13  Vivências de outras identidades

O fenômeno do aparecimento da substituição temporária da identidade de um indivíduo por uma outra é tão antigo quanto a história da humanidade e descrito em inúmeras culturas (McCormick; Goff, 1992). Essas experiências são usualmente descritas sob o nome de “possessão” ou “múltiplas personalidades” e explicadas de formas variadas por diferentes culturas, dependendo de o indivíduo ter ou não controle sobre o processo.

A interpretação desse fenômeno sob o rótulo de “possessão” se fundamenta na crença da existência de entidades não materiais ou constituídas de outra natureza, descritas sob inúmeros termos tais como espíritos, demônios, almas, fantasmas, e da existência de mundos ou dimensões diferentes nas quais essas entidades possam existir. Esses conceitos estão de certa forma relacionados com a forma como o ser humano pensa sobre a vida e a morte. A crença de que a vida não termina com a morte existe em quase todas as culturas há milênios (The Editors of Encyclopaedia Britannica, 2020). No Egito antigo o ser humano possuía um ka, que sobrevivia à morte, mas permanecia perto do corpo, e um ba que após a morte se dirigia ao local dos mortos. Na China antiga o ser humano possuía uma alma corpórea, o po, que desaparecia com a morte, e o hun, que sobrevivia à morte do corpo. Na antiga Mesopotâmia acreditava-se que depois da morte a alma viajava para um lugar de onde não deveria retornar (the land of no return) (Mark, 2014). Ainda assim, admitia-se que os mortos pudessem voltar, e isso era algo assustador. Os mortos eram, de fato, os seres mais temidos na antiga Mesopotâmia, pois acreditava-se que seu retorno só traria destruição (Pallis, 2020).

Mas se por um lado existem reações de medo, diversas religiões também buscam essas entidades para cura e ajuda. As religiões judaico-cristãs, indianas, islâmicas, asiáticas e africanas acreditam em variadas formas de vida espiritual com valores e significados distintos para cada entidade. Em diversos contextos religiosos ou místicos são descritos fenômenos de substituição da identidade nos quais há uma aceitação, permissão ou desejo do próprio sujeito para que esse fenômeno ocorra. Diversas religiões de cunho mediúnico entendem esse fenômeno como sendo uma capacidade do indivíduo em receber uma outra entidade em sua consciência e em seu corpo. Aqueles capazes de se expressarem através de outras identidades são considerados dotados de dons e essas vivências passam a ter um significado especial. Entre as religiões que adotam essa prática, o espiritismo é a religião com mais adeptos no Brasil, com mais de 3,8 milhões de praticantes, sendo o grupo religioso com os melhores indicadores de educação, com a maior proporção de pessoas com ensino superior completo1. Estatísticas de 2005 contabilizavam mais de 1650 centros de cura espiritual no Brasil e inúmeros hospitais espíritas complementando a rede de assistência médica (Bragdon, 2005). Uma das práticas comuns dentre os espíritas é a substituição temporária, proposital e planejada da identidade de um indivíduo por uma outra identidade (usualmente denominada de “entidade”), que traz informações relevantes para a situação em questão. Aqueles capazes de experimentarem esse fenômeno usualmente o descrevem como “receber um espírito”.

O termo possessão, por outro lado, indica uma substituição temporária não planejada, não desejada e, usualmente, com conotação negativa.


  1. IBGE. Censo Demográfico 2010: características gerais da população, religião e pessoas com deficiência. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/94/cd_2010_religiao_deficiencia.pdf.↩︎