6  Taxonomia da personalidade

Caracterizar a personalidade de um indivíduo exige escolher como descrevê-la. Três grandes modos estruturam o campo. O primeiro, o mais antigo, opera por tipos: agrupa pessoas em categorias discretas — temperamento, caráter, “personalidades anormais”, clusters comportamentais — pressupondo que existem variedades naturais distintas. O segundo, dominante na psicologia desde meados do século XX, opera por traços: descreve cada indivíduo como combinação de dimensões contínuas, sem assumir tipos discretos. O terceiro, característico da psiquiatria, opera por transtornos: definidos categoricamente desde o DSM-III (1980) e, mais recentemente, dimensionalmente pela CID-11 (2022). Este capítulo percorre cada um desses modos, mostrando o que cada um permite ver, o que omite, e por que a transição entre eles é importante para a clínica.

6.1 Tipologias: dos gregos a Schneider

O interesse em padrões de comportamento remonta à Antiguidade. Conceitos como tipos psicológicos, temperamento e caráter podem ser traçados até a Grécia: a medicina hipocrático-galênica estabeleceu uma tipologia humoral de quatro temperamentos — sanguíneo, fleumático, colérico, melancólico — que orientou a psicologia ocidental por mais de mil e quinhentos anos. Esses modelos tipológicos pré-modernos compartilhavam uma premissa: a personalidade humana se distribui em variedades qualitativamente distintas, identificáveis pelos sinais comportamentais ou pelos substratos biológicos pressupostos (humores, então; depois constituições físicas, sangue, sistema nervoso).

A versão clinicamente influente dessa tradição se consolidou em 1923, quando Kurt Schneider publicou Psychopathic Personalities (Schneider, 1923). Ao priorizar o termo personalidade, Schneider tornou temperamento e caráter obsoletos no vocabulário psiquiátrico (Berrios, 1993). Descreveu dez tipos de personalidades que considerava causarem sofrimento ao próprio sujeito ou aos outros — hipertímico, depressivo, inseguro, fanático, carente de autoestima, lábil de afeto, explosivo, perverso, violento e astênico —, concebendo-os como formas de ser e não como entidades diagnósticas. Para Schneider, essas “personalidades anormais” não eram doenças, mas variações extremas do normal, identificáveis pelo sofrimento que causavam e, importante, não permanentes (Berrios, 1993). Versões mais recentes da tradição tipológica continuam aparecendo na literatura — análises com big data identificaram, por exemplo, quatro agrupamentos de personalidades em amostras grandes (average, reserved, self-centred, role model) (Gerlach et al., 2018) —, mas a robustez e a utilidade clínica desses clusters seguem em debate.

6.2 A advertência de Schneider — anormal em relação a quê?

A posição de Schneider continha uma cautela conceitual que se perdeu nas classificações que vieram depois. Para ele, as “personalidades anormais” eram variações extremas do normal, identificáveis pelo sofrimento que causam — não por desvio de uma natureza humana fixa. Essa formulação deixa aberta uma pergunta que classificações psiquiátricas posteriores tenderam a calar: anormal em relação a quê? Uma personalidade obsessiva valorizada em culturas que premiam perfeccionismo pode tornar-se patológica em culturas que valorizam espontaneidade. Essa relativização cultural — e o estatuto epistemológico instável das categorias diagnósticas — é tema do Apêndice II — Crítica interdisciplinar.

6.3 Traços: a virada do Big Five

Em contraste com o modelo tipológico, a teoria dos traços de personalidade é hoje amplamente aceita. Em vez de classificar pessoas em tipos, descreve cada indivíduo como combinação de dimensões contínuas. O modelo dos cinco grandes fatores (Big Five, ou Five Factor Theory — FFT), consolidado a partir dos anos 1980, organiza a personalidade em torno de cinco domínios: abertura à experiência, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo (Widiger, 2017). Esses traços são tratados em detalhe no próximo capítulo.

