12 Transe
Transe é um estado de alteração da consciência caracterizado por um estreitamento da consciência, com um foco seletivo em estímulos ambientais, com restrição da fala, movimentos e postura. Entretanto, por trás dessa aparente simples definição existe um complexo e variado conjunto de experiências de alteração da consciência. Por exemplo, na província de Bali, Indonésia, onde o estado de transe é uma prática religiosa comum, existem mais de 12 termos para distinguir diferentes estados de transe (Becker, 2004, p. 40). Esse estado da mente no qual o indivíduo experimenta um hiperfoco é cultivado em diversas tradições contemplativas e em práticas médicas místicas, nas quais os sacerdotes, xamãs, curandeiros e pajés costumam utilizar o transe em suas práticas curativas (Becker, 2004; Harner, 1990; Walsh, 2014). No xamanismo, uma das mais antigas tradições espirituais e de cura da humanidade, os xamãs, voluntariamente, entram em um estado de transe para obter informações sobre um problema específico, através de “viagem para outros reinos” (Harner, 1990; Walsh, 2014). Para induzir o transe, os xamãs costumam ouvir batidas repetitivas enquanto estão deitados com os olhos fechados, limitando a entrada sensorial a estímulos auditivos altamente previsíveis, o que promove um estado de absorção no qual eles se desligam do ambiente sensorial (Harner, 1990). O estado de transe pode ser induzido por diversos meios, tais como hipnose, cantos, danças, substâncias psicoativas e músicas rítmicas, em geral com tambores (Becker, 2004; Vaitl et al., 2005). Uma questão importante e que diferencia o transe das tradições espiritualistas do transe usualmente descrito nos livros de psicopatologia é o controle do sujeito sobre seu próprio estado mental. Nas diversas culturas nas quais o transe é um estado deliberadamente usado em rituais religiosos ou de cura, o xamã ou sacerdote está no controle de seu transe, tanto para iniciá-lo como para terminá-lo (Peters; Price-Williams, 1980). Num interessante estudo sobre as alterações neurais do estado de transe, com 15 praticantes do xamanismo, foi detectado haver um aumento na conexão neural em várias áreas do cérebro relacionadas a estados mentais internos, proporcionando ao indivíduo em transe sustentar um fluxo de pensamento interno, desligando-se das correntes de informação sensorial irrelevantes (perceptual decoupling), e facilitando insights (Hove et al., 2016).
Por outro lado, em diversas situações o estado de transe surge de forma não desejada, tal como os estados de transe desencadeados por crises epilépticas, tumores, estresse, ou sem uma causa específica conhecida (Kumar et al., 2019). Estados de transe não desejados, ocorrendo de forma espontânea e sem controle do indivíduo e sem uma causa conhecida são usualmente classificados sob a designação de “distúrbios de transe” (trance disorder). A literatura médica sobre esse fenômeno é escassa: numa revisão da literatura sobre o tema, só foram encontrados 29 artigos no período compreendido entre 1988 e 2010 (28 amostras independentes), com um total de 402 casos, dos quais apenas 99 (31%) tinham o diagnóstico de transe sem possessão (During et al., 2011). During e colaboradores (2011) identificaram um número muito maior (69%) de casos de transe associado com o aparecimento temporário de uma nova identidade, fenômeno muitas vezes interpretado culturalmente como “possessão”.
O diagnóstico psiquiátrico de transe aparece nas classificações psiquiátricas pela primeira vez em 1980 no DSM-III como um distúrbio dissociativo atípico (código 300.15). O DSM-IV incluía o transe entre os transtornos dissociativos sem outra especificação; no DSM-5, o transe dissociativo aparece como um dos exemplos de “outro transtorno dissociativo especificado” (código 300.15). A classificação internacional de doenças (CID) só passou a incluir o distúrbio de transe a partir de 1990 em sua 10ª edição (CID-10), sob o rótulo de “transtorno de transe e possessão” (CID-10: F44.3), não diferenciando transe com e sem o surgimento de uma nova identidade. A CID-11, divulgada em junho de 2018 (adotada pela Assembleia Mundial da Saúde em 2019 e em vigor desde 2022), tem agora dois códigos distintos dentro do bloco de transtornos dissociativos, diferenciando “distúrbio de transe” (CID-11 6B62) e “distúrbio de transe e possessão” (CID-11: 6B63).