15  Experiência da consciência e o problema da mente dos outros

O estudo da consciência é usualmente dividido em dois grandes tipos de problemas: os fáceis (the easy problems) e o difícil (the hard problem). Os problemas fáceis da consciência são aqueles que podem ser explicados em termos de mecanismos neurais ou computacionais e incluem fenômenos tais como a capacidade de discriminar, categorizar e reagir a estímulos ambientais; a integração de informações por um sistema cognitivo; a capacidade de acessar seus próprios estados internos; o foco da atenção; o controle deliberado do comportamento, entre outros. Todos esses fenômenos podem ser simulados computacionalmente. Algoritmos de inteligência artificial fazem justamente categorização e discriminação de padrões. A capacidade de acessar estados internos é realizada a todo momento por sensores em diversos aparelhos eletrônicos. Um carro, por exemplo, pode detectar a presença de chuva no para-brisa e acionar os limpadores ou detectar a redução na pressão dos pneus e acender uma lâmpada no painel.

O problema realmente difícil da consciência é o problema da experiência, da vivência do experimentar: a qualidade sentida da vermelhidão, a experiência da escuridão e da luz, o som de um violino, o cheiro de um perfume. O que une todos esses estados é que há algo que é estar neles (Chalmers, 1995). Todos eles são estados de experiência. É o chamado problema dos qualia da consciência. Os métodos usuais da ciência cognitiva e da neurociência não são suficientes para analisar essas vivências interiores. Esses métodos foram desenvolvidos precisamente para explicar o desempenho das funções cognitivas, mas quando se trata de explicar a experiência de estar consciente, esses métodos não têm nada a dizer (Chalmers, 1995).

Não há possibilidade de verificarmos objetivamente como uma pessoa se sente, como vivencia subjetivamente a consciência. Se eu e você provarmos um vinho, não há como eu sentir o que você sentiu. Se observarmos uma paisagem, escutarmos uma música, nossas vivências são absoluta e exclusivamente nossas. Posso descrever o que senti, ouvi e vi, mas essa descrição não cria no leitor a mesma vivência que tive. Podemos apenas inferir que os outros sentem, vivem e experimentam o mundo como nós mesmos.

De fato, não há como sabermos sequer que um outro sujeito tem uma consciência como a nossa. Podemos apenas inferir, por analogia, que o outro também é um ser consciente. Como estados mentais não podem ser diretamente acessados, podemos apenas inferir que outros seres tenham estados mentais. A impossibilidade de acesso à mente de um outro ser dá origem a um problema conhecido na filosofia como o problema da mente dos outros (the problem of other minds) (Avramides, 2019). A impossibilidade de termos acesso à mente dos outros (problem of other minds) traz uma implicação importante: a única forma de consciência que conhecemos é a nossa. Com base em nossa própria experiência, temos apenas uma vaga ideia de como uma outra pessoa vive a experiência de ser consciente. O problema é que nossa amostra é muito pequena, apenas nós mesmos. Utilizamo-nos dessa amostra para supor a existência da consciência no outro e inferir como deve ser a experiência da consciência no outro. Essa suposição, entretanto, é bastante precária. Não podemos vivenciar como é a consciência de um outro que se parece conosco, muito menos naqueles que têm uma arquitetura cerebral diferente. Thomas Nagel em seu famoso artigo “What is it like to be a bat” (como é ser um morcego) argumenta que mesmo que pudéssemos nos comportar como um morcego, mesmo que pudéssemos nos parecer com um morcego, nossa experiência ainda assim não seria como a do morcego (Nagel, 1974).