Viés de seleção

Quando a amostra não é representativa da população

Seleção

Definição

Viés de seleção (selection bias)

Erro sistemático causado por diferenças sistemáticas entre as características dos participantes selecionados para o estudo e as da população-alvo. A associação medida na amostra deixa de corresponder à que existe na população (1,2).

A pergunta operacional do viés de seleção é:

A amostra é representativa da população? Se a resposta é “não”, não se pode generalizar os resultados — não porque a amostra é pequena (esse é problema de erro aleatório), mas porque ela é sistematicamente diferente da população.

Mecanismo

A entrada (ou a saída) do estudo está associada simultaneamente à exposição e ao desfecho. Quando isso acontece, a frequência relativa de exposição entre os doentes na amostra deixa de refletir a frequência relativa na população.

Mecanismo geral

selecionar com base em uma variável → essa variável também está associada à exposição e ao desfecho → associação observada ≠ associação populacional

Exemplos clássicos

1 · Estudos restritos a clientelas específicas

Estudo sobre prevalência de hipertensão apenas em pacientes de clínicas privadas. Clientela rica, mais acesso a tratamento, perfil epidemiológico muito diferente da população geral. A prevalência estimada não é generalizável.

2 · Recrutamento em contextos com perfil enviesado

Pesquisa sobre prevalência de diabetes recrutando voluntários em eventos esportivos. Selecionou-se um grupo sistematicamente mais saudável que a média.

3 · Amostra de conveniência

Pesquisa eleitoral feita num reduto eleitoral de um partido específico. A previsão será viesada na direção desse partido.

4 · Literary Digest 1936

Um caso conhecido do gênero: 10 milhões de questionários enviados a assinantes da revista, donos de carro e listas telefônicas, em plena Grande Depressão. Foram amostrados sobretudo os mais ricos. A previsão (vitória de Landon) errou o resultado (vitória de Roosevelt com 60% dos votos) (3,4).

Caso clássico

Literary Digest 1936   A revista entrevistou 2,4 milhões de pessoas — uma amostra 600 vezes maior que a do Instituto Gallup — e errou. O Gallup, com 50 mil entrevistados mas amostragem representativa, acertou. O problema do viés de seleção não se resolve com tamanho amostral.

Veja a análise completa →

Variantes nominadas do viés de seleção

Nome Manifestação típica
Viés de Berkson Casos e controles recrutados em hospital
Viés de Neyman (prevalência-incidência) Estudos transversais capturam casos crônicos, perdem casos rápidos
Healthy worker effect Trabalhadores são mais saudáveis que a população geral
Viés de seleção dos controles Em caso-controle, controles não representam a população-base dos casos
Self-selection bias Voluntários diferem sistematicamente de não-voluntários
Loss to follow-up bias Em coorte, perdas correlacionadas com exposição e desfecho

Cada um tem página própria na seção Vieses nominados.

Como prevenir

A primeira linha de defesa é a amostragem probabilística, quando viável, por sorteio aleatório a partir de um cadastro populacional ou setor censitário. Convém ter uma estrutura amostral clara — saber quem podia ser recrutado, quem foi recrutado e quem aceitou — e documentar as perdas, descrevendo as características de quem se recusou ou foi excluído para comparar com quem participou. Havendo suspeita de viés, análises de sensibilidade permitem simular cenários e avaliar o quanto a conclusão muda. Quando o problema se estrutura como um nó colisor num DAG, pode ser modelado por métodos de inferência causal (2).

Veja também

A análise estrutural do viés de seleção em Hernán et al. (2) e em Hernán (5) é uma referência contemporânea; a discussão clássica está em Sackett (6). Para casos célebres, ver Squire (3) e Bryson (4) sobre Literary Digest. Em português, Rouquayrol & Silva (7) e Medronho et al. (8).

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Referências

1.
Delgado-Rodríguez M, Llorca J. Bias. Journal of Epidemiology and Community Health. 2004;58(8):635–41.
2.
Hernán MA, Hernández-Díaz S, Robins JM. A structural approach to selection bias. Epidemiology. 2004;15(5):615–25.
3.
Squire P. Why the 1936 Literary Digest poll failed. Public Opinion Quarterly. 1988;52(1):125–33.
4.
Bryson MC. The Literary Digest poll: making of a statistical myth. The American Statistician. 1976;30(4):184–5.
5.
Hernán MA. Selection bias without colliders. American Journal of Epidemiology. 2017;185(11):1048–50.
6.
Sackett DL. Bias in analytic research. Journal of Chronic Diseases. 1979;32(1–2):51–63.
7.
Rouquayrol MZ, Silva MGC da. Rouquayrol: Epidemiologia & Saúde. 8º ed. Rio de Janeiro: MedBook; 2018.
8.
Medronho RA, Carvalho DM, Bloch KV, Luiz RR, Werneck GL, organizadores. Epidemiologia. 2º ed. São Paulo: Atheneu; 2009.