21  Roteiro de Entrevista Simulada — Caso clínico F

Roteiro original para vídeo didático — inferência diagnóstica pelo aluno

Autor

Material didático para estudantes de medicina

Aviso ao docente

Material original para fins didáticos, construído a partir da categoria diagnóstica de um caso clínico publicado, sem reprodução de linguagem, cenas, vínculos, dados sociodemográficos ou frases do texto-fonte. O diagnóstico-alvo não deve ser revelado aos alunos antes do exercício de inferência.

22 Roteiro de Entrevista Simulada — Caso F

22.1 1. Ficha técnica do caso

  • Nome fictício da paciente: Vivian Solano
  • Idade: 38 anos
  • Gênero: feminino
  • Ocupação: cirurgiã plástica, sócia majoritária de clínica privada própria, com forte presença em mídias sociais profissionais
  • Contexto da entrevista: ambulatório de psiquiatria em consultório particular. A paciente não chega por sofrimento próprio: foi orientada por seu advogado a fazer uma avaliação psiquiátrica externa, em razão de um processo de revisão de guarda movido pelo ex-marido, que descreveu indisponibilidade emocional e exposição pública das filhas. Comparece para “obter um relatório”, segundo suas próprias palavras.
  • Duração estimada do vídeo: 4 a 5 minutos
  • Diagnóstico-alvo para o professor: Transtorno de personalidade narcisista (DSM-5-TR 301.81; CID-11 6D11.0 — perfil dimensional dissocialidade + grandiosidade)
  • Diagnóstico-alvo oculto para o aluno: NÃO revelar no vídeo

22.2 2. Orientações para a atriz ou avatar que interpreta a paciente

  • Postura corporal: sentada com porte ereto, queixo levemente elevado, costas afastadas do encosto. Ocupa o espaço com confiança. Pernas cruzadas com elegância.
  • Tom de voz: firme, articulado, segurança alta. Sem hesitação. Modulação baixa: pouca variação afetiva.
  • Ritmo da fala: estável, sem pressa. Fala como quem está sendo ouvida, não consultada.
  • Expressão facial: controlada, sorriso polido e curto. Não há contato afetivo nos olhos; o olhar é avaliativo. Faz uma pequena careta de impaciência se interrompida.
  • Maneira de se relacionar: cordial-superior. Trata o entrevistador com formalidade que beira a condescendência (“doutor, eu também sou da área, vou te poupar”). Cita credenciais próprias, prêmios, faturamento, palestras, sem que lhe seja perguntado.
  • Sinais comportamentais relevantes: roupa cara e bem cortada; relógio visível; checa o celular discretamente duas vezes; comenta o consultório de modo sutilmente desvalorizador (“é aconchegante, é, bem… funcional”). Quando o ex-marido é mencionado, dispara comentários ácidos. Quando as filhas são mencionadas, fala delas como extensões de si (desempenho, escola cara, prêmios).
  • Forma de reagir a temas sensíveis: se o entrevistador toca em vulnerabilidade (medo, vergonha, solidão), a paciente desvia para autoexaltação ou para a culpa de terceiros. Sem lágrima. Sem rebaixamento de humor.

Importante para a direção: a paciente não é gritada, não é vulgar, não é caricata. O traço aparece em grandiosidade, falta de empatia, sensação de ter direito a tratamento especial, desvalorização sutil do outro, instrumentalização dos vínculos. A elegância e a competência reais fazem parte do quadro e devem ser preservadas.


22.3 3. Orientações para o ator ou avatar que interpreta o entrevistador

  • Postura: sentado profissionalmente, neutro, sem se intimidar pela credencial da paciente nem competir com ela.
  • Estilo de entrevista: semiestruturado, com perguntas calmas e diretas. Não responder às provocações sutis.
  • Grau de acolhimento: respeitoso, neutro. Sem elogios à carreira, sem ironia.
  • Forma de explorar sintomas sem induzir respostas: investigar funcionamento conjugal, parental, com pacientes, com equipe por meio de exemplos concretos. Pedir descrição do outro (“como você acha que sua filha mais velha está se sentindo?”).
  • Forma de investigar funcionamento longitudinal: ancorar em escola, faculdade, residência médica, primeiros empregos, casamento.
  • Cuidados para não revelar o diagnóstico: sem usar “narcisista”, “grandiosa”, “egoísta”, “fria”. Não fazer interpretação em voz alta. Não confrontar diretamente as desqualificações.

22.4 4. Roteiro dialogado completo

Cenário visual: consultório particular, mesa lateral, ambiente clean. Duração total estimada: 4 minutos e 30 segundos.

Abertura

Entrevistador: Boa tarde, doutora Vivian. Eu sou o psiquiatra que vai te atender hoje. Vi que a consulta foi marcada com um pedido específico do seu advogado.

