Caso 1 · A pesquisa Literary Digest de 1936

Como uma amostra de 2,4 milhões errou a eleição americana

Caso clássico

O contexto

Estados Unidos, 1936. Em plena Grande Depressão, o presidente Franklin Delano Roosevelt (Democrata) disputava a reeleição contra Alfred Landon (Republicano). As pesquisas eleitorais ainda eram uma novidade — e duas se destacavam:

  • A revista Literary Digest, com a tradição de prever eleições desde 1916.
  • O recém-criado Instituto Gallup, que defendia técnicas amostrais modernas.

Os dois métodos

Comparação metodológica

Aspecto Literary Digest Instituto Gallup
Tamanho da amostra 2,4 milhões de respondentes (de 10 milhões enviados) ~50 mil
Estratégia Listas de assinantes da revista, donos de automóveis, lista telefônica Amostragem por quotas demograficamente representativa
Previsão Landon eleito com 57% Roosevelt eleito
Resultado real Roosevelt eleito com 60,8%

A revista entrevistou 48 vezes mais pessoas que o Gallup e ainda assim errou; o Gallup, com amostra muito menor, acertou.

O que deu errado

O viés de seleção

Viés de seleção. Em plena Depressão, assinantes de revistas, donos de automóveis e pessoas com telefone em casa eram desproporcionalmente ricos e republicanos. A amostra captou os mais abastados do país e ignorou a maioria empobrecida que votaria em Roosevelt.

A lista de recrutamento da Literary Digest era, em 1936, uma lista de quem podia pagar essas coisas. Os que não podiam — a maioria do eleitorado — simplesmente não tiveram chance de fazer parte da amostra (1).

A segunda camada: não-resposta

O problema foi ampliado por uma segunda camada: dos 10 milhões de questionários enviados, apenas 24% retornaram. Quem se deu ao trabalho de responder tinha opinião mais forte — outra fonte de viés (viés de não-resposta).

Bryson (2) argumenta que mesmo se a amostragem tivesse sido aleatória entre os elegíveis, o viés de não-resposta sozinho teria sido suficiente para produzir uma previsão errada.

Lições didáticas

O caso reúne algumas lições. Tamanho amostral não corrige viés: 2,4 milhões de respostas enviesadas perderam para 50 mil bem amostradas. A lista de recrutamento define a amostra, e listas convenientes produzem amostras convenientes, não representativas. A taxa de resposta também importa, e 24% é baixo e não aleatório. A conjuntura pesa: assinatura de revista e telefone em casa tinham significado socioeconômico muito diferente em 1936. A consequência foi concreta: a Literary Digest faliu pouco depois.

O erro hoje

O mesmo erro reaparece em formas modernas:

  • Pesquisas de satisfação por e-mail (viés de quem responde).
  • Surveys em redes sociais (viés de quem usa a plataforma).
  • Painéis online “voluntários” (viés de quem se cadastra).
  • Pesquisas com clientes (viés de quem comprou).

A tecnologia mudou, mas o mecanismo do viés é o mesmo.

Veja também

Análise canônica do erro em Squire (1); perspectiva estatística complementar em Bryson (2). Discussão didática em qualquer texto de epidemiologia (35).

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Referências

1.
Squire P. Why the 1936 Literary Digest poll failed. Public Opinion Quarterly. 1988;52(1):125–33.
2.
Bryson MC. The Literary Digest poll: making of a statistical myth. The American Statistician. 1976;30(4):184–5.
3.
Rouquayrol MZ, Silva MGC da. Rouquayrol: Epidemiologia & Saúde. 8º ed. Rio de Janeiro: MedBook; 2018.
4.
Gordis L. Epidemiology. 5º ed. Philadelphia: Elsevier Saunders; 2014.
5.
Sackett DL. Bias in analytic research. Journal of Chronic Diseases. 1979;32(1–2):51–63.