Experimento de Albert Stevens e os “Plutonium Files”
Em 14 de maio de 1945, Albert Stevens, um pintor de casas de 58 anos, residente em Ohio, foi internado no University of California Hospital, em São Francisco, com um diagnóstico equivocado de câncer gástrico. O que ele desconhecia era que, naquele contexto da corrida armamentista do Projeto Manhattan, seu caso seria transformado em uma oportunidade de pesquisa. Sem qualquer tipo de consentimento informado, Stevens recebeu uma injeção intravenosa contendo cerca de 131 kBq de plutônio‑238 e plutônio‑239 — materiais altamente radioativos. Seu corpo passou a ser monitorado como um campo experimental para a distribuição do plutônio nos tecidos humanos.
Ao longo das décadas seguintes, Albert Stevens continuou sua vida sem saber que havia se tornado o ser humano com a maior dose registrada de radiação acumulada: aproximadamente 64 Sv (6400 rem), valor letal em condições agudas. Curiosamente, como o diagnóstico de câncer estava errado e ele não recebeu quimioterapia, Stevens viveu até 1966, morrendo de causas não relacionadas à radiação. Os experimentos que envolviam Stevens e outros pacientes foram mantidos sob sigilo por décadas.
A verdade emergiu apenas nos anos 1990, graças ao trabalho investigativo da jornalista Eileen Welsome, cuja série de reportagens rendeu o Prêmio Pulitzer e foi posteriormente reunida no livro The Plutonium Files (Welsome, 2024). A repercussão gerou indignação pública e motivou a criação do Comitê Consultivo sobre Experimentos de Radiação Humana (ACHRE), que expôs dezenas de estudos similares conduzidos entre 1944 e 1974 nos Estados Unidos, muitos deles envolvendo crianças, gestantes, militares e populações vulneráveis.
De volta ao topo