Apêndice A — A descoberta às avessas
Um ensaio sobre o que a palavra personalidade esconde
A descoberta, em geral, é o reverso de uma cortina. Algo estava ali — uma terra, uma partícula, uma lei da gravitação — e nós não enxergávamos. Vem o astrônomo, o anatomista, o navegador, e o que estava oculto aparece. Aqui vamos fazer o contrário. Vamos descobrir que algo que sempre nos pareceu evidente — sólido, pessoal, intransferível — talvez não exista do modo como o nomeamos. Vamos descobrir que a personalidade é uma palavra astuta.
Comecemos pelo nome. Personalidade é substantivo, e substantivos nos enganam. Quando alguém diz “ele tem uma personalidade forte”, a forma da frase sugere que existe um isso, uma coisa interior dotada de força, à maneira como um corpo tem músculo. Mas reparem no movimento gramatical: alguém foi gentil em vinte ocasiões, e nós cunhamos “gentileza”; alguém agiu com brio em momentos diversos, e nós cunhamos “caráter forte”. Verbo virou substantivo, processo virou propriedade, comportamento virou coisa. Wittgenstein chamaria a atenção para esse encantamento — a palavra não vem com o referente colado dentro dela (Wittgenstein, 1953). William James, antes, falava em psychologist’s fallacy: tomamos nosso modo de descrever um fenômeno como prova de que o fenômeno tem a forma da descrição (James, 1890). Personalidade pertence à família das palavras que ganham realidade na própria nomeação, como “alma”, “caráter”, self.
A neurociência confirma a suspeita por outro caminho. Quando Walter Mischel testou, nos anos 1960, a consistência de traços de personalidade em situações diferentes, encontrou correlações em torno de 0,30 — modestas, muito menores do que a intuição prevê (Mischel, 1968). As pessoas são mais situacionais do que nossos romances sugerem: a mesma pessoa é generosa com o irmão e mesquinha com o colega, paciente no engarrafamento e furiosa na fila do banco. António Damásio mostra que aquilo que chamamos de “eu” é uma narrativa que o cérebro produz em tempo real, a partir de fragmentos somáticos, emocionais e memoriais (Damasio, 2010). A cada lembrança, a memória se reconsolida e muda (Nader; Schafe; LeDoux, 2000; Schiller et al., 2010). Você não é exatamente o mesmo que começou a ler este parágrafo — neurônios diferentes estão ativos, sinapses foram remodeladas, a história que você conta sobre si mesmo recebeu uma micro-revisão silenciosa.
E ainda assim — aqui é onde quase nos perdemos — alguma coisa persiste. Sua mãe reconhece você. Seus amigos sabem o que vai te fazer rir. Você detesta coentro em janeiro e em outubro. Os chamados Big Five mostram estabilidade test-retest razoável ao longo de décadas (Roberts; DelVecchio, 2000). Não é puro caos, não é pura flutuação.
Como sair desse impasse? Acho que a metáfora certa é a do rio, e Heráclito tinha razão duas vezes: você não entra duas vezes no mesmo rio, e o rio é o mesmo rio (Éfeso, 1903). Personalidade é um padrão de fluxo, não uma substância. É real como um redemoinho é real — existe enquanto o movimento o sustenta, e se desfaz quando o movimento cessa. Real, mas sem fundo.
A literatura sabe disso há mais tempo do que a psicologia. O romance do século XIX construiu personagens como essências reconhecíveis: Anna Kariênina, Madame Bovary, Pierre Bezúkhov — figuras que se sustentavam num núcleo identificável, como se tivessem alma. O modernismo desmontou isso. Virginia Woolf, em Mrs. Dalloway, mostra que essa essência se decompõe em momentos heterogêneos costurados pela memória e pela performance social (Woolf, 1925). Clarissa Dalloway é o que ela está sentindo agora, e agora, e agora. Joyce levou ao limite no Ulysses (Joyce, 1922). Beckett raspou ainda mais (Beckett, 1953). Mas a virada que mais importa para o nosso problema vem antes. Vem de um americano com barba branca andando pelos cais de Brooklyn.
A.1 Whitman — a dilatação
Walt Whitman publicou em 1855 a primeira edição de Leaves of Grass, e nela um poema sem título que viria a se chamar Song of Myself (Whitman, 1855). Ele o reescreveu durante quase quarenta anos. Na seção 51 da edição final, de 1892, perto do fim, interrompe a narração e se dirige diretamente ao leitor — Listener up there! what have you to confer? — antes de soltar a passagem mais célebre:
Do I contradict myself? Very well then I contradict myself, (I am large, I contain multitudes.)