Paciente: (senta-se com elegância, cruza as pernas) Boa tarde. Sim. Vou te poupar de rodeios, doutor. O meu ex-marido entrou com pedido de revisão da guarda das nossas duas filhas e citou na petição uma série de absurdos a meu respeito. O meu advogado avaliou que seria estratégico eu apresentar um relatório psiquiátrico externo. Por isso eu estou aqui. Não tenho queixa minha.

Queixa atual

Entrevistador: Entendi. E você poderia me contar, do seu ponto de vista, o que está na base desse processo?

Paciente: Inveja, basicamente. (sorri brevemente) O Eduardo nunca digeriu o fato de que a minha carreira deslanchou e a dele estagnou. Eu sou cirurgiã plástica, tenho a minha clínica, faturo bem, viajo para congressos internacionais, fui capa de uma revista de medicina estética no ano passado. Ele é clínico geral, atende em convênio. A diferença ficou óbvia. Ele agora resolveu me atacar pelo único lugar que pode me atingir, que são as meninas.

Entrevistador: E o que ele alegou, especificamente?

Paciente: Disse que eu sou ausente, que exponho as meninas em rede social, que delego cuidado para a babá. (rola os olhos) É uma piada, doutor. As meninas estão na melhor escola de São Paulo, têm a vida que eu não tive, viajam para Disney todo ano. Se isso é negligência, eu quero ver o resto.

História do funcionamento interpessoal

Entrevistador: Como você descreveria sua relação com o Eduardo durante o casamento?

Paciente: Foi funcional por um tempo. No começo ele me admirava. Depois ele começou a se sentir pequeno do meu lado, e isso azedou. Não tem como, doutor: quando duas pessoas estão em ligas diferentes, uma hora aquilo arrebenta.

Entrevistador: E hoje, sua relação com as suas filhas — como você descreveria?

Paciente: Excelente. A Helena, mais velha, tem nove anos, é a minha cópia. Disciplinada, focada, tira nota máxima. A Mariana, sete, é mais sensível, puxou ao pai nisso, mas vai amadurecer. Eu fico muito orgulhosa delas.

Entrevistador: Você poderia me descrever um momento recente em que a Mariana esteve chateada, e como vocês conversaram sobre isso?

Paciente: (pausa breve, expressão de leve irritação) Olha, doutor, eu não fico monitorando humor de criança o tempo todo. Para isso a gente tem a babá e a psicóloga delas. Eu garanto a estrutura. O lado emocional ali é distribuído.

Entrevistador: E suas relações de amizade próximas, como estão hoje?

Paciente: Eu tenho uma rede grande de relacionamento. Médicos, empresários, gente da mídia. Amigas íntimas, no sentido de chorar no ombro, talvez uma ou duas — e mesmo essas, eu meio que me afastei nos últimos anos porque elas começaram a ter problemas pequenos demais para o meu momento de vida.

História ocupacional

Entrevistador: Me conta um pouco da sua trajetória profissional.

Paciente: (postura mais ereta, leve sorriso) Eu fui primeira colocada do meu vestibular, formei com louvor, residência em uma das melhores cirurgias plásticas do país, especialização nos Estados Unidos. Abri a minha clínica aos trinta e dois. Hoje a clínica fatura mais do que o triplo do que faturava quando eu entrei como sócia minoritária na clínica em que comecei. Estou prestes a abrir uma segunda unidade.

Entrevistador: Como é a sua relação com a sua equipe da clínica hoje?

Paciente: Eu sou exigente. Eu pago acima de mercado, e em troca espero excelência. Tive rotatividade de gerentes administrativos — três em cinco anos —, mas as enfermeiras e as recepcionistas atuais estão comigo já há um tempo.

Entrevistador: Por que essa rotatividade de gerentes, na sua leitura?

Paciente: Eu acho que profissionais de gerência hoje em dia não estão acostumados a líderes com padrão. Eles entram achando que vão fazer um trabalho mediano e receber um salário ótimo. Quando percebem que comigo não dá, eles saem ou eu desligo. Não é problema meu.

Funcionamento emocional e comportamental

Entrevistador: Você se considera uma pessoa que sente facilmente o que outras pessoas estão sentindo?

Paciente: (pequena pausa) Eu sou pragmática. Eu observo, e eu sei o que a pessoa quer. Mas sentir junto, esse tipo de coisa, não é o meu forte, confesso. Eu acho que isso até me ajuda na cirurgia: sangue-frio.

Entrevistador: E quando alguém te critica — um paciente, um colega, alguém da equipe —, como você reage?

Paciente: Depende. Se for uma crítica embasada, eu absorvo. Mas, na maior parte das vezes, a crítica não é embasada. Vem de alguém que está se sentindo ameaçado pela minha posição. Aí eu não dou bola, ou se for o caso eu rompo. Já processei dois pacientes por difamação, e ganhei os dois.

Entrevistador: Você costuma pensar em como você gostaria que sua vida estivesse daqui a cinco, dez anos?

Paciente: (sorri) Constantemente. Eu quero ser a maior referência em cirurgia plástica facial do país. Quero três clínicas. Quero ter um programa próprio em alguma plataforma de streaming. Vai acontecer.

