17  Processamento não consciente

Mesmo com um sistema nervoso complexo como o do ser humano é impossível lidar conscientemente com toda a imensa quantidade de informação disponível a todo instante. Assim, uma grande quantidade de processamento é realizada de forma não consciente, automática. Grande parte da interação de um ser com o mundo acontece fora do que usualmente entendemos como consciência.

A demonstração mais impressionante desse fato vem de pacientes com lesão do córtex visual primário. Esses pacientes relatam não ver nada no campo visual correspondente à lesão. No entanto, quando solicitados a “adivinhar” a posição ou a direção de um estímulo apresentado nessa região, acertam muito acima do acaso, embora insistam em que estão apenas chutando. O fenômeno, descrito por Lawrence Weiskrantz a partir do paciente D.B., recebeu o nome de blindsight (visão cega) (Weiskrantz et al., 1974; Weiskrantz, 1986). A informação visual chega ao cérebro e orienta o comportamento, mas não chega à consciência: o paciente vê sem saber que vê.

O mesmo tipo de dissociação pode ser produzido em pessoas saudáveis. Se uma palavra é apresentada por poucas dezenas de milissegundos e imediatamente coberta por outro estímulo (mascaramento), o sujeito afirma não ter visto nada. Ainda assim, a palavra invisível acelera o reconhecimento de palavras relacionadas apresentadas logo em seguida e chega a ativar regiões cerebrais ligadas ao seu significado, como mostraram Dehaene e colaboradores com ressonância magnética funcional (Dehaene et al., 1998; Kouider; Dehaene, 2007). Ou seja, o cérebro lê, categoriza e prepara respostas a estímulos dos quais não temos nenhuma experiência consciente.

Esses achados têm duas consequências para o estudo da consciência. A primeira é metodológica: é possível comparar diretamente, no mesmo cérebro, o processamento de um estímulo que se torna consciente com o de um estímulo idêntico que permanece não consciente, e assim procurar o que distingue os dois — a chamada busca pelos correlatos neurais da consciência (Dehaene, 2014). A segunda é clínica: boa parte do que o paciente faz, sente e relata é resultado de processos aos quais ele mesmo não tem acesso, o que obriga o psicopatologista a distinguir, no relato, o que é observação do que é interpretação a posteriori — tema que reencontraremos no próximo capítulo.