7  Traços de personalidade

O conceito de personalidade refere-se à integração dinâmica da totalidade da experiência subjetiva e dos padrões de comportamento de uma pessoa, incluindo comportamentos conscientes e inconscientes, representando uma entidade muito mais complexa e sofisticada do que simplesmente a soma de todas as suas características componentes.

Por outro lado, grande parte da tradição científica ocidental se baseia na capacidade de fragmentar o todo em unidades menores e de compreensão mais simples. Se observarmos fragmentos do comportamento humano, podemos encontrar alguns padrões, podemos perceber que em alguns aspectos também somos parecidos uns com os outros. Alguns são tímidos, outros são extrovertidos; uns são cautelosos, outros audaciosos; uns são inseguros, outros corajosos.

Podemos usar uma infinidade de termos para caracterizar os diversos aspectos da personalidade de um sujeito. Galton, um dos primeiros a avaliar a quantidade desses termos na língua inglesa no século XIX, encontrou mais de 1.000 diferentes termos para descrever a personalidade (Galton, 1884). Allport e Odbert (1936) ampliaram esse levantamento ao vasculhar o Webster’s New International Dictionary, identificando cerca de 4.500 termos descritivos estáveis (Allport; Odbert, 1936) — lista que Cattell, mais tarde, reduziu por análise fatorial a um conjunto de fatores mais enxuto, base do modelo 16PF e precursor do Big Five (Goldberg, 1993).

Entretanto, apesar dessa infinidade de formas de nomear os mais diversos aspectos do ser humano, os estudiosos da personalidade em geral concordam que cinco dimensões básicas podem ser usadas para caracterizar a personalidade, usualmente conhecidas como o modelo Big Five (Goldberg, 1993). Esses traços formam o acrônimo OCEAN:

Tabela 7.1: Modelo dos cinco grandes fatores de personalidade — Big Five (OCEAN)
Letra Traço (en / pt) Polo oposto
O Openness to experience — aberto a experiências fechado, convencional (psicoticismo)
C Conscientiousness — meticuloso, organizado despreocupado, desinibido
E Extraversion — extrovertido introvertido, emocionalmente retraído
A Agreeableness — afável, consensual antagônico, sempre discordante
N Neuroticism — neurótico, emocionalmente instável emocionalmente estável

O estudo da personalidade é em grande parte dominado por essa corrente que estuda essas unidades básicas menores. Esses traços de personalidade não estão simplesmente presentes ou ausentes, mas formam um continuum entre dois extremos opostos, sendo considerados patológicos somente quando se tornam inflexíveis, mal adaptativos e causam sofrimento significativo ou prejuízo funcional.

Tabela 7.2: Os Big Five como um continuum entre polos opostos
Polo positivo / saudável Domínio Big Five Polo negativo / problemático
Lucidez Openness to experience Psicoticismo
Meticuloso Conscientiousness Desinibido
Extrovertido Extraversion Retraído
Afável Agreeableness Antagônico
Emocionalmente estável Neuroticism Emocionalmente instável

Um traço de personalidade é uma tendência em sentir, comportar e pensar de forma relativamente consistente ao longo do tempo. São padrões relativamente persistentes de pensamento, percepção e relacionamento exibidos em uma ampla gama de situações, contextos sociais e pessoais (American Psychiatric Association, 2013).

“Um traço [de personalidade] é uma tendência ou disposição em relação a comportamentos específicos; um comportamento específico é uma manifestação de um traço.”

— DSM-5 (American Psychiatric Association, 2013)

Além desses cinco traços de personalidade, existem ainda vários outros, cuja importância varia segundo a linha teórica em uso. Por exemplo, traços narcisísticos de personalidade — definidos como uma orientação interpessoal autocentrada, autoengrandecedora, autoritária, dominante e manipuladora — podem ter influência importante no comportamento (Roberts; Woodman, 2017). Da mesma forma, a alexitimia, conceituada como dificuldade em reconhecer e descrever as próprias emoções, também tem influência importante no comportamento e na saúde mental (Sifneos, 1973).

Se, por um lado, um modelo dimensional como o de traços oferece mais informação, por outro lado ele é bem mais complexo de ser usado na prática diária do médico. Devido a essa complexidade, a abordagem dimensional da personalidade foi inserida no DSM-5 em sua Seção III (“Medidas e modelos emergentes”), e não na seção principal de transtornos de personalidade (American Psychiatric Association, 2013).

Nota histórica

Allport & Odbert (1936) foram os primeiros a fazer um levantamento sistemático do léxico de personalidade, partindo do dicionário Webster. Cattell, na década seguinte, pegou essa lista e aplicou análise fatorial para reduzi-la — base do 16PF. Quando se diz, em livros didáticos, que “Cattell encontrou 4.500 termos”, a atribuição correta é a Allport & Odbert; Cattell apenas trabalhou estatisticamente sobre o material que eles compilaram (Allport; Odbert, 1936).

Referências