4  A plasticidade da personalidade

4.1 Eventos de vida e modificações da personalidade

Apesar de a estabilidade desses padrões ser tradicionalmente considerada a característica definidora da personalidade, o ser humano tem plasticidade suficiente para transformar a si mesmo, e diversos fatores podem contribuir para alterar os traços de personalidade ao longo da vida (Hopwood; Bleidorn, 2018).

Diversos trabalhos já demonstraram a utilidade da psicoterapia em modificar traços de personalidade disfuncionais (Hadjipavlou; Ogrodniczuk, 2010; Storebø et al., 2020). A plasticidade documentada por essa literatura é, em si, um argumento forte contra a leitura essencialista da personalidade (algo que vamos retomar no ensaio em apêndice deste livro).

Estabilidade vs. mudança

Os Big Five mostram estabilidade test-retest razoável ao longo de décadas — coeficientes na faixa de 0,5 a 0,7 em estudos longitudinais de longo prazo. Mas estabilidade não é imutabilidade: há mudança de nível médio ao longo da vida (em geral aumento de conscienciosidade e amabilidade, redução de neuroticismo) e há mudança individual associada a psicoterapia, eventos de vida e intervenções farmacológicas.

4.2 Plasticidade cortical — a base neural da transformação

A leitura da personalidade como padrão modificável encontra base sólida na neurociência da plasticidade cortical. Os trabalhos pioneiros de Michael Merzenich, nas décadas de 1980 e 1990, mostraram que o cérebro adulto permanece radicalmente maleável (Merzenich; Van Vleet; Nahum, 2013): os mapas sensoriais no córtex não são fixos, mas se reorganizam continuamente em função do uso e da experiência. Quem toca piano por anos tem expansão da representação cortical dos dedos; quem para, regride.

Norman Doidge (Doidge, 2007) documenta transformações ainda mais radicais: pessoas com hemisférios cerebrais removidos que desenvolvem funções complexas no tecido remanescente; cegos que aprendem a “ver” por outros sentidos. Se estruturas tão fundamentais quanto a visão podem ser remapeadas.

O “eu” como múltiplos sistemas paralelos

Joseph LeDoux (LeDoux, 2002) argumenta que o que chamamos de “eu” não é uma entidade unitária, mas a coordenação imperfeita de múltiplos sistemas cerebrais paralelos — memória explícita e implícita, regulação emocional, controle motor, planejamento. Quando esses sistemas estão razoavelmente alinhados, sentimos coerência; quando se desencontram (no estresse, na dissociação, no sonho), a coerência se quebra. A personalidade, nessa leitura, é menos uma “coisa” do que um efeito de integração — e por isso pode ser transformada quando os componentes se reorganizam.

A plasticidade cortical é a explicação neural de que traços de personalidade não são imutáveis, e mudança terapêutica significativa é biologicamente plausível.

Referências