; Posner et al., 2019)

O termo confuso (“paciente confuso”) não designa um grau de despertar, mas um quadro clínico — em geral o delirium —, com desorientação, déficit de atenção, perplexidade e pensamento incoerente. Dalgalarrondo recomenda reservar delirium para essas síndromes confusionais (Dalgalarrondo, 2019, p. 96).

AtençãoDivergência entre as fontes: o estupor é um nível de consciência?

O termo estupor tem sentidos diferentes conforme a disciplina. Na tradição psiquiátrica/fenomenológica (Sims, Dalgalarrondo), designa uma síndrome psicomotora — mutismo e acinesia em paciente que parece desperto, com consciência aparentemente preservada (ver Aspectos Gerais → Fenômenos catatônicos). Na neurologia (Plum & Posner) e em Kaplan/DSM-5, designa um nível de rebaixamento do despertar, do qual o paciente só é despertado por estímulo vigoroso. Diante dessa ambiguidade, em vez de classificar o paciente como “estuporoso”, preferimos descrever o que se observa: o grau de despertar pela resposta ao estímulo (ou pela Escala de Glasgow) e, à parte, o quadro motor (mutismo, acinesia, imobilidade). Ver Discrepâncias · D2.

Elevação do Nível de Consciência

  • Vigilante / Hiperalerta: estado de alerta (arousal) aumentado — ansioso, com hiperatividade autonômica e respostas aumentadas aos estímulos. (Aqui, vigilante = despertar aumentado; não confundir com a vigilância da atenção, cap. 3 e Discrepâncias · D3.)

Flutuações

  • Flutuante: alternâncias no nível de consciência

2.2 Alterações Qualitativas

Caracterizam-se por mudança parcial ou focal do campo da consciência — parte preservada, parte alterada —, em geral com algum grau de rebaixamento do despertar associado (Dalgalarrondo, 2019).

Estreitamento do Campo da Consciência

  • Consciência restrita a um círculo de vivências, com perda da capacidade de reflexão; outras vivências tornam-se inacessíveis

Estado Crepuscular

  • Estreitamento transitório do campo da consciência, de início e fim abruptos e duração variável (de minutos a semanas)
  • Atividade motora coordenada preservada, permitindo atos automáticos
  • Em geral, amnésia lacunar para o episódio
  • Associado a epilepsia, intoxicações, traumatismo craniano e quadros dissociativos (Dalgalarrondo, 2019, p. 98; Oyebode, 2018)

Estado Onírico (oniroide)

  • Turvação da consciência acompanhada de vivência semelhante a um sonho muito vívido, com intensa atividade alucinatória visual de caráter cênico e forte carga emocional; frequente no delirium tremens (Dalgalarrondo, 2019, p. 97)

Dissociação da Consciência

  • Fragmentação ou divisão do campo da consciência, com perda da unidade psíquica habitual; ocorre em quadros dissociativos (Dalgalarrondo, 2019)