Viés de não-resposta

Quando quem responde difere sistematicamente de quem não responde

Seleção

Definição

Viés de não-resposta (non-response bias)

Erro sistemático causado por diferenças sistemáticas entre os participantes que respondem ao instrumento e aqueles que se recusam, não são contatados ou desistem. Os respondentes deixam de representar a população que se queria amostrar.

É uma forma de viés de seleção que se manifesta após a amostragem inicial — não no recrutamento, mas na resposta ao instrumento.

Mecanismo

A probabilidade de responder está associada à exposição, ao desfecho, ou a ambos. Quando isso acontece, a amostra dos respondentes deixa de ser representativa da amostra original.

Mecanismo geral

quem responde está associado à exposição e/ou ao desfecho → respondentes ≠ não-respondentes em variáveis chave → estimativa baseada nos respondentes ≠ estimativa que seria obtida na amostra inteira

Exemplos clássicos

1 · Questionários de satisfação

Em pesquisas de satisfação, costumam responder só os muito satisfeitos ou muito insatisfeitos — os “neutros” não se incomodam de responder. A distribuição da satisfação na amostra de respondentes é bimodal e falsa.

2 · Pesquisa por e-mail

Taxas de retorno tipicamente baixas (10-30%). Quem responde costuma ter opiniões fortes ou interesse pessoal no tema. Quem responde “por disciplina” é uma minoria.

3 · Pesquisas sobre efeitos adversos de medicamentos

Quando se pergunta a pacientes em uso de um medicamento se eles tiveram efeitos adversos, só respondem os que tiveram queixas relevantes. A prevalência estimada de efeitos adversos pode ficar bastante inflada.

4 · Hite Report

Em meados dos anos 1970, Shere Hite publicou um livro influente sobre sexualidade feminina baseado em 100 mil questionários distribuídos em grupos de auto-ajuda feminista. Apenas 4,5% foram respondidos. Os resultados — 84% de insatisfação conjugal, 70% de mulheres casadas com amantes, 76% sem sentir culpa — combinavam viés de seleção (o recrutamento) com viés de não-resposta (a taxa de retorno baixíssima e enviesada para quem tinha algo a dizer) (1).

Caso clássico

The Hite Report   100.000 questionários distribuídos, 4.500 respondidos (taxa de 4,5%). Recrutamento em grupos de auto-ajuda feminista, onde mulheres com insatisfação conjugal estão super-representadas. Dupla camada de viés — seleção + não-resposta — fez com que esses números circulassem pela imprensa por anos, embora não fossem representativos da população feminina.

Veja a análise completa →

Como prevenir ou mitigar

A primeira medida é maximizar a taxa de resposta, com múltiplos contatos, mídias diversas, incentivos éticos e instrumentos curtos. Em paralelo, convém documentar as perdas — quantos foram contatados, quantos recusaram, quantos responderam parcialmente — e, quando houver dados básicos disponíveis (idade, sexo, região), comparar respondentes e não-respondentes em variáveis-chave. Análises de sensibilidade ajudam a dimensionar o problema, simulando cenários como “e se todos os não-respondentes fossem expostos?”. Quando o padrão de não-resposta pode ser modelado, a imputação múltipla oferece um tratamento estatístico formal.

Quando se torna mais grave

Taxa de resposta baixa não é necessariamente um problema, mas é sempre suspeita Uma taxa de 95% pode ser enviesada se os 5% que faltam têm um perfil muito específico; uma taxa de 30% pode ser representativa se as perdas forem aleatórias. O que importa é o padrão das perdas, não apenas a magnitude. Ainda assim, na prática, taxas baixas (<60%) pedem cautela na análise. ## Veja também

Discussão prática em Sackett (2) e Delgado-Rodríguez & Llorca (3). O Hite Report é discutido em Hite (1) como objeto; a crítica metodológica padrão está difundida em textos de epidemiologia (4,5).

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Referências

1.
Hite S. The Hite Report: A Nationwide Study of Female Sexuality. New York: Macmillan; 1976.
2.
Sackett DL. Bias in analytic research. Journal of Chronic Diseases. 1979;32(1–2):51–63.
3.
Delgado-Rodríguez M, Llorca J. Bias. Journal of Epidemiology and Community Health. 2004;58(8):635–41.
4.
Rouquayrol MZ, Silva MGC da. Rouquayrol: Epidemiologia & Saúde. 8º ed. Rio de Janeiro: MedBook; 2018.
5.
Medronho RA, Carvalho DM, Bloch KV, Luiz RR, Werneck GL, organizadores. Epidemiologia. 2º ed. São Paulo: Atheneu; 2009.