8 Linguagem e percepção
Vemos o que descrevemos, ou descrevemos o que vemos?
8.1 Linguagem como instrumento de percepção
A discussão sobre categorias culturais conduz naturalmente a uma questão correlata: até que ponto a linguagem que usamos para descrever os fenômenos mentais participa da própria forma como os percebemos? Tradicionalmente, supõe-se que a linguagem nomeie categorias preexistentes no mundo — que primeiro vemos as coisas e depois lhes damos nomes. Há razões, porém, para suspeitar que a relação seja mais complexa, e que em alguma medida a linguagem participe do próprio ato de ver.
Essa hipótese — de que a estrutura do idioma molda os modos de percepção — tem longa história filosófica e tornou-se conhecida sobretudo através dos trabalhos de Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf na primeira metade do século XX (Sapir, 1949). Por décadas, foi tratada como especulação interessante mas dificilmente verificável. Nas últimas décadas, porém, estudos experimentais começaram a oferecer evidência empírica para algumas de suas previsões, e a chamada relatividade linguística passou a ser objeto de investigação em psicologia cognitiva, antropologia e neurociência (Pourcel, 2005).
8.2 Estudos sobre linguagem e percepção
Um dos campos em que a influência da linguagem na percepção foi mais bem documentada é o da percepção de cores. Diferentes línguas dividem o espectro cromático de maneiras distintas: algumas têm apenas dois ou três termos básicos para cores, enquanto outras têm onze ou mais. Há um consenso razoavelmente estabelecido de que a percepção da cor é modulada pela linguagem e varia com a cultura e o idioma (Davidoff, 2001). Estudos comparando falantes de línguas diferentes mostram que a discriminação perceptiva de tons próximos varia conforme a categoria cromática esteja ou não codificada lexicalmente no idioma do observador (Roberson; Hanley, 2007), e estudos de neuroimagem indicam que essas diferenças têm correlatos cerebrais detectáveis já em estágios precoces do processamento visual (Athanasopoulos et al., 2009). A categorização linguística, em outras palavras, não opera apenas no momento em que nomeamos uma cor; opera antes, no instante mesmo em que a vemos.
Padrões semelhantes têm sido encontrados em outros domínios da percepção. A linguagem com que descrevemos as emoções, por exemplo, parece modular como as identificamos, categorizamos e experimentamos: estudos mostram que diferenças lexicais entre culturas correspondem a diferenças nos modos como as emoções são reconhecidas em rostos, narradas em primeira pessoa e organizadas conceitualmente (Lindquist et al., 2006). Não se trata de afirmar que pessoas de culturas distintas sintam emoções essencialmente diferentes, mas de reconhecer que o repertório linguístico participa da experiência emocional — fazendo distinções onde outros não distinguem, agrupando onde outros separam. A tese mais geral, segundo a qual as emoções não são meros estados biológicos brutos, mas, em parte, performances socioculturalmente organizadas, foi articulada com particular força por Rom Harré e colegas, que mostraram como o vocabulário e as práticas comunais de cada cultura participam da forma como emoções específicas se manifestam, se reconhecem e se vivem (Harré; Parrott, 1996).
8.3 Luria e a categorização cultural
Antes mesmo desses estudos contemporâneos, o psicólogo soviético Alexander Luria conduziu, nos anos 1930, uma série de investigações em regiões remotas da Ásia Central que ofereceram exemplos vívidos da relação entre cultura, escolaridade e categorização (Luria, 1976). Em uma das tarefas, Luria apresentava aos participantes formas geométricas simples — círculos, triângulos, quadrados — e pedia que as nomeassem. Pessoas com instrução formal usavam os termos abstratos esperados; participantes não letrados, ao contrário, raramente recorriam à nomenclatura geométrica. Diziam que um círculo era um prato, ou um relógio, ou a lua, e que um triângulo era um telhado ou uma tenda. A forma abstrata não se apresentava a eles como categoria autônoma, mas como semelhança parcial com objetos do mundo prático.
Em outra tarefa, Luria apresentava um conjunto de objetos — um martelo, um serrote, um machado e um pedaço de madeira — e pedia que os agrupassem segundo algum critério. A resposta esperada na tradição ocidental letrada era óbvia: martelo, serrote e machado formam uma classe — ferramentas — e a madeira fica de fora. Muitos participantes não letrados, contudo, agrupavam os quatro juntos: o pedaço de madeira pertencia ao conjunto porque sem ele as ferramentas não tinham função. O critério não era a essência abstrata dos objetos, mas o contexto prático em que apareciam juntos. Luria interpretou esses achados, com a linguagem de sua época, como evidência de modos qualitativamente distintos de pensamento; hoje preferimos dizer que se trata de formas diferentes — não inferiores — de categorização, profundamente moldadas pelo tipo de linguagem que cada comunidade desenvolve e pelo tipo de prática a que essa linguagem responde.
8.4 A psicopatologia como instrumento linguístico
A relevância desses achados para a psicopatologia é considerável. Se a linguagem participa da estruturação da percepção, então o vocabulário psicopatológico que aprendemos ao longo da formação médica não é simplesmente um conjunto de etiquetas neutras que aplicamos a fenômenos previamente identificados: ele participa, em alguma medida, da própria identificação dos fenômenos — recortando experiências, agrupando manifestações, distinguindo o que num outro vocabulário poderia permanecer indistinto. O clínico que aprendeu a discriminar entre alucinação, ilusão e pseudoalucinação não vê o mesmo que o leigo vê quando ouve o relato de um paciente. Vê mais — e vê diferente.
