4 O observador
4.1 O observador implicado
Apesar das contribuições de Jaspers e da sofisticação do método fenomenológico, um problema permanece no centro da psicopatologia: não temos acesso direto à experiência subjetiva do outro. A dor, o medo, a tristeza, a experiência delirante não se oferecem ao clínico como objetos imediatamente disponíveis à observação. O que encontramos, na situação clínica, não é a experiência psíquica em estado puro, mas uma experiência expressa, narrada, traduzida e compartilhada por quem a vive. Um dos desafios da psicopatologia é que ela pretende descrever rigorosamente fenômenos que só se tornam acessíveis por meio de uma relação entre experiência vivida, linguagem e observação clínica (Jaspers, 1979; Parnas; Sass; Zahavi, 2013).
O relato do paciente não é um dado bruto. Para dizer o que sente, o paciente precisa transformar sua experiência em linguagem. Precisa escolher palavras, recorrer a imagens, aproximar sua vivência de experiências conhecidas, utilizar categorias disponíveis em seu contexto cultural e, muitas vezes, adaptar uma experiência estranha ou confusa a formas de expressão que possam ser compreendidas pelo outro.
O trabalho clínico começa exatamente nesse intervalo entre a experiência vivida e sua expressão. O paciente transforma sua experiência em relato; o clínico, por sua vez, transforma esse relato em descrição. Essa passagem nunca é automática. O clínico tenta compreender como aquela pessoa organiza aquilo que vive, através da escuta empática, interpretação, comparação, inferência e escolha conceitual.
Entretanto, uma mesma expressão usada por diferentes pacientes pode designar fenômenos bastante diversos. Alguns pacientes descrevem vozes com nitidez sensorial; outros falam de pensamentos que adquiriram uma qualidade quase auditiva; outros ainda utilizam a palavra “voz” de modo metafórico, para indicar um pensamento, uma lembrança insistente, uma forma de autocensura ou uma presença subjetiva difícil de caracterizar. O nome organiza o campo, facilita a comunicação e orienta decisões clínicas; ao mesmo tempo, pode empobrecer a singularidade da experiência quando aplicado de maneira apressada. Esse é um dos motivos pelos quais a psicopatologia fenomenológica contemporânea insiste na necessidade de retornar à estrutura vivida dos fenômenos, antes de reduzi-los a sinais diagnósticos já estabilizados (Stanghellini, 2004; Stanghellini et al., 2019).
Quando alguém diz “ouço vozes”, “minha cabeça não para”, “parece que estou fora de mim”, “não sinto mais nada” ou “tenho pensamentos que não parecem meus”, não está simplesmente entregando ao clínico um fato interno já pronto. Está tentando tornar comunicável uma experiência que talvez seja, em si mesma, instável, ambígua ou difícil de nomear. A narrativa não é apenas o veículo da experiência; ela participa do modo como o sujeito a organiza e a torna inteligível para si e para os outros (Ricoeur, 1992).
A escuta do relato dos fenômenos mentais também não é uma atividade meramente receptiva, mas interpretativa. Quando descrevemos a experiência de um paciente, não estamos apenas registrando fatos objetivos. Estamos interpretando, organizando e categorizando uma narrativa que nos é apresentada. Essa interpretação é mediada por diversos fatores: pela nossa formação teórica, pelas categorias conceituais disponíveis, pela nossa experiência clínica, por nossa cultura e momento histórico e pela relação concreta que estabelecemos com aquele paciente.
Berrios observou que a psicopatologia descritiva não deve ser compreendida como uma simples nomenclatura de fenômenos naturais previamente dados, mas como uma rede conceitual historicamente constituída, na qual sintomas, pacientes e observadores se articulam (Berrios, 1996, p. 1). A observação clínica, portanto, não é uma atividade cognitiva inocente: ela depende de pressupostos sobre a natureza da mente, do comportamento, da linguagem e do sofrimento humano.
Dizer que a observação psicopatológica é mediada por conceitos não significa dizer que ela seja arbitrária. A desorganização do pensamento, o pânico, a melancolia, a mania, a experiência delirante, a compulsão ou a sensação de perda de si não são simples invenções do observador. Há algo que solicita compreensão, cuidado e intervenção. Esse algo só se torna clinicamente visível quando é organizado por uma linguagem, por uma tradição descritiva e por uma relação de observação. A psicopatologia não cria o sofrimento que descreve, mas também não o encontra já dividido em categorias naturais, prontas para serem apenas nomeadas.
A entrevista psicopatológica não deve ser concebida como uma coleta neutra de informações. A forma como o clínico pergunta, o momento em que interrompe, o modo como reage, os termos que utiliza, a atenção que concede a certos aspectos e não a outros, tudo isso participa da construção da narrativa clínica. O paciente pode sair da entrevista compreendendo de outro modo aquilo que vive. Pode sentir-se reconhecido, enquadrado, aliviado, ameaçado ou autorizado a nomear algo que antes permanecia amorfo. A observação clínica, nesse sentido, já é uma forma inicial de intervenção.
O problema do observador em psicopatologia não se resolve, portanto, pela busca de uma neutralidade absoluta. Essa neutralidade é impossível, porque o observador está sempre situado: observa a partir de uma linguagem, de uma formação, de uma tradição, de uma instituição, de uma cultura e de uma relação concreta com o paciente. O clínico precisa interrogar suas próprias categorias, explicitar seus pressupostos, ouvir a linguagem do paciente antes de substituí-la pela linguagem técnica, considerar o contexto cultural da experiência e manter suas formulações abertas à revisão.
Em vez de buscar uma neutralidade impossível, a psicopatologia deve cultivar uma reflexividade disciplinada: uma forma de observação que reconhece sua própria participação no fenômeno, mas se mantém aberta à crítica, à revisão e à responsabilidade clínica.