8  Negligência unilateral e a percepção de si mesmo

Um dos elementos da consciência é a percepção do mundo e de si mesmo como entidades distintas. Como seres dotados de consciência, reconhecemos estímulos do mundo externo e de nosso próprio corpo, conseguimos nos reconhecer como entidade individualizada, como um self. Entretanto, em algumas situações, pode-se perder a capacidade de reconhecer parte do mundo ou do próprio corpo. Em alguns pacientes com AVC, principalmente se a lesão for no hemisfério direito, a capacidade de reconhecer parte de si mesmo ou do mundo pode ser afetada (Bowen; McKenna; Tallis, 1999; Stone et al., 1991; Stone; Halligan; Greenwood, 1993).

A negligência hemiespacial se refere ao fenômeno de negligência do mundo do lado contralesional. Os pacientes com esse transtorno se comportam como se metade do mundo não existisse mais. Na vida cotidiana, esses pacientes não percebem os objetos e as pessoas ao seu lado, comem de apenas um lado do prato, leem apenas um dos lados da página de um jornal e se maquiam ou fazem a barba de apenas um lado do corpo (Driver; Vuilleumier, 2001). Ou seja, esses pacientes mostram um profundo descaso por visões, sons e toques em relação ao lado afetado, mesmo que não sejam de modo algum cegos, surdos ou insensíveis neste lado (Driver; Vuilleumier, 2001). Um paciente pode, por exemplo, só se alimentar com o que está do lado direito do prato negligenciando o que está do lado esquerdo. O link a seguir mostra um cachorro com esse quadro, se alimentando apenas da ração que está no lado direito, negligenciando totalmente a ração do lado esquerdo (https://youtu.be/hHo-y7WJIlU). Ao desenhar, os pacientes negligenciam os detalhes de um lado do mundo, como no desenho a seguir.

Desenho esquemático de relógio como o feito por paciente com negligência hemiespacial: contorno irregular, todos os algarismos de 1 a 12 amontoados na metade direita e a metade esquerda vazia
Figura 8.1: Desenho do relógio. Representação esquemática de um desenho de relógio típico da negligência hemiespacial esquerda: os algarismos aglomeram-se na metade direita do mostrador e a metade esquerda fica vazia. Ilustração original do autor.

A negligência pode atingir também o próprio corpo: na chamada negligência pessoal (personal neglect), um subtipo da negligência unilateral, os pacientes só percebem um lado de si mesmos, apesar de não haver déficits sensoriais ou motores, perdendo a consciência da existência de partes do corpo no lado contralesional (Caggiano; Jehkonen, 2018). Uma história interessante contada por Oliver Sacks é a de um paciente que não reconheceu sua perna como parte de seu corpo. Ao acordar num leito hospitalar o paciente se assustou, acreditando que a perna que estava em seu leito era de uma outra pessoa. Tentou jogar a perna para fora da cama e, consequentemente, caiu da cama junto com a perna (Sacks, 1990). Alguns autores entendem que a negligência pessoal seja decorrente de um déficit na representação corporal, um distúrbio do “esquema corporal” (Caggiano; Jehkonen, 2018). Em alguns casos, os pacientes deixam de usar seus membros contralesionais, mesmo que tenham pouca ou nenhuma fraqueza, fenômeno nomeado por Laplane e Degos de motor neglect (negligência motora) (Laplane; Degos, 1983; Sampanis; Riddoch, 2013). Interessante é o fato de que em cerca de 29,2% a 83,3% dos pacientes com negligência unilateral existe também um déficit na ciência do problema (anosognosia) (Appelros; Karlsson; Hennerdal, 2007; Grattan; Skidmore; Woodbury, 2018). Ou seja, apesar de todos os problemas, esses pacientes frequentemente não têm ciência de que existe algum problema e às vezes negam que haja algo de errado consigo mesmos.