19 Roteiro de Entrevista Simulada — Caso clínico D
Roteiro original para vídeo didático — inferência diagnóstica pelo aluno
Material original para fins didáticos, construído a partir da categoria diagnóstica de um caso clínico publicado, sem reprodução de linguagem, cenas, vínculos, dados sociodemográficos ou frases do texto-fonte. O diagnóstico-alvo não deve ser revelado aos alunos antes do exercício de inferência.
20 Roteiro de Entrevista Simulada — Caso D
20.1 1. Ficha técnica do caso
- Nome fictício do paciente: Diogo Mendes
- Idade: 28 anos
- Gênero: masculino
- Ocupação: sem vínculo formal há cerca de um ano. Trabalhou como vendedor de planos de internet porta a porta, vendedor de carros usados, “promotor” em casas noturnas — sempre por períodos curtos.
- Contexto da entrevista: ambulatório psiquiátrico em serviço-escola, encaminhamento da Defensoria Pública como parte de medida alternativa por estelionato (apropriação de cartões de crédito de clientes da concessionária onde trabalhou). É a quarta passagem do paciente pelo sistema de justiça. Há também um processo civil em curso por inadimplência. O paciente comparece com convocação judicial assinada.
- Duração estimada do vídeo: 4 a 5 minutos
- Diagnóstico-alvo para o professor: Transtorno de personalidade antissocial / dissocial (CID-11 6D11.2 — desinibição + dissocialidade / DSM-5-TR 301.7)
- Diagnóstico-alvo oculto para o aluno: NÃO revelar no vídeo
20.2 2. Orientações para o ator ou avatar que interpreta o paciente
- Postura corporal: sentado de modo relaxado, levemente reclinado, uma perna sobre a outra com o tornozelo apoiado no joelho. Braço estendido sobre o encosto da cadeira ao lado. Ocupação ampla do espaço.
- Tom de voz: firme, claro, com leve ironia ocasional. Sem ansiedade aparente.
- Ritmo da fala: fluente, articulado, com alguma facilidade narrativa — o paciente sabe contar histórias.
- Expressão facial: assertiva, sorriso fácil. Quando questionado sobre prejuízo a vítimas, expressão se neutraliza, sem traços de culpa visíveis.
- Maneira de se relacionar: cordial, simpático, faz piadas leves, tenta criar cumplicidade com o entrevistador (“o senhor entende”). Não é hostil de início. Pode se tornar irritado se desafiado diretamente.
- Sinais comportamentais relevantes: chama o entrevistador pelo primeiro nome após dois minutos; comenta sobre o consultório de modo a estabelecer intimidade (“este lugar aqui é tranquilo, hein”); olha para o relógio do entrevistador uma vez; checa o celular discretamente.
- Forma de reagir a temas sensíveis: ao falar das vítimas dos golpes, minimiza (“dei azar”, “a empresa também enrolava”), racionaliza (“se eles tivessem mais cuidado, não teria acontecido”) e transfere a culpa (“o meu colega me ensinou o esquema”). Ao falar da infância, conta episódios graves como se fossem causos engraçados.
Importante para a direção: o paciente não deve parecer monstruoso, frio ou ameaçador. O traço aparece em charme superficial, ausência de remorso, padrão repetido de violação de regras desde a infância e responsabilização externa. A simpatia é parte do quadro. Evitar caricatura de “psicopata de filme”.
20.3 3. Orientações para o ator ou avatar que interpreta o entrevistador
- Postura: sentado tranquilo, mantendo limites profissionais claros. Não se deixar seduzir pela cumplicidade oferecida, sem hostilidade.
- Estilo de entrevista: semiestruturado, com perguntas concretas e datadas (“quando foi a primeira vez que…”, “quantas vezes ao longo dos últimos cinco anos…”).
- Grau de acolhimento: respeitoso, neutro. Não rir das piadas de modo cúmplice. Não confrontar moralmente.
- Forma de explorar sintomas sem induzir respostas: investigar história de conduta na infância e adolescência, padrão laboral, relacionamentos, uso de substâncias, comportamento de risco, capacidade de manter compromissos.
- Forma de investigar funcionamento longitudinal: ancorar em escola, primeiros empregos, primeiros relacionamentos, contato prévio com a justiça.
- Cuidados para não revelar o diagnóstico: não usar palavras como “psicopata”, “antissocial”, “manipulador”. Não fazer interpretação em voz alta. Encerramento neutro.
20.4 4. Roteiro dialogado completo
Cenário visual: sala de ambulatório com mesa e duas cadeiras. Tom neutro. Sem música. Duração total estimada: 4 minutos e 30 segundos.
