1  Introdução

Cada ser humano é único. Cada um de nós tem uma história diferente, um conjunto particular de conhecimentos, de crenças, de sentimentos e de emoções. Mesmo quando compartilhamos a mesma família, a mesma escola, o mesmo bairro, somos diferentes: irmãos criados sob o mesmo teto desenvolvem temperamentos distintos, e gêmeos monozigóticos, geneticamente idênticos, terminam por construir vidas internas que não se sobrepõem inteiramente.

Essa singularidade, contudo, coexiste com uma regularidade observável. O comportamento de cada pessoa, examinado ao longo do tempo e em diferentes contextos, organiza-se em padrões que permitem reconhecê-la, antecipar como reagirá a situações novas e descrevê-la num vocabulário compartilhado. Reconhecemos um amigo pelo modo como reage a uma frustração, pela forma como conduz uma conversa, pelo tipo de humor que cultiva. Essas observações sustentam previsões que, em geral, se confirmam. Boa parte da convivência humana — desde a expectativa simples sobre como um colega reagirá a um pedido até a inferência clínica sobre como um paciente responderá a um tratamento — depende dessa estabilidade relativa do comportamento.

A tentativa de descrever e compreender esses padrões é antiga: já entre os filósofos e médicos gregos havia o esforço de organizar as diferenças individuais em tipologias. A medicina hipocrático-galênica descrevia quatro temperamentos — sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico — entendidos como disposições características que organizavam o modo como as pessoas agiam e sentiam (Dalgalarrondo, 2008; Stelmack; Stalikas, 1991). Essa tipologia se manteve por mais de 1.500 anos, atravessando Kant e Wundt no século XVIII (Stelmack; Stalikas, 1991), e foi reformulada por sucessivas gerações de psicólogos e neurocientistas que herdaram a pergunta com vocabulário próprio.

O esforço se renova em cada época, com ferramentas distintas, mas a pergunta de fundo permanece: o que faz com que uma pessoa se mantenha reconhecível ao longo do tempo, e em que medida esse reconhecimento corresponde a algo descritível? A motivação é prática tanto quanto teórica: distinguir o que em uma pessoa é constante e o que é circunstancial e, no campo clínico, separar o que pertence ao temperamento daquilo que pertence à patologia.

É a esse padrão duradouro e descritível que se dá o nome de personalidade: o conjunto de características relativamente estáveis de um indivíduo, seu modo particular de pensar, sentir, agir e se relacionar. O termo não designa traços rígidos, imutáveis ou impermeáveis ao contexto, mas uma certa continuidade — a pessoa que reencontramos depois de dez anos ainda é reconhecível, e ao mesmo tempo terá mudado. Esses padrões, ademais, não são exclusivos: muitas pessoas exibem perfis semelhantes em diversas dimensões. O que torna cada personalidade sua não é a unicidade absoluta de cada traço, mas a configuração particular do conjunto, entrelaçada com uma biografia que é única.

Entretanto, a despeito das inúmeras tentativas de descrever quais seriam essas diferentes dimensões de personalidade, esse tema ainda é bastante controverso. O estudo da personalidade compreende um grande número de diferentes teorias e diferentes metodologias de pesquisa (Corr; Matthews, 2009). Ao longo do último século, diferentes teorias competiram para descrever e explicar o comportamento humano (psicodinâmicas, comportamentais, humanísticas, cognitivas, biológicas etc.). Mas o que emerge de comum em todas essas teorias é o entendimento de que a personalidade de um indivíduo começa com componentes inatos que, ao longo da vida, sofrem influência de diversos fatores — incluindo experiências individuais, familiares e culturais — e que resultam num padrão de comportamentos, pensamentos e emoções que constituem o que chamamos de personalidade (Cloninger, 2009).

Além dessas diferentes abordagens teóricas, o estudo da personalidade também se diferencia no que se refere aos métodos de investigação. Ao longo da história da psicologia, dois métodos competem para a obtenção de dados, criando duas correntes dicotômicas: aqueles que se abrem a analisar a experiência humana em sua subjetividade e aqueles que enfatizam os métodos científicos rigorosos. Por um lado, abordagens idiográficas estudam o indivíduo; por outro, abordagens nomotéticas procuram generalizações e comparações baseadas no estudo de grupos de pessoas. Apesar de conflitos e tensões, essas abordagens se complementam, e o estudo da personalidade necessita de ambas (Cloninger, 2009).

Referências