2  A evolução da consciência e a revolução da informação

William James, filósofo e psicólogo, argumentava que o fenômeno da consciência não deve ser analisado do ponto de vista da existência ou não da consciência, mas sim sob a ótica da evolução desse fenômeno. Para James não houve um momento singular no qual a consciência simplesmente surgiu, mas evoluiu gradualmente até suas formas mais complexas como a que experimentamos (James, 1983).

Organismos unicelulares podem sentir o ambiente ao seu redor e reagir a estímulos possuindo, portanto, comportamento. Em organismos multicelulares, nos quais são necessárias ações coordenadas de diferentes células e órgãos, um sistema nervoso foi a solução para possibilitar uma comunicação rápida e direcionada a longas distâncias, transformando uma massa de células numa rede organizada (Godfrey-Smith, 2016). Mas os primeiros seres multicelulares dotados de sistema nervoso eram bem simples, não possuíam ainda um sistema sensorial complexo, não tinham olhos nem antenas, garras ou outras formas de interação social, eram relativamente autocontidos, reagindo apenas a traços de elementos químicos ao seu redor, sem conflito ou interação social (Godfrey-Smith, 2016). Por volta de 540 milhões de anos atrás a “explosão cambriana” deu origem a uma grande diversidade de novas formas de vida, nas quais o sistema nervoso não servia mais apenas para conectar diferentes células do organismo, mas também para possibilitar a interação entre os animais. No novo mundo cambriano, não apenas o ambiente, mas os outros animais passaram a fazer parte da vida uns dos outros (Godfrey-Smith, 2016). As relações entre os animais se tornaram muito mais importantes do que antes e o comportamento passou a estar direcionado a outros animais e não apenas ao ambiente físico. Os novos animais precisavam estar alertas ao ambiente e aos seus predadores. Reconhecer quais são amistosos e quais são inimigos passou a ser uma questão de vida ou morte. Novos comportamentos tais como rastrear, esconder, perseguir, fugir, defender, atacar se tornaram essenciais para a vida (Godfrey-Smith, 2016). Sistemas sensoriais se tornaram tão essenciais que o conjunto de transformações sensoriais desse período passou a ser chamado de “Cambrian Information Revolution” (Revolução Informacional do Cambriano) (Plotnick; Dornbos; Chen, 2010). Os animais se tornaram cada vez mais capazes de detectar diferentes sinais do ambiente, processar esses sinais e agir em resposta a eles. Emergiam então as primeiras formas de cognição, envolvendo a captação (recepção) de sinais, processamento desses sinais em informação e subsequente execução de uma ação em resposta a esse processamento. Um fluxo cada vez maior de informação a ser processada exigiu também um aumento cada vez maior da capacidade de processamento e o sistema nervoso se tornou cada vez mais sofisticado ao longo da evolução.

Em algum estágio da evolução, aparecem capacidades extras que dão origem à experiência subjetiva: as correntes sensoriais são reunidas num “modelo interno” do mundo e um reconhecimento da diferença entre si mesmo e o mundo. Quando, como e o que dá origem a isso é ainda tema de debates intensos na literatura. Alguns autores relacionam intimamente a consciência à memória de trabalho, um tipo especial de memória que possibilita armazenar e manipular informações (Baddeley, 1993). Para outros autores, a consciência é uma das formas da experiência subjetiva (Godfrey-Smith, 2016).

Uma outra etapa na evolução da consciência é o surgimento da capacidade de representação mental de conceitos. O ser humano é capaz não apenas de perceber o ambiente, mas também de construir a representação mental desse ambiente. Essa representação mental evoluiu para o que chamamos de linguagem, através da qual somos capazes hoje de representar mentalmente não apenas objetos físicos, mas até mesmo conceitos abstratos, tais como amor, saudades, paz e tristeza. Com o surgimento da linguagem, o pensamento humano deixou de ser simplesmente o resultado individual de uma arquitetura neural evoluída e passou a ser também resultado do imenso repertório simbólico disponível na linguagem. A linguagem é tão importante para o ser humano e representa parte tão grande de nossa vida consciente que, embora exista consciência na ausência de uma linguagem, não é tão fácil imaginar hoje em dia como seria pensar sem usar a linguagem.