9  Distúrbios do Self (da consciência do eu)

Os pacientes com quadros de negligência pessoal deixam de perceber parte do corpo, ou seja, deixam de ter a consciência de partes do próprio corpo, demonstrando um déficit na representação do corpo. Mas nesses casos a consciência de si mesmo, de um self, de um eu, está preservada. Em outras situações a consciência de si mesmo é perdida e o sujeito não se sente mais um ser individualizado, outras vezes se tem a sensação de que o corpo não é mais controlado pela própria mente, mas por um outro ser. Noutras vezes os pacientes sentem como se seus pensamentos fossem de outra pessoa, como se tivessem sido inseridos em sua mente. Distúrbios do self são frequentemente relatados por usuários de drogas alucinógenas, em pacientes com transtornos dissociativos e transtornos do espectro da esquizofrenia. Kraepelin e Bleuler consideravam a “perda da unidade interior da consciência” como um dos sintomas fundamentais da esquizofrenia e, apesar de terem sido sempre reconhecidos pela psiquiatria clássica como componentes essenciais do quadro esquizofrênico, esses sintomas têm sido usualmente negligenciados nas classificações modernas tais como CID-10 e DSM (Parnas, 2011; Parnas; Handest, 2003; Sass; Parnas, 2003).

9.1 Dissolução do Self (alterações da consciência do eu em oposição ao exterior)

A dissolução do eu é geralmente considerada uma alteração dramática na estrutura usual da consciência, consistindo na interrupção dos processos subjacentes ao eu “mínimo” ou “corporificado”, isto é, da experiência básica do ser (Millière, 2017). Drogas psicodélicas e estados psicóticos podem alterar a experiência do eu, causando a perda da diferenciação entre o eu e o mundo, um fenômeno frequentemente denominado de ‘experiência da unidade’, dissolução do ego, morte do ego, perda do ego, desintegração do ego e dissolução do self (Bayne; Carter, 2018; Letheby; Gerrans, 2017; Millière, 2017; Nour et al., 2016; Parnas; Handest, 2003). Os pacientes usualmente descrevem essas experiências com declarações tais como ‘os limites entre mim e meu entorno pareciam embaçar’ e ‘pareceu-me que eu e meu ambiente somos um’ (Bayne; Carter, 2018). Um jovem paciente com quadro psicótico relata que se sentia frequentemente confuso em uma conversa, incapaz de distinguir entre ele e seu interlocutor, não sabia dizer se os pensamentos em sua mente eram dele ou do interlocutor com quem conversava, “como se” seu interlocutor de alguma forma “o invadisse”, e ao andar na rua, ele evitava olhar para sua imagem no espelho, pois não sabia distinguir quem era o verdadeiro eu, ele ou a imagem (Parnas; Handest, 2003).

9.2 Alterações da consciência da atividade e da existência do Self

O senso de ser autor dos próprios pensamentos e ações é um dos aspectos centrais da consciência (Haggard; Tsakiris, 2009). Podemos dizer “Eu quero comer alguma coisa”, “Eu vou à cozinha”, “Eu estou comendo um pedaço de pão”. Temos usualmente a experiência de autoria (agency) de nossa vida, de sermos autores de nossos atos (Haggard; Tsakiris, 2009). Pacientes com quadros esquizofrênicos podem sofrer uma alteração nessa consciência de serem autores de seus atos, uma “alteração na consciência de execução”, como descreve Jaspers (Jaspers, 1979). Às vezes essas alterações vêm juntas com a perda da própria consciência de existir. Em quadros psicóticos podem ocorrer experiências de não existência, descritas em termos tais como “sou apenas uma máquina, um autômato. Não sou eu quem fala, sente ou come. Não sou eu quem sofre, dorme. Eu já nem existo. Eu não sou. Estou morto. Sinto-me puro nada” ou “O pior é que não existo” (Jaspers, 1979). Outro paciente relatava “Eu não sei [quem eu sou]. Tenho dificuldades para determinar quem realmente sou, porque em diferentes situações me sinto muito diferente e também me comporto de maneira muito diferente. Eu me experimento como partes individuais, não como uma coisa completa. Não como pessoa, como uma pessoa inteira. Eu me sinto como parte de uma pessoa inteira, mas nunca ao mesmo tempo” (Haan; Fuchs, 2010).

9.3 Alucinações verbais

A experiência de ouvir vozes que conversam entre si ou que comentam as ações do próprio paciente é um indicativo de um transtorno do espectro da esquizofrenia, sendo considerada sintoma de primeira ordem por Kurt Schneider (Schneider, 1978). Embora muitos livros de psicopatologia considerem essa uma anormalidade da percepção, muitos autores entendem que isso resulta de anormalidades na experiência de self do paciente, ou seja, resulta de disfunções na capacidade de reconhecer os próprios pensamentos como sendo seus (Frith; Done, 1988; Hoffman, 1986).