7 Categorias culturais e a ilusão da naturalidade
O que é psicopatologia cultural?
7.1 A história de “balan”
Os Dyirbal, povo aborígene da Austrália, têm em sua língua um sistema de classes gramaticais comparável — mas mais complexo — ao nosso masculino e feminino. Uma dessas classes é chamada balan, e nela estão incluídos, entre outros elementos, as mulheres, o fogo, a água, o sol e a lua, animais perigosos como escorpiões e algumas cobras, e o pássaro-da-chuva. À primeira vista, agrupar mulheres, fogo e coisas perigosas na mesma categoria parece completamente arbitrário, sem qualquer lógica subjacente. Mas há uma lógica — apenas não é a nossa.
O antropolinguista George Lakoff, em seu livro Women, Fire, and Dangerous Things: What Categories Reveal About the Mind (Lakoff, 1987), mostrou que balan não é arbitrário; faz pleno sentido dentro do sistema mitológico e cosmológico Dyirbal. As mulheres são a categoria central; o fogo e o sol estão mitologicamente associados ao feminino, assim como a água, com suas conexões com fertilidade e chuva. Animais perigosos, por sua vez, têm conexões míticas com o feminino, e o pássaro-da-chuva é considerado mitologicamente feminino. Trata-se, portanto, de uma cadeia de associações que faz sentido dentro daquela cultura, mas que é completamente invisível para quem está de fora. Lakoff utiliza esse exemplo para demonstrar que a categorização não é universal nem natural, mas culturalmente construída. Cada vez que vemos algo como “um tipo de coisa” — uma árvore, uma cadeira, uma doença —, estamos categorizando; e essas categorias não são simplesmente descobertas na natureza, são construídas por processos cognitivos e culturais. Como ele próprio resume: “categorização não é um assunto a ser relegado aos filósofos fora da corrente principal — não há nada mais básico do que a categorização para nosso pensamento, percepção, ação e fala” (Lakoff, 1987).
7.2 As categorias da psicopatologia
Considere o diagnóstico de esquizofrenia. Essa categoria reúne, sob um mesmo rótulo, fenômenos heterogêneos: alucinações auditivas, delírios — em geral persecutórios ou bizarros —, desorganização do pensamento, embotamento afetivo, comportamento bizarro ou catatônico e prejuízo no funcionamento social e ocupacional. Por que esses sinais e sintomas se agrupam nesse diagnóstico e não em outro? Não por uma razão óbvia ou natural. Foi Emil Kraepelin, no final do século XIX, quem notou que certos pacientes apresentavam esse conjunto de manifestações e tinham um curso de deterioração progressiva, e denominou esse padrão dementia praecox (demência precoce), em comparação à demência senil descrita por seu colega Alois Alzheimer. Esse agrupamento, porém, jamais foi definitivo: Eugen Bleuler renomeou o quadro como esquizofrenia (mente dividida) e alterou os critérios; Kurt Schneider propôs seus sintomas de primeira ordem; o DSM-III operacionalizou critérios; o DSM-5 removeu subtipos. Em cada etapa, a categoria foi reconfigurada. O que reúne esses sintomas não é uma essência natural preexistente, mas uma história de decisões clínicas e conceituais.
Se um Dyirbal olhasse de fora para nossa categoria esquizofrenia, poderia perguntar por que agrupamos alucinações, delírios e desorganização do pensamento sob esse nome — que lógica mitológica sustenta o conjunto? Responderíamos que Kraepelin notou esses sintomas aparecendo juntos, que Bleuler renomeou, que o DSM operacionalizou. Ou seja: há uma história, um contexto, uma lógica interna — mas não há uma categoria natural preexistente, esperando ser descoberta como se descobrem elementos químicos. Tanto balan quanto esquizofrenia são categorias construídas. Balan agrupa mulheres, fogo e coisas perigosas a partir de uma lógica mitológico-cosmológica que faz sentido dentro do sistema Dyirbal; esquizofrenia agrupa alucinações, delírios e desorganização a partir de uma lógica de observação clínica e história conceitual que faz sentido dentro do sistema médico ocidental. A diferença é que vivemos dentro do nosso sistema e não percebemos sua contingência — balan parece bizarra para nós, mas esquizofrenia pareceria igualmente bizarra para quem estivesse fora.