— Walt Whitman, Song of Myself, §51 (Whitman, 1892)
O que torna o gesto filosoficamente forte é que ele não pede desculpas pela contradição, não tenta resolvê-la, não a chama de aparente. Trata-a como evidência. A contradição não é defeito do eu — é a forma do eu. Se você é grande o bastante, vai conter posições incompatíveis, porque a vida não cabe num único traço.
A dilatação que Whitman propõe não é metafórica. Song of Myself é construído sobre catálogos — listas longuíssimas de profissões, regiões, corpos: o capitão do navio, a prostituta, o escravo fugido, o presidente, o pedreiro, a parturiente, o suicida no chão da cozinha. Ele literalmente põe multidões dentro do poema. O I de Whitman é mais um continente do que uma pessoa. Borges, num ensaio belíssimo, distinguiu dois Whitmans: o jornalista de Brooklyn que escreveu o livro, e o “Walt Whitman” do livro — personagem mítico, semi-divino, que inclui o leitor dentro de si (Borges, 1932). Lembrem da abertura do poema:
And what I assume you shall assume, For every atom belonging to me as good belongs to you.
Quando você lê, você é parte do eu de Whitman. A multidão somos nós.
A.2 Dylan — o catálogo
Esse gesto atravessa os séculos. Em 2020, em pleno início da pandemia, Bob Dylan lançou sem aviso uma canção chamada I Contain Multitudes (Dylan, 2020a) — depois faixa do álbum Rough and Rowdy Ways (Dylan, 2020b), seu primeiro disco de inéditas em quase uma década. A letra é um inventário de identidades: Dylan se compara a Anne Frank, Indiana Jones, aos Rolling Stones, Edgar Allan Poe, William Blake, Beethoven, Chopin. Quase uma piada interna: o velho Dylan, aos 78 anos, recitando uma lista heterogênea de máscaras como se dissesse — foi sempre assim, ser Dylan foi conter Anne Frank E Indiana Jones. A diferença em relação a Whitman é o tom. Whitman canta a multiplicidade em êxtase, expansivo; Dylan a canta como inventário de fim de vida, meio zombeteiro, meio elegíaco. Contenho multidões — e agora elas vão embora juntas.
I Contain Multitudes foi lançada como terceiro single (em 17 de abril de 2020) e aparece em Rough and Rowdy Ways como segunda faixa do disco (a primeira é I Contain Multitudes em algumas edições e Murder Most Foul em outras — confirmar tracklist canônica e ajustar o texto se necessário).
A.3 Pessoa — a fragmentação
Mas o caso mais extremo, e talvez o mais interessante para nossa investigação, está em Lisboa, e veio antes. Se Whitman expandiu o eu e Dylan o catalogou, Fernando Pessoa fez algo mais radical: dividiu.
Em 8 de março de 1914 — ele próprio chamaria de “dia triunfal” numa carta famosa a Adolfo Casais Monteiro, escrita vinte e um anos depois (Pessoa, 1999) —, encostado a uma cômoda alta no quarto alugado, escreveu de pé trinta e tantos poemas seguidos, “numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir”. Os poemas eram de Alberto Caeiro, “guardador de rebanhos”. Apareceu em mim o meu mestre, escreveu Pessoa.
A distinção entre pseudônimo e heterônimo é o pilar de tudo. O pseudônimo assina uma obra do próprio autor com outro nome. O heterônimo, na definição de Pessoa, é outro autor — tem data de nascimento, biografia, profissão, estilo, métrica, posição filosófica e, decisivo, escreve coisas que Pessoa mesmo não escreveria.
Alberto Caeiro (1889-1915) — pastor antimetafísico, “guardador de rebanhos”. Defendia que pensar é estar doente dos olhos, que as coisas não têm sentido oculto nenhum, basta vê-las.
Ricardo Reis (1887-?) — médico, monarquista, exilado no Brasil, escrevia odes horacianas em português contido. Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. Estoico-epicurista.
