6 O conceito de si mesmo (self-concept)
Um dos aspectos fundamentais da consciência é o desenvolvimento de um conceito de si mesmo, ou seja, da capacidade de um ser representar a si mesmo como um agente independente, diferente do mundo e dos outros, e que possui habilidades de perceber e atuar no mundo (Povinelli; Cant, 1995). A representação mental de si mesmo, ou seja, o conceito de si mesmo (self-concept) envolve pelo menos três diferentes componentes: um senso de continuidade, um senso de agência pessoal (personal agency) e um senso de identidade (Gallup, 1998). Organismos capazes de um conceito de si mesmo, de self, experimentam um senso de continuidade ao longo do tempo e espaço, um senso de que o eu de ontem e de hoje são a mesma pessoa, de que é o próprio sujeito que se desloca no espaço, um senso de história pessoal, da existência de um passado e de um futuro no qual o sujeito continua existindo. Senso de agência é a consciência de que o sujeito é autor de suas próprias ações e que sua atuação no mundo tem efeitos. O terceiro componente do conceito de si mesmo, o senso de identidade é a consciência de que o indivíduo é diferente dos outros e se desenvolve, segundo alguns autores, a partir da interação social (Mead, 2005). Estima-se que o ser humano desenvolva um conceito de si mesmo por volta do segundo ano de vida, quando já é capaz de se reconhecer no espelho (Amsterdam, 1972).
Mas essa capacidade não é exclusiva dos seres humanos. Chimpanzés e orangotangos também possuem uma certa capacidade de representação de si mesmos, sendo capazes de se reconhecerem quando diante do espelho (Gallup, 1970; Povinelli; Cant, 1995). Mas o que possibilita o surgimento dessa representação de si mesmo é ainda uma pergunta sem resposta definitiva. Entende-se que a possibilidade de obtenção de informações do mundo através da sensopercepção e de informações do próprio corpo através da propriocepção são importantes elementos na construção do conceito de si mesmo (Butterworth, 1992). A existência de um sistema de memória é também fundamental, sem o qual as experiências e as informações obtidas não podem ser integradas.
Mas será que existe alguma propriedade físico-química no tecido biológico que o torna especial e possibilite a consciência? Máquinas também têm o potencial de algum dia desenvolver um senso de self e adquirir consciência? Desde o início da computação havia especulações sobre a possibilidade da construção de máquinas inteligentes. Atualmente, dados os avanços obtidos na área da inteligência artificial, especula-se sobre a possibilidade do surgimento de uma consciência artificial e alguns autores chegam até a predizer que isso será factível até o ano de 2029 (Buttazzo, 2001).
A percepção e a memória são os fatores fundamentais para o surgimento da consciência de si mesmo. Mas qual o papel da linguagem nessa capacidade? Até que ponto é possível uma consciência como a humana sem uma linguagem?