Abertura
Entrevistador: Boa tarde, Diogo. Eu sou o psiquiatra responsável pelo seu atendimento aqui. Recebi o ofício da Defensoria informando que você vai cumprir esta avaliação como parte da medida alternativa. Para começar, me conta o que aconteceu, do seu ponto de vista, para você estar aqui hoje.
Paciente: (sorrindo, postura aberta) Boa tarde, doutor. Olha, vou ser franco com o senhor: eu trabalhei numa concessionária ano passado, e uns clientes acabaram tendo problema com cartão de crédito. A polícia entendeu que fui eu. Eu não vou ficar aqui mentindo, eu mexi sim, mas não foi nada como botaram no processo.
Queixa atual
Entrevistador: Você poderia me explicar melhor o que aconteceu?
Paciente: Foi o seguinte: a concessionária deixava as fichas dos clientes em cima da mesa, sem proteção nenhuma. Qualquer pessoa que passasse ali via. Um colega meu — eu não vou dar nome — me mostrou um jeito de usar uns dados para fazer uns extras. Eu fui na onda, fiz duas, três vezes. Um cliente reclamou e estourou. Mas, sinceramente, se a empresa tivesse um mínimo de cuidado, isso não acontecia. Eu pago o preço por uma falha que não é só minha.
Entrevistador: E como você se sente sobre os clientes que tiveram prejuízo financeiro com isso?
Paciente: (pausa breve, sorriso menor) Eu não fiz isso com a intenção de prejudicar ninguém específico. Foi a oportunidade. Se eu pudesse devolver o valor, eu devolveria. Mas eu tô sem renda fixa, então também não dá.
História do funcionamento interpessoal
Entrevistador: Você mora com quem hoje?
Paciente: Tô morando com a minha mãe de novo, faz uns três meses. Estava com uma namorada, a Aline, mas a gente se separou. Ela ficou chateada porque eu peguei uns valores do cartão dela para resolver uma coisa minha. Eu ia devolver, mas a gente brigou antes.
Entrevistador: E como tem sido a relação com sua mãe?
Paciente: A minha mãe é santa. Ela me aguenta desde sempre. Já me tirou de duas confusões. Hoje a gente convive de boa, ela me dá um teto, eu ajudo no que dá.
Entrevistador: E amigos próximos, com quem você possa contar de forma estável?
Paciente: (pensa, ri) Estável é uma palavra forte, doutor. Eu conheço muita gente, eu me dou bem com quase todo mundo. Agora amigo de verdade, que eu pudesse ligar de madrugada se precisasse, talvez um. E mesmo esse, faz uns meses que a gente brigou por uma dívida.
História ocupacional
Entrevistador: Me conta um pouco da sua história de trabalho. Quais foram os empregos que você teve?
Paciente: Vários. Eu já vendi internet de porta em porta, já vendi carro, já trabalhei em casa noturna como promotor. Sou bom de papo, então em vendas eu encaixo bem. O problema é que sempre dá algum atrito com chefia. Ou o cara me persegue, ou tem alguma confusão com colega, e eu acabo saindo.
Entrevistador: Quanto tempo, em média, você costuma ficar em cada trabalho?
Paciente: Sei lá. Seis, oito meses. O mais longo foi um ano e meio, na concessionária — e olha no que deu.
Entrevistador: E hoje, sem vínculo formal, como você está se sustentando?
Paciente: Vai dando. Faço uns bicos. Vendo umas peças de carro que arrumo com um conhecido. Quando aperta, a minha mãe ajuda.
Funcionamento emocional e comportamental
Entrevistador: Pensando nessas situações em que você teve problema com a justiça — esta é a quarta vez, segundo o ofício. Quando você olha pra trás, o que você acha?
Paciente: Olha, doutor, eu tive azar. Na primeira vez eu era de menor, peguei uma moto emprestada de um cara, devolveria depois, e ele me denunciou. Na segunda foi uma briga em frente a uma boate, eu nem comecei. Na terceira foi por causa de uma dívida que armaram pra cima de mim. E essa agora é a do cartão. Eu não me considero criminoso, não. Eu sou um cara comum que se meteu em umas roubadas.
Entrevistador: E em algum dessas vezes você sentiu remorso?
Paciente: (pausa) Remorso é uma coisa difícil. Eu fico chateado quando a coisa estoura. Mas, sinceramente, eu não fico me culpando. Não adianta.
Entrevistador: Você usa álcool, cigarro, alguma outra substância?
Paciente: Bebo socialmente, fim de semana. Maconha de vez em quando, em festa. Já cheirei umas vezes, faz tempo. Nada compulsivo, doutor, fica tranquilo.
Entrevistador: Você dirige com bebida, em geral?
