10 Estados alterados de consciência
A experiência de estar consciente não deve ser analisada exclusivamente sob o aspecto usual em que se apresenta. Seria um erro entender que só existe “consciência” da forma corriqueira como a vivenciamos. O fenômeno de estar consciente pode se manifestar de diferentes formas, ou com diferentes qualidades. A experiência de sentir e experimentar o mundo depende intrinsecamente da forma como o cérebro se organiza. Alterações nessa organização, seja por lesão tecidual, seja por mudanças fisiológicas, podem originar diferentes níveis e formas de perceber e interagir com o mundo ao nosso redor. Essas alterações na arquitetura podem ser desencadeadas tanto de forma espontânea, sem desejo do sujeito, como por ação de lesões neurológicas, substâncias psicoativas, sons rítmicos, estados de meditação profunda etc. Praticamente todas as sociedades possuem práticas que de alguma forma alteram propositalmente a consciência (Ember; Carolus, 2017).
Inúmeras substâncias químicas alteram essa organização e podem tanto suprimir a consciência como também produzir estados alterados de consciência. A psilocibina, assim como muitos outros alucinógenos, pode produzir estados alterados de consciência e experiências com significados místicos religiosos para os usuários, já tendo sido usada em cerimônias religiosas por séculos (Griffiths et al., 2008). A dietilamida do ácido lisérgico (LSD) é capaz de produzir estados alterados de consciência podendo causar tanto estados de euforia e felicidade, como também estados de disforia caracterizados por tensão, medo de perda do controle, prejuízos cognitivos e sentimentos contraditórios de relaxamento e felicidade, ou até mesmo estados de intensa oscilação emocional (Katz; Waskow; Olsson, 1968). A cetamina, medicamento usado como anestésico, em baixas doses pode produzir estados descritos como “out of body experiences” ou “melting with surroundings” (Muetzelfeldt et al., 2008). Usuários de cetamina costumam usar o termo “K-hole” para se referir de forma coletiva a uma variedade de experiências de alterações da consciência que em geral incluem sensações de “luz através do corpo”, alterações na consistência, na forma e no tamanho do corpo, sensação de estar flutuando, sensação de ausência de tempo, experiências de se unir ao universo entre outras (Curran; Monaghan, 2001). A lista de substâncias com potencial de alteração da consciência é enorme e a cada dia surgem novas drogas sintéticas capazes de produzir diferentes alterações na consciência.
Para que seja possível estudar as diversas alterações na forma de vivenciar a consciência, é tradicional que essas alterações sejam diferenciadas e catalogadas sob diversos rótulos na tradição da psicopatologia. Como veremos a seguir, cada uma dessas diferentes alterações tem uma história particular, é até hoje mal compreendida e frequentemente causa controvérsias importantes entre os que se dedicam a esses assuntos.