Essa situação pede cautela, e tanto o DSM-5 quanto a CID-11 contêm advertências explícitas a respeito. As classificações psiquiátricas contemporâneas reconhecem que é necessário avaliar como os fenômenos analisados são percebidos e julgados pelos membros da comunidade, da cultura e da família do indivíduo (American Psychiatric Association, 2013): a cultura proporciona uma estrutura de interpretação que molda a experiência e a expressão dos sintomas, sinais e comportamentos. Como somos, contudo, produto da nossa própria cultura, raramente percebemos como nossa visão de mundo é por ela moldada — e tendemos a tomar como naturais as distinções que apenas refletem a língua e os hábitos descritivos que herdamos.
Os exemplos clínicos são abundantes. Vozes ouvidas por uma paciente podem ser, no Ocidente secular contemporâneo, classificadas como alucinações auditivas e tratadas como sintoma psicótico; em uma comunidade espírita, são facilmente reconhecidas como comunicação mediúnica; em contextos religiosos pentecostais, como a voz de Deus dirigindo-se ao fiel; em diversas tradições indígenas, como o canal através do qual ancestrais e entidades se manifestam. A experiência bruta — perceber algo na ausência de um estímulo externo discernível — pode ser, em todos esses casos, fenomenologicamente próxima. Mas o significado que se lhe atribui, a interpretação subjetiva, a resposta da família e da comunidade, e o lugar que essa vivência ocupa na narrativa de vida da pessoa são profundamente diferentes. Algo análogo se passa com as experiências de incorporação em tradições afro-brasileiras como o candomblé e a umbanda: lidas com o vocabulário psicopatológico ocidental, podem ser apressadamente enquadradas como transtorno dissociativo; lidas com o vocabulário da própria tradição, são marcos esperados e socialmente integrados de uma vida religiosa. A diferença entre o sintoma e a vivência espiritual, nesses casos, não está apenas no fenômeno — está também na linguagem com que se o descreve.
8.5 Inverter o olhar
Há um exercício útil para tornar visível a contingência do vocabulário psicopatológico que usamos: aplicá-lo a quem normalmente é tomado como referência da normalidade. A comunidade autista mantém há anos um sítio satírico chamado Institute for the Study of the Neurologically Typical, no qual se faz uma descrição psicopatológica do “neurologicamente típico” — isto é, do não-autista. Segundo a paródia, os neurotípicos acham difícil ficar sozinhos, costumam ser intolerantes com diferenças aparentemente menores nos outros, são social e comportamentalmente rígidos quando em grupos e frequentemente insistem na realização de rituais disfuncionais como forma de manter a identidade do grupo. A descrição é evidentemente humorística, mas o que torna o exercício mais que uma brincadeira é a constatação de que, em sua estrutura formal, ela não difere das descrições com que rotineiramente caracterizamos o autismo.
O que essa inversão revela não é que as descrições psicopatológicas sejam falsas, e tampouco que sejam intercambiáveis com as de seus alvos. Revela, sim, que a linguagem com que descrevemos comportamentos depende em larga medida do ponto de vista de quem descreve, e que as categorias diagnósticas — por mais úteis e necessárias que sejam para o trabalho clínico — não escapam a essa condição. Quem decide o que é normal? Em alguma medida, quem detém o vocabulário com que se descreve.
8.6 A linguagem como ferramenta, não como espelho
Nem toda tradição filosófica trata a linguagem como instrumento de descoberta da realidade. Em algumas linhas do pensamento ocidental, e de maneira particularmente desenvolvida na tradição budista, a linguagem é entendida como criação que o ser humano impõe sobre o mundo, e não como espelho daquilo que o mundo seria em si (Cook, 1993). A taxonomia é tida como prática útil — útil precisamente enquanto não for “levada a sério demais” —, e a tentação de tomar palavras por coisas, ou categorias por essências, é identificada como uma das principais fontes de equívoco filosófico e existencial. Trata-se de uma perspectiva distante da pretensão científica moderna, mas o cuidado epistêmico que ela propõe ressoa com o que aqui se tem dito: as categorias da psicopatologia descritiva são ferramentas conceituais, não fotografias da mente.
Talvez a melhor formulação dessa relação dialética seja a oferecida por Sapir, ao observar que “o instrumento torna possível o produto, e o produto refina o instrumento” (Sapir, 1949). A linguagem da psicopatologia tornou possível um certo tipo de produto — descrição refinada da vida mental, comunicação entre clínicos, classificação de transtornos — que sem ela seria impossível. Mas o próprio produto, ao ser construído, refina o instrumento que o produziu: cada nova distinção exige termos novos, cada categoria que se mostra inadequada empurra o vocabulário a se reorganizar, cada paciente cuja experiência excede os rótulos disponíveis denuncia o limite da linguagem que herdamos. Reconhecer essa circularidade não é renunciar à psicopatologia descritiva; é usá-la com a humildade que sua história e sua estrutura recomendam.