História longitudinal

Entrevistador: Esses traços — exigência alta, foco em desempenho, relação mais distante com aspectos emocionais — vêm de quando?

Paciente: Sempre. Eu sempre fui a melhor aluna, desde a primeira série. Os meus pais investiram pesado em mim porque viram cedo que eu era diferente. Eu nunca tive o tempo nem a paciência das outras meninas. A minha cabeça sempre esteve no que eu queria construir.

Entrevistador: E em algum momento da sua vida, esse jeito te custou alguma coisa importante, do seu ponto de vista?

Paciente: (pausa) O casamento, talvez. Mas eu não atribuo só a mim. Se o Eduardo tivesse o porte que eu precisava, teria dado certo. (pausa breve, expressão um pouco mais dura) E talvez as amigas que se afastaram. Mas eu sigo a minha vida. Eu não fico remoendo.

Encerramento

Entrevistador: Vivian, obrigado pelo seu tempo hoje. Vou organizar as informações e quero te propor pelo menos duas consultas adicionais antes de elaborar qualquer documento.

Paciente: (franze a testa) Duas? O meu advogado mencionou que uma seria suficiente para abrir um relatório inicial.

Entrevistador: Compreendo a urgência do processo. Mas eu não consigo elaborar um documento responsável com um único encontro. Eu posso te encaixar nas próximas duas semanas.

Paciente: (silêncio, expressão controlada) Tudo bem. Vou pedir para a secretária do meu advogado verificar a agenda. (levanta-se, estende a mão de modo curto) Até a próxima.

Fim do roteiro de vídeo.


22.5 5. Pergunta final para os alunos

Em tela, fundo neutro, 10 segundos:

Qual é o diagnóstico de personalidade mais provável? Justifique sua hipótese com pelo menos três elementos observados na entrevista.


22.6 6. Guia oculto para o professor

Diagnóstico mais provável

Transtorno de personalidade narcisista.

Pistas clínicas presentes no roteiro

  1. Senso grandioso de auto-importância sustentado por realizações reais e por exagero das mesmas (capa de revista, “maior referência”, ligas diferentes).
  2. Fantasias de sucesso ilimitado (três clínicas, programa próprio em streaming).
  3. Necessidade de admiração e instrumentalização da exposição (mídia profissional, presença em mídias sociais).
  4. Sensação de ter direito a tratamento especial (reação à exigência de mais de uma consulta, expectativa de “encaixe rápido”).
  5. Falta de empatia: incapacidade de descrever o que a filha sente em um momento concreto, distribuição do cuidado emocional para “a babá e a psicóloga”.
  6. Inveja atribuída aos outros (ex-marido “azedou” porque ela cresceu; pacientes processados por “difamação”).
  7. Desvalorização sutil do outro (gerentes “medianos”, amigas com “problemas pequenos demais”, consultório “funcional”).
  8. Exploração relacional: o casamento descrito como funcional enquanto durou a admiração; vínculos avaliados pela utilidade.

Diagnósticos diferenciais possíveis

  • Transtorno de personalidade antissocial: ambos podem ter exploração e ausência de empatia, mas falta aqui o padrão de violação de normas desde a infância, condutas ilegais e instabilidade laboral. A paciente é socialmente bem-sucedida, dentro da legalidade.
  • Transtorno de personalidade histriônica: dramatização e busca de atenção podem se sobrepor, mas a histriônica é calorosa, sedutora, dependente do olhar afetivo; a narcisista é fria, busca admiração de status, não afeto.
  • Transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva: ambos podem apresentar perfeccionismo, mas no obsessivo a motivação é moral/rigor; aqui é autoengrandecimento.
  • Episódio maníaco/hipomaníaco: a grandiosidade aqui é traço estável e ego-sintônico, não episódica, sem alteração de sono, energia, fala acelerada ou impulsividade descontrolada.
  • Traço narcisista subclínico em profissional de alta performance: discutir com os alunos quando a grandiosidade é adaptativa e quando se torna prejuízo (afastamento de vínculos íntimos, fragilidade do casamento, processos contra pacientes, rotatividade de equipe).

Elementos discriminadores

  • Narcisista × antissocial: narcisista quer admiração e status; antissocial quer vantagem e sensação de poder, e viola regras de modo persistente.
  • Narcisista × histriônica: dois polos do mesmo cluster B na busca de atenção — frieza × calor; admiração × afeto.
  • Narcisista × mania: corte temporal (episódico × estável) e ausência dos demais sintomas maníacos.

Sugestão breve de discussão em sala

  • Manejo da contratransferência (irritação, sensação de competição, desejo de “colocar a paciente no lugar”).
  • Como redigir um relatório técnico solicitado por terceiros, em contexto judicial, sem julgamento moral nem rotulagem precoce?
  • Discutir o conflito ético entre o pedido do advogado (instrumental) e a função clínica do psiquiatra.