9  Problemas da Psicopatologia

Questão para reflexão

Todo sintoma é anormal? Podemos chamar de sintoma um fenômeno comum?

9.1 Os quatro problemas da psicopatologia descritiva

Em primeiro lugar, trata-se de uma linguagem criada há mais de um século, num mundo bastante diferente de hoje, num momento histórico em que os conceitos de normal e anormal eram aceitos sem os questionamentos atuais e em que vigiam concepções de anormalidade, loucura e insanidade bastante distintas das contemporâneas. Utilizar essa linguagem sem uma avaliação crítica de suas origens e limites pode ser inapropriado (Berrios, 2012). O próprio nome da disciplina carrega esse preconceito: por psicopatologia se entende o estudo dos fenômenos anormais — ou seja, já existe uma pré-conceitualização de que o fenômeno estudado é anormal. Entretanto, hoje sabemos que muitos dos fenômenos descritos podem ser encontrados na população em geral sem representar qualquer anormalidade. Sabe-se hoje que alucinações auditivas, já consideradas no passado indicativos de doença mental, podem ocorrer em indivíduos sem nenhuma patologia: alguns estudos indicam que apenas uma minoria dos que ouvem vozes tem algum transtorno psiquiátrico (Jardri et al., 2013), e dados de comunidade mostram que apenas cerca de 25% daqueles que apresentaram alucinações têm algum diagnóstico psiquiátrico (Johns et al., 2002).

Em segundo lugar, essa linguagem foi construída a partir de observações de pacientes institucionalizados — ou seja, uma amostra bastante enviesada e muito diferente da população hoje atendida nos consultórios de psiquiatria ou psicologia. Tratava-se, em sua maioria, de pessoas com sintomas extremos, cronicamente isoladas, sem tratamentos efetivos disponíveis, e frequentemente incluindo casos de deficiência intelectual, demência e sequelas de neurossífilis. Como esses pacientes eram considerados loucos ou insanos, os fenômenos mentais por eles vivenciados eram interpretados como sintomas de suas doenças, ou seja, como fenômenos anormais e patológicos. Fazia sentido, naquele contexto, criar uma linguagem para descrever fenômenos anormais — uma psicopatologia. Parecia que seria fácil distinguir o normal do anormal: afinal, os sintomas dos pacientes asilados eram bastante diferentes dos da população geral. Mas o tempo mostrou que a situação é bem mais complexa. O delírio, um dos conceitos centrais da psicopatologia e que já foi considerado “a característica básica da loucura”, não possui até hoje um conceito definitivo e preciso (Porcher, 2016).

Em terceiro lugar, o projeto de descrição da psicopatologia não é tão meramente descritivo como se imaginava. A psicopatologia descritiva é diferenciada da psicopatologia explicativa por não pretender buscar explicações sobre a experiência descrita, mas apenas descrever e categorizar os fenômenos vividos pelos pacientes. Assim, ela é usualmente caracterizada como ateórica — ou seja, pretenderia descrever sem se basear em teorias ou suposições pré-estabelecidas (Oyebode, 2018). Entretanto, “a observação nunca é uma atividade cognitiva inocente”: toda descrição dos fenômenos mentais se fundamenta em suposições sobre a natureza do comportamento, de tal forma que a psicopatologia descritiva é, na verdade, uma rede conceitual que inclui tanto os sintomas quanto o paciente e o observador (Berrios, 1996). Em outras palavras, a linguagem da psicopatologia descritiva incorpora todos os vieses culturais e epidemiológicos decorrentes das situações históricas em que foi construída. Não existe e nunca existiu um método descritivo puramente ateórico (Berrios, 1989).

Em quarto lugar, descrever algo não significa que a coisa descrita exista. Um nome não deve ser entendido como a representação exata de uma realidade. Essa é uma questão que dá origem a difíceis debates na psiquiatria — mas o reconhecimento dessas limitações não diminui a importância da psicopatologia descritiva. Ao contrário, é o que torna possível sua prática responsável. Como argumentaram Stanghellini e Broome em editorial recente, a psicopatologia deveria ser tratada como ciência básica da psiquiatria, distinta da nosografia e da classificação diagnóstica, e como elemento estruturante da identidade intelectual de clínicos e pesquisadores (Stanghellini; Broome, 2014). Reconhecer seus limites é parte do exercício rigoroso da disciplina, não negação dela.

Referências