Paciente: Já dirigi, várias vezes. Nunca bati, nunca fui pego. Hoje eu tô mais devagar, porque carteira suspensa não combina comigo.
História longitudinal
Entrevistador: Voltando mais para trás. Como era você na infância, na escola?
Paciente: Aprontava bastante. (sorri) Era o que dava trabalho. Fui expulso de uma escola aos doze anos por ter batido num colega — ele tinha me xingado, e eu não levo desaforo. Aos quatorze eu já fugia de casa de vez em quando, ia para o centro com um grupo, voltava no outro dia. Roubei umas coisas em loja, mas era brincadeira de adolescente.
Entrevistador: E na sua família, alguém mais teve histórias parecidas?
Paciente: Meu pai era complicado. Bebia, sumia. Hoje eu não tenho contato. A minha mãe que me criou, sozinha.
Entrevistador: Você chegou a ter algum acompanhamento psicológico ou psiquiátrico antes?
Paciente: Já fui umas três vezes, quando era menor, por causa da escola e do conselho tutelar. Não rendeu muita coisa. Eu sentava lá, conversava, e ia embora. Não acho que eu precise disso, pra ser sincero. Vim porque o juiz mandou. Se não, não viria.
Encerramento
Entrevistador: Diogo, agradeço pela conversa. Vou registrar o que conversamos hoje no relatório que a Defensoria pediu. Você tem agendamento de retorno daqui a três semanas, e eu peço que você compareça.
Paciente: Combinado, doutor. (estende a mão, sorri) O senhor é gente boa, viu? Não me trataram mal aqui não.
Fim do roteiro de vídeo.
20.5 5. Pergunta final para os alunos
Em tela, fundo neutro, 10 segundos:
Qual é o diagnóstico de personalidade mais provável? Justifique sua hipótese com pelo menos três elementos observados na entrevista.
20.6 6. Guia oculto para o professor
Diagnóstico mais provável
Transtorno de personalidade antissocial (dissocial).
Pistas clínicas presentes no roteiro
- Padrão repetido de desrespeito a normas e direitos alheios desde a infância e adolescência (expulsão escolar por agressão aos 12, fugas, furtos em loja, primeiro contato com a justiça antes da maioridade).
- Padrão atual repetido na vida adulta: quatro passagens pelo sistema de justiça, sendo a mais recente por estelionato.
- Ausência de remorso e racionalização: minimiza prejuízos, transfere responsabilidade (“se a empresa tivesse cuidado”), descreve vítimas como abstrações.
- Impulsividade e desinibição (uso da operação do cartão da namorada, comportamento de risco no trânsito, mudança frequente de parceiras).
- Instabilidade laboral: empregos curtos e repetidos em áreas de venda, sempre rompidos por “atrito com chefia”.
- Charme superficial: simpatia ativa com o entrevistador, tentativa de cumplicidade, narrativa fluente das próprias condutas.
- Exploração da figura cuidadora (mãe que cobre suas dívidas, abriga, “santa”).
Diagnósticos diferenciais possíveis
- Transtorno por uso de substâncias: presente como comorbidade provável (álcool, cannabis, uso esporádico de cocaína), mas o padrão antissocial antecede e excede o uso de substâncias.
- Transtorno de personalidade borderline: pode haver impulsividade e instabilidade, mas faltam as marcas centrais (instabilidade afetiva intensa, autoimagem oscilante, comportamento autolesivo, pavor de abandono).
- Transtorno de personalidade narcisista: a autovalorização aqui é instrumental (charme para conseguir vantagem), não baseada em fantasia grandiosa de sucesso.
- Transtorno explosivo intermitente: existem episódios de violência, mas o padrão é mais amplo, com violação crônica de normas e exploração interpessoal.
- Condutas adaptativas em contexto socioeconômico adverso: discutir com os alunos a importância do caráter persistente, pervasivo e desde a infância para fechar diagnóstico de personalidade, evitando psiquiatrização da pobreza.
Elementos discriminadores
- História de conduta antes dos 15 anos é critério obrigatório para o diagnóstico de antissocial — Diogo apresenta de modo claro.
- Ausência de sofrimento subjetivo genuíno com as consequências dos próprios atos diferencia-o do paciente borderline.
- Charme funcional sem fantasia grandiosa diferencia-o do narcisista clássico.
Sugestão breve de discussão em sala
- Manejo da contratransferência (irritação, descrença, sedução pelo charme do paciente).
- Limites do tratamento psiquiátrico em contexto judicial: o que o psiquiatra pode oferecer, o que não pode?
- Como redigir um relatório à Defensoria com descrição comportamental, sem juízo moral nem prognóstico determinista.