10  Tratamento dos transtornos de personalidade

Existem poucos estudos a respeito do tratamento dos transtornos de personalidade. A maior parte da literatura disponível foca no tratamento do transtorno de personalidade borderline, sendo os demais raramente estudados.

O tratamento mais importante para a maioria dos transtornos de personalidade é a psicoterapia. Terapias de grupo geralmente não são recomendadas em pacientes com personalidade paranoide, tendo em vista a possibilidade de esses pacientes interpretarem frequentemente de forma negativa os comentários e situações que surgem no contexto dessa forma de terapia (Andreasen; Black, 2014).

Antipsicóticos podem ser úteis para reduzir os níveis de pensamentos paranoides nos pacientes com transtornos de personalidade do Grupo A (paranoide, esquizoide, esquizotípica), embora não existam estudos clínicos robustos realizados especificamente para essa população.

10.1 Terapia Comportamental Dialética (DBT)

A psicoterapia com maior corpo de evidência empírica em transtornos de personalidade é a Terapia Comportamental Dialética (Dialectical Behavior Therapy, DBT), desenvolvida por Marsha Linehan nos anos 1980-90 (Linehan, 1993). Originalmente desenhada para tratamento do transtorno de personalidade borderline (TPB), a DBT é hoje considerada padrão-ouro pelas principais diretrizes internacionais (NICE, APA) para esse diagnóstico, e tem evidência crescente em outros transtornos de cluster B (Storebø et al., 2020).

A inovação conceitual de Linehan foi reconhecer que os sintomas do TPB emergem da interação entre uma vulnerabilidade emocional biológica e ambientes invalidantes ao longo do desenvolvimento — não de uma “personalidade interna autônoma”. Os padrões disfuncionais foram aprendidos como adaptações racionais a contextos adversos; quando o contexto muda (relações validantes, habilidades de regulação emocional, ambiente terapêutico estruturado), os padrões mudam. Essa reconceituação transformou o prognóstico do TPB de “intratável” para “altamente tratável” em uma geração.

Os quatro módulos de habilidades da DBT

A DBT estrutura o treinamento em quatro módulos: mindfulness (atenção plena), tolerância ao mal-estar, regulação emocional e efetividade interpessoal. O paciente aprende esses módulos em grupo e os pratica em terapia individual semanal, com coaching telefônico entre as sessões. O programa padrão dura 12 meses.

10.2 Outras psicoterapias com evidência

  • Mentalization-Based Treatment (MBT) — desenvolvida por Anthony Bateman e Peter Fonagy; foco na capacidade de “mentalizar” estados mentais próprios e dos outros. Forte evidência em TPB.
  • Transference-Focused Psychotherapy (TFP) — desenvolvida por Otto Kernberg; foco na transferência paciente-terapeuta como veículo para reorganização da identidade. Evidência em TPB e transtornos narcisistas graves.
  • Schema Therapy — desenvolvida por Jeffrey Young; integra elementos cognitivos, gestálticos e psicodinâmicos. Boa evidência em TPB e transtornos do cluster C.
[VERIFICAR — atualização]

Esta seção foi expandida em maio de 2026, mas as descrições de MBT, TFP e Schema Therapy ainda são esqueléticas. Cada uma merece um parágrafo próprio com indicação, mecanismo proposto e estudos centrais. Considerar também:

  • Farmacoterapia: revisões sistemáticas recentes sobre uso de estabilizadores, ISRS e antipsicóticos de segunda geração em borderline.
  • Tratamento específico por cluster A e C.
  • Setting de tratamento: ambulatorial vs hospital-dia vs internação; risco de iatrogenia.
  • Tratamento na CID-11: a virada dimensional (discutida no Cap. 8) muda o que é alvo terapêutico — em vez de tratar “personalidade borderline” como tipo, a CID-11 sugere intervir sobre severidade global (6D10) e domínios de traço (6D11.x) que estejam clinicamente comprometendo o funcionamento. A DBT, por exemplo, pode ser indicada tanto para casos com padrão borderline (6D11.5) quanto para apresentações com alta desinibição (6D11.3) e afetividade negativa (6D11.0) sem padrão borderline formal.
Conexão com o apêndice

A eficácia da DBT é, além de fato clínico, um argumento conceitual: se padrões de personalidade fossem essências fixas, a DBT não poderia funcionar como funciona. Esse argumento é desenvolvido no Apêndice II — Crítica interdisciplinar.

Referências