7 Cérebros divididos e a questão da linguagem e da consciência
A consciência é caracterizada geralmente por ser uma experiência que integra a informação. Entretanto, em algumas circunstâncias essa integração deixa de existir e esse fenômeno já complexo da consciência se torna ainda mais elusivo. Na década de 1950 experimentos feitos com gatos nos quais o corpo caloso foi seccionado mostraram que cada hemisfério cerebral podia continuar funcionando de forma independente (Sperry, 1961). A secção do corpo caloso foi realizada também em humanos com quadros epilépticos intratáveis na esperança de que as crises ficassem restritas a um único hemisfério cerebral. De forma inesperada essas operações conseguiram eliminar não apenas as crises generalizadas, mas até mesmo as unilaterais (Gazzaniga, 1967). A primeira cirurgia da série moderna, que deu origem aos estudos clássicos, foi realizada em 1962, nos Estados Unidos, por Bogen e Vogel, num paciente de 48 anos, veterano de guerra (Gazzaniga, 1967) — embora Van Wagenen e Herren já tivessem seccionado o corpo caloso de uma série de pacientes na década de 1940 (Van Wagenen; Herren, 1940). Estudos com pacientes epilépticos já haviam notado que a consciência não era perdida quando a crise epiléptica era limitada a apenas um dos hemisférios, mostrando ser possível existir consciência com apenas um dos hemisférios em atividade (Van Wagenen; Herren, 1940). Quando as primeiras cirurgias desse tipo começaram a ser realizadas, havia um grande receio de que surgiriam duas mentes lutando pelo controle do corpo. Entretanto, esses receios não se concretizaram. Os pacientes não mostravam nenhum sinal de duas mentes distintas.
As consequências dessas cirurgias só puderam ser analisadas quando surgiram os procedimentos de experiências lateralizadas. Nesses testes as informações são disponibilizadas apenas para um dos hemisférios e não são acessíveis ao outro hemisfério. Num experimento com pacientes com essa secção o comando “caminhe” foi exibido exclusivamente para o hemisfério direito. O paciente então se levantou e começou a caminhar, dirigindo-se à porta de saída da sala de testes. Ao ser questionado sobre onde estava indo respondeu “vou em casa pegar uma Coca-Cola” (Gazzaniga; Ivry; Mangun, 1998). O hemisfério esquerdo, usualmente responsável pela linguagem, não tinha a informação a respeito do comando, mas teve de interpretar o próprio comportamento para poder responder ao que havia sido solicitado. Num experimento desse mesmo tipo, o comando “ria” foi apresentado ao hemisfério direito e o paciente então riu. Ao ser questionado por que estava rindo respondeu “vocês são muito engraçados” (Gazzaniga; Ivry; Mangun, 1998). A separação dos dois hemisférios criou então duas consciências distintas numa mesma pessoa? (Gazzaniga, 1967). Extensas pesquisas mostraram que cada hemisfério cerebral desses pacientes não consegue acessar as intenções e pensamentos do outro hemisfério (Marinsek; Gazzaniga; Miller, 2016). Essas pesquisas deram origem à noção de que, caso os dois hemisférios se mantenham independentes e ativos, a consciência é passível de ser dividida.
A literatura ainda diverge sobre a resposta dessa pergunta. Embora a existência de duas consciências distintas tenha cativado a imaginação pública, algumas pesquisas contestam essa noção (Pinto et al., 2017). Há pouca dúvida de que o hemisfério esquerdo, mais responsável pela linguagem, mantenha uma capacidade consciente rica e complexa, próxima ou igual à consciência usual humana. A questão mais complexa é definir se o hemisfério direito, com capacidade linguística limitada, também tem o que se pode chamar de consciência. Experimentos para elucidar essa questão têm mostrado que o hemisfério direito também tem um senso de self e capacidade de iniciar comportamentos intencionais, sendo, portanto, dotado de consciência (Damasio; Meyer, 2009; Gazzaniga; LeDoux, 1978).
Um paciente em especial trouxe novas informações para essas questões. Paul é um dos poucos pacientes que tiveram o corpo caloso seccionado e que conseguem manter uma conversação com qualquer dos hemisférios cerebrais isoladamente. Apesar de apenas o hemisfério esquerdo conseguir falar, o hemisfério direito de Paul conseguia se comunicar com a mão esquerda através da escrita. Em um dos testes a que foi submetido o entrevistador mostrava a frase “Quem é você?” separadamente para cada hemisfério cerebral. A resposta de cada hemisfério era similar “Paul”. Mas, quando a pergunta “O que você quer ser quando crescer?” era feita para cada hemisfério separadamente, o hemisfério esquerdo respondia desejar ser um desenhista e o hemisfério direito respondia desejar ser um piloto de corridas de automóvel (Gazzaniga; LeDoux, 1978). Para Gazzaniga e outros autores, essas observações indicam que tanto o hemisfério esquerdo como o direito de Paul possuem qualidades que merecem o status de consciência. Ficou claro nos experimentos que o hemisfério direito de Paul, que tinha capacidade linguística através da escrita, também tinha um senso de self, conhecia o nome que compartilhava com o hemisfério esquerdo, tinha sentimentos, era capaz de descrever seu humor, tinha uma noção de quem gostava e do que gostava e podia nomear suas pessoas e seu hobby favorito (Gazzaniga; LeDoux, 1978).
Mas a questão que ainda permanece é: nos casos de hemisférios cerebrais sem capacidade linguística, sem uma linguagem, há uma consciência de si? Há um self individualizado? Pode haver um self em animais não dotados de linguagem? Finalmente, o senso de self, a consciência do eu, depende da linguagem? Como as calosotomias completas se tornaram raras, substituídas por fármacos e por procedimentos menos extensos, e existem poucos pacientes da série clássica ainda vivos, pesquisas desse tipo em breve não poderão mais ser realizadas e talvez muitas perguntas continuem sem respostas (Wolman, 2012).