7.3 O efeito de retroalimentação das categorias humanas
Ian Hacking, filósofo da ciência canadense, observou que as categorias com que descrevemos pessoas têm uma propriedade peculiar que as distingue das categorias com que descrevemos coisas: as pessoas reagem ao serem classificadas, e essa reação modifica, ao longo do tempo, o próprio fenômeno que a categoria pretendia descrever. Átomos não sabem que são átomos, e plantas não modificam seu comportamento ao serem chamadas de plantas. Mas alguém diagnosticado com depressão, transtorno do déficit de atenção ou transtorno de personalidade borderline frequentemente passa a se compreender através do diagnóstico, organiza sua narrativa pessoal em torno dele, ajusta seu comportamento — consciente ou não — ao perfil esperado e contribui, junto com outros pacientes assim classificados, para a configuração coletiva da categoria. Hacking chamou esse processo de looping effect, ou efeito de retroalimentação, das classes humanas (Hacking, 1995, 1999).
A consequência desse efeito é importante para a psicopatologia descritiva. Quando se cria uma nova categoria diagnóstica, não se está apenas observando algo que já estava lá; está-se, em alguma medida, intervindo no que estará lá. Pacientes diagnosticados com a nova categoria começam a se identificar com ela, a se reconhecer em descrições antes alheias, a buscar tratamentos específicos, a formar associações de portadores, a publicar relatos em primeira pessoa. A categoria começa a moldar a experiência dos próprios classificados, e a experiência assim moldada, por sua vez, refina a categoria. Esse circuito não é vício epistêmico isolado da psiquiatria — é a estrutura geral pela qual conceitos humanos sobre humanos operam. É, no entanto, uma razão a mais para usar essas categorias com consciência de seu poder constitutivo, e não apenas descritivo.
7.4 Categorias naturais e categorias construídas
Em filosofia da ciência, debate-se há séculos o que constitui uma categoria natural (natural kind). São exemplos clássicos os elementos químicos (ouro, carbono, oxigênio), as partículas subatômicas (elétrons, prótons) e, com ressalvas, as espécies biológicas. Categorias naturais teriam certas propriedades: existem independentemente de nosso conhecimento delas, têm estrutura causal estável, sustentam induções confiáveis e são descobertas, não inventadas.
Os diagnósticos psiquiátricos não são categorias naturais nesse sentido. As fronteiras entre eles são pragmáticas, não descontinuidades naturais claras: onde termina a ansiedade normal e começa o transtorno de ansiedade, por exemplo, é uma linha definida por critério de prejuízo funcional, não por uma cisão observável na realidade. Há considerável heterogeneidade entre membros da mesma categoria: dois pacientes com diagnóstico de depressão podem ter quadros sintomatológicos muito diferentes, já que o diagnóstico é politético — bastam cinco de nove critérios, e duas pessoas podem satisfazer o conjunto sem compartilhar um único sintoma. Há também instabilidade temporal: a histeria desapareceu dos manuais, o autismo expandiu-se radicalmente, a homossexualidade foi retirada do DSM. E há grande variação cultural, como mostram as chamadas síndromes ligadas à cultura, que aparecem em determinadas regiões e tradições e estão ausentes em outras.
Nada disso significa que não haja algo real por trás dos diagnósticos. Pessoas realmente sofrem, têm experiências perturbadoras, enfrentam disfunções concretas em suas vidas. O que essas observações sugerem é que a forma como recortamos, agrupamos e nomeamos esses fenômenos é histórica e culturalmente contingente. Assim como balan faz sentido dentro do sistema Dyirbal, esquizofrenia faz sentido dentro do sistema médico ocidental — e em ambos os casos a contingência só se revela a quem consegue, ao menos por um momento, olhar de fora.