Carlos, 42 anos
Carlos entra na sala de entrevista olhando ao redor com atenção, verificando os cantos, olhando para trás antes de fechar a porta. Ele está vestido adequadamente, higiene preservada, mas nota-se uma tensão em sua postura - ombros contraídos, punhos cerrados.
Ao sentar-se, Carlos escolhe uma cadeira que lhe permite ver a porta. Mantém contato visual, mas de forma intensa, quase penetrante. Quando o entrevistador se move, Carlos acompanha com o olhar.
“Bom dia, doutor”, ele diz com voz controlada. “Antes de começarmos, preciso saber: quem mais vai ter acesso ao que eu disser aqui? Essa conversa está sendo gravada? Há câmeras nesta sala?”
Após ser reassegurado sobre confidencialidade, Carlos começa a falar, inicialmente com hesitação: “Eu vim porque minha esposa insistiu… ela diz que eu estou ‘paranóico’, mas ela não entende o que está acontecendo realmente”.
Carlos explica que nos últimos seis meses percebeu que está sendo vigiado. “No início achei que era coincidência, mas agora tenho certeza. Há um carro que sempre está estacionado perto de casa - às vezes é preto, às vezes azul, mas eu sei que é o mesmo grupo”. Quando perguntado sobre evidências, Carlos responde: “É óbvio! O carro sempre está lá quando saio. E tem mais: meu computador está sendo hackeado. Encontrei arquivos movidos de lugar, e tenho certeza que não fui eu”.
Ele continua: “No trabalho também. As pessoas sussurram quando passo, olham para mim de forma estranha. Ouvi meu chefe falando ao telefone outro dia, ele disse ‘temos que fazer algo a respeito dele’ - eu sei que estava falando de mim”.
Carlos sabe o dia, hora, onde está, seus dados pessoais. Sua memória está preservada. Ele fala de forma organizada, articulada, usa vocabulário adequado. No entanto, sempre retorna aos temas de vigilância e conspirações.
“Doutor, eu não sou louco”, ele diz enfaticamente. “Sei exatamente o que estou falando. Tenho até um caderno onde anoto todas as evidências - horários em que vejo o carro, nomes de pessoas que agem de forma suspeita. Quer ver?” Ele tira um caderno do bolso com dezenas de páginas preenchidas com anotações detalhadas.
Quando questionado sobre o motivo de alguém querer vigiá-lo, Carlos hesita: “Ainda estou tentando descobrir… talvez seja relacionado ao meu trabalho. Trabalho com TI, tenho acesso a informações confidenciais. Ou talvez… talvez tenha a ver com algo que descobri sem querer”.
Sua expressão facial durante toda a entrevista é séria, tensa. Não demonstra alegria ou tristeza marcantes, mas uma preocupação constante. Ele não dorme bem - “fico alerta, qualquer barulho me acorda”. Seu apetite está normal.
Carlos nega ouvir vozes ou ver coisas que outros não veem. “Não sou esquizofrênico, doutor. Eu sei diferenciar realidade de fantasia. O que está acontecendo é REAL”. Ele se torna levemente irritado quando o entrevistador sugere que suas percepções possam não ser acuradas.
Quando perguntado se gostaria de tratamento, Carlos responde: “Tratamento para quê? Eu não estou doente! Vim aqui porque minha esposa está ameaçando me deixar se eu não vier. Mas o problema não sou eu - é ela que não acredita em mim”.
Apesar da resistência, Carlos concorda em continuar conversando “para provar que não há nada de errado comigo”.
Caso fictício, elaborado para fins didáticos.