Álvaro de Campos (1890-?) — engenheiro naval formado em Glasgow, futurista, autor de odes longuíssimas claramente whitmanianas — Ode Triunfal, Ode Marítima — em que máquinas, portos e sensações modernas se atropelam em verso livre. Herdeiro direto de Whitman dentro do sistema. Mais tarde virou ao avesso: escreveu Tabacaria (Pessoa, 1933), talvez o maior poema do desencanto moderno em língua portuguesa — Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada.
Bernardo Soares — semi-heterônimo, “Pessoa diminuído”, ajudante de guarda-livros num escritório da Rua dos Douradores, autor do Livro do Desassossego (Pessoa, 2010), montado em fragmentos descontínuos ao longo de duas décadas — talvez o maior livro do século XX em língua portuguesa.
O detalhe que arrepia é que os heterônimos interagiam. Reis escreveu sobre Caeiro depois da morte de Caeiro. Campos discordava publicamente de Reis. Pessoa-ortônimo (ele se nomeava também) publicava poemas em revistas ao lado dos heterônimos como se fossem colegas. Tudo isso orquestrado de um quarto pobre em Lisboa, traduzindo correspondência comercial para sobreviver. Bebia muito, morreu aos 47 anos, em 1935, de cirrose. Publicou em livro, em vida, apenas Mensagem (1934). Deixou uma arca com cerca de 25.000 papéis manuscritos que vêm sendo editados há quase noventa anos e ainda não terminaram.
Filosoficamente, o gesto é maior do que a soma das obras. Pessoa não disse “o eu é múltiplo” — escreveu a multiplicidade, fez dela um sistema funcional. Os heterônimos não são personagens dele; são autores que se autorizam mutuamente. É como se ele tivesse feito uma demonstração empírica da tese: se personalidade é padrão de fluxo, dá para sustentar vários padrões simultâneos no mesmo corpo. Cada um produzindo literatura distinta, com vícios e virtudes próprios. A pergunta quem era Pessoa não tem resposta unitária — ele era a operação de ser plural. E o nome ajuda. Pessoa em português é a palavra comum para indivíduo humano, mas vem de persona: a máscara do ator no teatro grego. O sujeito que tinha por sobrenome o conceito mesmo da máscara, como se o destino estivesse escrito desde sempre: você vai ser muitos.
O Livro do Desassossego existe em três edições críticas principais:
- Coelho (Ática, 1982): a primeira edição organizada por Jacinto do Prado Coelho;
- Zenith (Assírio & Alvim, 1998 e revisões posteriores): mais difundida no Brasil pela Companhia das Letras;
- Pizarro (Imprensa Nacional / Tinta-da-China, 2010): edição crítica genética, considerada a mais filológica.
A entrada BibTeX atual usa a edição Pizarro (2010). Confirme se essa é a edição que você quer citar ou indique a preferida.
Borges escreveu mais de um texto sobre Whitman:
- El otro Whitman, originalmente em Discusión (1932), reimpresso em Obras Completas I;
- Nota sobre Walt Whitman, em Otras inquisiciones (1952);
- prólogo a Hojas de hierba (1969), na sua tradução.
O texto que distingue “o jornalista de Brooklyn” do “personagem mítico” é principalmente El otro Whitman (1932). A entrada BibTeX atual aponta para esse texto, mas confirme.
A.4 A descoberta às avessas
Voltemos agora à pergunta inicial. Existe a personalidade?
A resposta honesta, depois de tudo isso, é assimétrica. Como coisa, como entidade, como substância dentro de você — não. É reificação: pegamos um padrão de comportamento que se repete e o transformamos em propriedade interna, como se o redemoinho fosse uma coisa em vez do nome para um modo de a água se mover. Mas como padrão — sim. Há uma maneira de você acontecer que se repete o suficiente para que sua mãe reconheça, seus amigos antecipem, você mesmo identifique. Esse padrão é real, mas é frágil, móvel, situacional e múltiplo. Cada um de nós contém um Caeiro e um Campos, um Whitman exultante e um Dylan elegíaco, e nenhum deles é o “verdadeiro” — todos são modos legítimos do mesmo acontecer.
Foi por isso que abrimos com a expressão descoberta às avessas. Em geral, descobrir é levantar uma cortina sobre algo que já estava ali. Aqui, descobrimos o contrário: aquilo que sempre nos pareceu mais sólido — eu mesmo, esse núcleo que carregamos como identidade — não é exatamente o que pensávamos. Não é uma coisa que existe lá dentro; é um acontecer que vai se sustentando.
A personalidade não te pertence. Você é onde ela passa.