6.4 Transtornos: a categorização médica do século XX

Paralelamente à consolidação da teoria dos traços, a psiquiatria seguiu por outro caminho. As classificações médicas — a CID, da OMS, e o DSM, da Associação Americana de Psiquiatria — tradicionalmente não trabalharam com o conceito de personalidade, mas com o de transtorno de personalidade: padrões disfuncionais, persistentes e socialmente comprometedores que justificam atenção clínica (American Psychiatric Association, 2013; World Health Organization, 1992). A versão clinicamente influente do conceito começou a se formar com Schneider, mas se consolidou em sua forma operacional no DSM-III (1980), que estabeleceu uma lista de dez transtornos categóricos específicos — Paranoide, Esquizoide, Esquizotípico, Antissocial, Borderline, Histriônico, Narcisista, Evitativo, Dependente e Obsessivo-Compulsivo — agrupados em três clusters (A, B e C). Essa estrutura categórica persistiu nas edições subsequentes (DSM-III-R, DSM-IV, DSM-IV-TR) e na CID-10 (World Health Organization, 1992). O DSM-5 (2013) manteve o modelo categórico no corpo principal do manual, mas reconheceu sua insuficiência ao publicar, na Seção III, um modelo dimensional alternativo — Alternative Model for Personality Disorders (AMPD) — pensado como prenúncio de uma reforma futura (Mulder; Tyrer, 2019).

6.5 A virada dimensional da CID-11

A reforma da CID-11 respondeu a um conjunto de problemas acumulados ao longo de três décadas de uso do modelo categórico. Quatro críticas, em particular, se tornaram consensuais na literatura psiquiátrica. A primeira, sobre heterogeneidade interna: dois pacientes com o mesmo diagnóstico — Borderline, por exemplo — podiam apresentar quadros clínicos muito diferentes, com poucos critérios em comum, o que dificultava a generalização da pesquisa e a indicação terapêutica (Kotov et al., 2017). A segunda, sobre comorbidade artificial: a maioria dos pacientes com transtorno de personalidade recebia mais de um diagnóstico categórico simultaneamente — sinal de que as categorias não capturavam entidades distintas, mas faces sobrepostas de uma mesma realidade clínica (Kotov et al., 2017; Reed et al., 2019). A terceira, sobre a prevalência da categoria-coringa: o diagnóstico residual Personality Disorder, Not Otherwise Specified (PD-NOS) — destinado, em tese, a casos raros que não se encaixassem em nenhuma das dez categorias específicas — tornou-se na prática um dos mais utilizados. Em coorte clínica norueguesa com mais de 1.500 pacientes, o PD-NOS foi o terceiro transtorno de personalidade mais frequente, atribuído a 22% dos pacientes com TP; 41% deles não eram sequer sublimiares em nenhum dos tipos específicos (Wilberg et al., 2008). Quando a categoria “nenhuma das anteriores” é uma das mais comuns, o sistema está falhando em descrever a clínica que o gerou. A quarta, sobre severidade como melhor preditor: estudos de seguimento mostraram que o quanto a personalidade comprometia o funcionamento global do paciente predizia prognóstico, necessidade de tratamento e resposta terapêutica melhor do que o tipo categórico do diagnóstico (Mulder, 2024; Mulder; Tyrer, 2019).

Diante desse acúmulo de evidência, o grupo de trabalho da OMS — presidido por Peter Tyrer — propôs uma reformulação ampla do diagnóstico de transtornos de personalidade, adotada na CID-11 (World Health Organization, 2022): abandonar as categorias específicas, instituir uma única entidade diagnóstica (Transtorno de Personalidade, 6D10) graduada em severidade (leve, moderada, grave) como eixo principal do diagnóstico, e qualificar essa severidade com cinco domínios de traço — afeto negativo, desapego, dissocialidade, desinibição e anancástico (Reed et al., 2019; Tyrer, 2020). Um único qualificador de padrão categórico foi preservado, o padrão Borderline, sobretudo pela centralidade desse construto na literatura terapêutica baseada em evidência (DBT, MBT, TFP), que seria inviável reformar simultaneamente (Bach; First, 2018). A estrutura completa do novo sistema, com tabela de mapeamento DSM-5 ↔︎ CID-11, é desenvolvida no Cap. 8 — Transtornos de personalidade.

6.6 Síntese — três modos, três tarefas

A história aqui resumida deixa o leitor com três tarefas clínicas distintas, cada uma correspondente a um dos modos de pensar a personalidade. A primeira, descritiva: aprender a falar a personalidade no vocabulário dos traços — tema do Cap. 7 — Big Five. A segunda, diagnóstica: reconhecer quando uma configuração de traços compromete o funcionamento do paciente a ponto de exigir intervenção, e classificar esse comprometimento segundo o modelo dimensional da CID-11 — tema do Cap. 8 — Transtornos de personalidade. A terceira, terapêutica: saber o que pode ser feito quando o diagnóstico se confirma — tema do Cap. 10 — Tratamento. Os três modos não se excluem; cada um responde a uma pergunta diferente, e a prática clínica os mobiliza alternadamente.

Referências