3  O problema do objeto e o método fenomenológico

Questão para reflexão

Como podemos estudar cientificamente aquilo a que só temos acesso pelo relato do outro?

3.1 A peculiaridade do objeto psicopatológico

A psicopatologia descritiva propõe-se a descrever e classificar fenômenos mentais. Diferentemente da anatomia ou da fisiologia, contudo, seus objetos de estudo não são diretamente observáveis por um investigador externo. Uma alucinação auditiva não pode ser fotografada. Um delírio de perseguição não pode ser pesado nem medido com instrumentos. A experiência de despersonalização não deixa marca visível no corpo. O objeto da psicopatologia é, fundamentalmente, a experiência subjetiva — aquilo que aparece à consciência de uma pessoa, mas que não é diretamente acessível a outra. Como então podemos estudar cientificamente algo que, por definição, só é diretamente acessível a quem o vivencia?

Considere dois pacientes que dizem ter dor de cabeça. Como sabemos se estão sentindo a mesma dor? Podemos estimar a intensidade através de escalas numéricas, mas essas escalas dependem do relato verbal do paciente. Não temos acesso direto à experiência dolorosa de outra pessoa, não podemos entrar na consciência alheia e sentir o que ela sente. Na medicina geral, lidamos com essa limitação apoiando-nos em correlatos objetivos: exames de imagem, análises laboratoriais, sinais vitais. Em psicopatologia, contudo, frequentemente não há correlatos objetivos suficientemente específicos. Não existe um exame de sangue para o delírio, tampouco uma ressonância magnética da angústia que nos permita verificar diretamente a experiência do paciente. Dependemos, portanto, fundamentalmente do relato — da narrativa que o paciente nos oferece sobre sua própria experiência, mediada pela linguagem, pela capacidade de expressão, pela relação terapêutica e pelo contexto cultural.

Se dois médicos discordarem sobre se um paciente tem delírio, como resolvem a questão? Não podem abrir a mente do paciente como abririam um cadáver. Podem entrevistá-lo novamente, buscar mais informações, tentar compreender melhor sua experiência. Mas a verificação permanece indireta, mediada, interpretativa. Esse é um problema epistemológico fundamental da disciplina: como validar nossas descrições de experiências subjetivas; como saber se compreendemos corretamente o que o paciente experimenta.

3.2 O método fenomenológico de Jaspers

O método para enfrentar essa peculiaridade do objeto foi introduzido na psicopatologia por Karl Jaspers em 1913, com o nome de método fenomenológico. Segundo Jaspers, os sintomas subjetivos do paciente deveriam ser compreendidos através de uma relação empática, num processo pelo qual o paciente compartilha suas experiências com o médico (Jaspers, 1979; Telles-Correia; Saraiva; Marques, 2018). Mais do que um conjunto de técnicas, tratava-se de uma postura: a tentativa de apreender, da forma mais aproximada possível, como uma dada experiência mental aparece para quem a vivencia.

Para Jaspers, há dois modos fundamentais de conhecimento, e a psicopatologia precisa começar reconhecendo a diferença entre eles: Explicar e Compreender. Erklären (explicar) é o modo das ciências naturais: buscar causas, mecanismos, relações causais. A febre é causada por uma infecção bacteriana; a hipertensão pelo aumento da resistência vascular periférica; o infarto pela oclusão coronariana. Verstehen (compreender) é o modo das ciências do espírito: apreender o sentido, a vivência, a experiência tal como é para quem a vive. O paciente sente-se perseguido e vive em estado de constante vigilância; sente-se sem energia e sem esperança; sente seu corpo como estranho e seus pensamentos como impostos por outro. Como escreveu Jaspers, “explicamos a natureza, compreendemos a vida psíquica” (Jaspers, 1979). A psicopatologia descritiva, segundo ele, deve começar pela compreensão — pela tentativa de apreender fenomenologicamente o que o paciente vivencia — para só então buscar explicações causais.

Para Jaspers, as duas grandes classes de manifestações psicopatológicas — objetivas e subjetivas — não se equiparavam aos clássicos sinais e sintomas da clínica médica. Ele considerava também serem manifestações psíquicas objetivas os sintomas do paciente que pudessem ser intelectualmente compreendidos (Jaspers, 1979; Telles-Correia; Saraiva; Marques, 2018). Assim, um delírio poderia ser considerado um dado objetivo para a psicopatologia (Telles-Correia; Saraiva; Marques, 2018) — não porque fosse observável externamente, mas porque sua estrutura lógica (ou a falta dela) pode ser compreendida intersubjetivamente. A nuance é sutil, mas importante: Jaspers afirmava que a compreensão empática de uma experiência subjetiva pode gerar conhecimento válido e compartilhável, mesmo sem observação direta.

A fenomenologia de Jaspers, contudo, derivada da filosofia, era difícil de aplicar na clínica psiquiátrica da época. Coube a seu discípulo Kurt Schneider a tarefa de transformar a psicopatologia fenomenológica e filosófica de Jaspers numa psicopatologia clínica efetivamente aplicável (Huber, 2002). O livro-texto de Schneider, Psicopatologia clínica, foi uma síntese mais acessível do pensamento jaspersiano e tornou-se o livro didático formativo da psiquiatria alemã por várias décadas (Häfner, 2015). Uma das mais conhecidas contribuições de Schneider foram seus sintomas de primeira ordem — uma série de fenômenos psicopatológicos que, segundo ele, poderiam indicar o diagnóstico de esquizofrenia. Embora muito da obra de Schneider tenha sido superada pelos avanços da psiquiatria, a ideia de que um conjunto específico de sintomas seria importante para o diagnóstico sobrevive até hoje nos critérios do DSM e da CID.

3.3 Síntese: anatomia × psicopatologia

Podemos agora elaborar com mais precisão as diferenças entre o trabalho do anatomista e o do psicopatologista:

Comparação entre anatomia e psicopatologia
Aspecto Anatomia Psicopatologia
Objeto Estruturas físicas (órgãos, tecidos) Experiências subjetivas
Acesso Observação direta externa Relato verbal + inferência
Verificação Inspeção, medição, dissecção Compreensão empática, interpretação
Consenso Dois anatomistas veem o mesmo órgão Dois psiquiatras interpretam o mesmo relato
Método Observação objetiva Compreensão fenomenológica
Natureza do conhecimento Erklären (explicação) Verstehen (compreensão) + Erklären
Estabilidade Estruturas anatômicas são universais Sintomas variam com cultura/época

A diferença fundamental é esta: na anatomia, o objeto existe independentemente do observador; na psicopatologia, objeto, observador e processo de observação estão inextricavelmente entrelaçados.

Referências