11 Despersonalização e desrealização
As vivências de estranhamento em relação ao mundo ou a si mesmo têm sido descritas na literatura pelo menos desde o início do século XIX, sob diversos nomes. Mas somente em 1898 é que foram definidas pela primeira vez por Ludovic Dugas, que propôs o termo despersonalização para se referir a um estado mórbido envolvendo um sentimento de estranhamento da realidade e de si mesmo ou das próprias ações (Dugas, 1898; Dugas; Sierra; Berrios, 1996). Os pacientes relatam experiências tais como sentimentos de irrealidade do mundo, ou como se estivessem “vendo a vida por trás de um vidro” ou “como se estivessem sonhando” (Hunter et al., 2003). Em 1935 Mayer-Gross recomendou que esses sintomas de estranhamento em relação a si mesmo e em relação ao mundo fossem diferenciados, respectivamente, sob os nomes despersonalização e desrealização (Mayer-Gross, 1935). Entretanto, a utilidade dessa diferenciação é ainda questionada na literatura (Berrios, 1996).
Os sentimentos de estranhamento de si mesmo e do mundo descritos sob o rótulo de despersonalização-desrealização ocorrem em uma variedade de quadros neuropsiquiátricos, tais como crises de pânico, ansiedade, transtornos do humor, intoxicação com drogas, hipoglicemia, epilepsia e até mesmo fadiga (Dugas; Sierra; Berrios, 1996). Quando ocorrem de forma espontânea e recorrente, sem um fator causal desencadeador reconhecido, são classificadas na CID-10 como um transtorno de despersonalização e desrealização. A CID-10 considerava esse um transtorno raro. Entretanto, a prevalência do transtorno de despersonalização-desrealização é estimada em cerca de 0,8% da população (Johnson et al., 2006). Ou seja, uma prevalência similar à de vários outros transtornos psiquiátricos, não sendo rara como se acreditava no passado. E, se por um lado a entidade nosológica chamada de transtorno de despersonalização-desrealização era considerada rara, por outro lado esses sintomas são bastante frequentes. Em um estudo com estudantes universitários, 34% apresentavam sintomas de despersonalização-desrealização (Trueman, 1984). Num outro estudo com estudantes de medicina, médicos, enfermeiros e trabalhadores da saúde, 70% dos participantes relataram sintomas de despersonalização-desrealização em algum momento de suas vidas (Sedman, 1966). Entretanto, apesar de frequentes, esses sintomas são geralmente pouco relatados e pouco diagnosticados.
A classificação nosológica desses sintomas é ainda motivo de debate na literatura. Se por um lado os nomes despersonalização e desrealização já têm sido usados há mais de um século, seu enquadramento na classificação de transtornos mentais ainda é fonte de divergências.
Esses quadros nosológicos entraram na classificação internacional de doenças com a CID-8 (1965), sob o código 300.6 (síndrome de despersonalização), e se mantêm até hoje na atual CID-11. A CID-8 (1965), a CID-9 (1975) e a CID-10 (1990) classificavam esses quadros dentro do capítulo de transtornos neuróticos (CID-8 e CID-9: 300.6, CID-10: F48.1). Nos Estados Unidos, desde 1952 os transtornos psiquiátricos têm sido classificados através do DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders). Em sua primeira versão de 1952 (DSM-I) os quadros de despersonalização e desrealização eram classificados como distúrbios psiconeuróticos. O DSM-II classificava esses quadros no capítulo de “neuroses” sob o nome de neurose de despersonalização (“Depersonalization neurosis” ou “Depersonalization syndrome”). O DSM-III (1980), por sua vez, colocava esse quadro num novo capítulo de distúrbios dissociativos, mas ainda os entendia como neuroses histéricas do tipo dissociativo. Somente em 1994, com o DSM-IV, a categoria de transtornos dissociativos deixou de ser considerada um transtorno neurótico. A partir de então, a versão norte-americana da classificação dos transtornos psiquiátricos desvinculou o transtorno de despersonalização do conceito de transtornos neuróticos e passou a considerar um “transtorno dissociativo” como uma entidade nosológica distinta dos antigos conceitos de neurose. Atualmente, tanto na CID-11 como no DSM-5, esses transtornos são classificados como transtornos dissociativos.